BLACK ERROR

Criatividade não tem a ver com criar uma pintura, um romance ou uma casa, mas com criar a si próprio, criar um futuro melhor e aproveitar oportunidades que você está perdendo atualmente. Esse é um soco no estômago dado pelo escritor Jod Judkins, que é professor na Saint Martin’s College of Art, em Londres, uma das mais prestigiadas escolas de artes do mundo. “As pessoas inovadoras”, ele continua, “deixam as considerações práticas de lado porque pensar em logística leva a pensar em lógica, o que freia os saltos que a mente precisa dar para criar algo único”, afirma. Gosto da ideia de podermos usar nossos próprios olhos para ver a realidade. Na busca pelo divino, a arte nos ofereceu caminhos e atalhos variados. Criar algo único para quê? Criar a si mesmo com qual objetivo?

“Passei a vida tentando corrigir os erros
que cometi na minha ânsia de acertar.” – Clarice Lispector

Evito as séries. Evito, pois, na maioria das vezes, são viciantes. Black Mirror não causou efeito diferente. Foi tão forte que não consegui dormir até assistir a todos os episódios. Foi mágico, quase irreal. Inevitável desligar a máquina. Inevitável deixar de lado a ânsia de ir ao próximo episódio e ver do que seriam capazes seus produtores. Tecnologia, ficção e comportamento humano: essa tríade fez de cada história um evento único. Um marco criativo dos últimos tempos. Mas, não vou falar disso. Quero focar no tecido das histórias e ver se encontramos algo para nos agarrar e perceber como essa obra, de alguma forma, pode ser importante para nossa cultura.

Se houver poucas oportunidades para a curiosidade, “e se os riscos e a exploração forem bloqueados, a motivação para uma postura criativa será facilmente extinta”. O livro Criatividade, do psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihaly, nos oferece uma possível janela para observar a natureza humana e suas surpresas. A leitura tem sido prazerosa e me ajudou a compreender uma infinidade de mitos sobre a capacidade criadora do ser humano. Voltando ao seriado da Netflix, Black Mirror nos oferece um baquete de possibilidades para desvendar ou tornar ainda mais intrincada e complexa a compreensão das pessoas. Interessante que o próprio título da série fala de um “espelho negro”, que ironicamente não refletiria nada.

A maioria absoluta dos episódios fala de conflitos psicológicos, sobre tecnologias capazes de estender nossas percepções, gravar todo tipo de informação ou então de ferramentas que nos mantém sob vigilância total, nos “servindo” como fiéis auxiliares, a fim de nos proporcionar algum ou todo o tipo de bem-estar. Em outros casos, somos literalmente escravos de circuitos digitais, com os quais somos guiados de um lado para o outro, executando tarefas para que o sistema funcione. No fim, a mente é o alvo. Por ela passam desejos pessoais e alheios, casuais e inoportunos, serenos ou opressores, eventuais ou premeditados. Alguém dita as regras, e alguém tem que obedecer.

A tecnologia, desde a roda, a escrita e o uso variado da força do fogo, tem o objetivo de eliminar o esforço. A tecnologia sempre busca aliviar a insuportável dor de existir, que sentimos todos os dias. A roda encurtou distâncias, a escrita evitou ter que lembrarmos de tudo e o fogo manteve animais longe, protegendo o bando, além de garantir comida conservada por mais tempo, eliminando necessidade das repetidas, perigosas e cansativas cassadas. A partir dessa tríade a realidade humana mudou, quando foi possível criar cada vez mais ideias para tornar nossas vidas confortáveis, livres do fardo de existir. Menos esforço, mais comida e mais tempo para revolucionar o mundo, para torná-lo o mais conveniente possível.

O erro talvez esteja no vício do conforto. Estamos prestes a criar máquinas conscientes. A singularidade está próxima. A sétima arte já brinca com essa ideia, há tempos. A inteligência virtual é inevitável. Vejo nela os tentáculos mais poderosos da combinação da roda, da escrita e do fogo. O ápice de um sonho que o homo sapiens vem nutrindo, há milênios. Estamos na direção certa? Estamos no meio de uma revolução? Vamos nos lembrar com orgulho desse presente, quando vimos os primeiros passos dessa “criança” digital? Ninguém sabe. Como ninguém sabia exatamente o que fazer com a roda, a escrita e o fogo, já que todos, por mais revolucionários que foram, ainda demoraram longo tempo para saírem de seus estágios embrionários, para realmente transformarem a história humana. E, hoje, vemos o fim da roda, da escrita e do fogo!

Talvez a natureza humana seja uma aposta biológica. Talvez não. Talvez sejamos um monte de carne que vai se autodestruir. Talvez não. Civilizações poderosas foram inteiramente varridas do planeta, algumas da história. Todas repletas de relevantes e surpreendentes feitos criativos. Talvez sejamos mais uma delas. Talvez não. O que mais me dá medo é não ter certeza disso. E o que mais me alegra também. Afinal, olhar para um espelho que não reflete nada nos dá a maravilhosa oportunidade de imaginar algo. Um mundo ou uma realidade que pode ser imaginada também pode ser construída. E você, vê alguma coisa?

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