ARMANI, NIKE E UMA AK 47

A violência está diminuindo. Pelo menos essa é a visão do famoso psicólogo e linguista canadense Steven Pinker. E ele não está sozinho. O autor do bestseller Sapiens, Yuval Noah Harari, também defende essa teoria. Ambos se baseiam em fatos concretos e informações de fontes seguras, e possuem um coro imenso dentro da comunidade científica. Ok! Tudo bem! Se a violência está diminuindo, por que no Brasil acontecem fatos como o desta última quarta-feira, no Maracanã? E, por que os cachorros choram tanto durante as partidas de futebol?

A invasão do Estádio Jornalista Mário Filho foi um evento premeditado, e tinha um sinal combinado para começar: fogos de artifício. Os rojões jogaram um tsunami de camisas vermelhas sobre os portões de ferro do Maracanã. Essas imagens todos já viram, e muita gente tem opinião sobre isso. Principalmente os caninos vizinhos ao estádio, que padeceram mais um pesadelo, tão sufocante quanto o de quem foi pego de surpresa, lá dentro do maior estádio do Brasil. E agora, o que dizer? Esperamos outro sinal? Talvez as imagens já sejam suficientemente ensurdecedoras.

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A violência está diminuindo sim, mas numa estatística geral e globalizada. Entretanto, ainda existem bolsões quentes, onde a chapa continua quente. Uma cultura que se retroalimenta da desgraça alheia, mesmo que sem justificativas. Se é que existem justificativas para esse tipo de coisa. Os times oferecem subsídios às torcidas organizadas para manter seus seguidores “organizados” em filas, de ingresso na mão. Mas, essas mesmas “torcidas organizadas” usam sua influência e poder financeiro para mobilizar todos que puderem pagar por um ingresso, principalmente se provarem que estão dispostos a qualquer sacrifício: qualquer um. Às vezes, fica difícil saber se ama-se o time ou as oportunidades que ele proporciona aos seus seguidores, de colocarem pra fora toda a sua selvageria.

Houve um sinal, e ele assustou todos os frágeis ouvidos de uma imensa população de companheiros peludos que moram na vizinhança. Ele jogou milhares de pessoas rumo ao enfrentamento com a polícia, contra sprays de pimenta e rígidos cassetetes de madeira. Eles não têm medo. O som é ouvido e o exército parte para a batalha sem expressar nenhum tipo de receio. Nada os amedronta. Eles têm comandantes, brados de guerra, uniformes, um hino e muitos motivos. Mas, qual deles seria forte o bastante para colocarem suas próprias vidas em risco? Difícil de responder. Afinal, essa cena já foi vista na história humana incontáveis vezes.

O fantástico de hoje, 17 de dezembro, abriu sua edição falando do movimento de compras para o natal e a onda de roubos durante esse período. Muito interessante. Logo em seguida, falou do evento ora acima relatado, seguido por uma matéria fofa que descrevia o drama dos cães que moram nas redondezas do Maracanã. Interessante também. Eu fiquei pensando com meus botões: poxa, será por que um assunto tão importante como o violente ato durante o jogo do Flamengo ficou espremido entre duas matérias como essas? Não vi nenhum líder de torcida sendo entrevistado. Nem mesmo Torcedores. O CEO do rubro-negro entregou amenidade em sua fala, saindo pela tangente. O que há de errado? Por que o assunto ficou relegado a uma pauta questionável, sendo mitigada pela matéria de pobres cãezinhos que sofreram com os rojões?

Nada contra os bichinhos. Coitados. Eles sofrem de verdade. Acredito que o uso de fogos de artifício deveria ser abolido em todo o território nacional. Afinal, eles não têm a menor serventia e são extremamente perigosos. Com o seu fim, teríamos nós e os peludos um pouco mais de tranquilidade. Claro que as torcidas usariam outro tipo de sinal para se mobilizarem. Elas ainda teriam um bom motivo para criar suas atrocidades. Ninguém sabe explicar o porquê, claro. Todavia, seria mais fácil se o assunto fosse debatido com mais profundidade. Com mais seriedade. Com menos interesses financeiros. Afinal, o time do flamengo é um ativo valioso para quem o patrocina e para quem veicula suas partidas.

O torcedor nasce em lares divididos, em que crianças são domesticadas a odiar o adversário, e usar de sua força emocional e física para provar a superioridade de seu time do coração, a despeito de tudo e todos. Meu time não é bom, o seu que é ruim. Somos catequizados para a devoção cega diante das cores de um time, dispostos a defender essa fé a qualquer custo. Com a vida se for preciso. Essa estranha energia vende ingressos, cerveja, camisas oficiais e comerciais no intervalo do jogo. É uma cruzada. Precisamos de cavaleiros dignos da honraria que é partir em direção da Grama Santa, e tomá-la de volta dos infiéis. Mesmo que não saibamos o que isso significa. Se alguém usando Armani, Nike ou uma AK 47 disser que tem que ser feito, quem sou eu para discutir. Partiu Maracanã…

A violência está diminuindo sim. Os números não mentem. Entretanto, o Brasil ainda é uma capitania hereditária. Estamos há séculos de distância, longe da dianteira do Mundo Moderno. Somos racistas, preconceituosos, tardios no entendimento e extremamente passionais em nossos julgamentos. O sangue ferve por qualquer coisa, e somos mestres em acumular falsas ofensas. Estamos cogitando a possibilidade de reeleger candidatos de caráter duvidoso. Poderemos até mesmo colocar no comando do Planalto uma pessoa que se mostra racista, homofóbico e simpático às retrogradas ideologias que permearam os dias do governo militar. O que há de errado com a gente?

Bem pior que isso, não temos muitas opções.

Passamos o dia inteiro curvados sobre uma tela azul curtindo e sendo curtidos, sem perceber que os portões estão caindo sobre as nossas cabeças, sendo sufocados por mensagens e ideias sem sentido, e sendo espancados por outros seres tão perdidos quanto nós. Se não tomarmos uma atitude séria e valorizar nosso voto, vamos continuar sendo governados por pessoas eleitas por quem não sabe votar. Afinal, quem não se importa não pode reclamar. Esse evento no maracanã é apenas um sintoma de um mal maior. O Brasil está anestesiado. Infelizmente. Alguma coisa mudou, mas ainda há muito o que ser transformado.

Não precisamos de salvadores da pátria, precisamos de melhores escolas, de canais de comunicação comprometidos com a educação das pessoas, a despeito do mero entretenimento. Precisamos de menos vídeo-cassetadas, menos reality shows, menos youtubers viciados em seguidores. Não há como derrubar os presídios, mas que eles cumpram seu papel de reciclar os seres humanos que a escola foi incapaz de preparar para a vida. Ainda há esperança, mas ela não está em gramados, templos e nem mesmo no congresso nacional.

Se não houver uma conscientização individual, uma mobilização que se inicie na mente e no coração de cada cidadão, de suas responsabilidades e implicações no seio da sociedade, nenhum dedo deslizando numa tela “sensível ao toque” ou botão de controle remoto vai mudar nossas vidas. Os cachorros já se incomodaram com o som que nos mobiliza para o mal. Se não prestarmos atenção à sensibilidade de nossos amigos caninos, nenhum som será capaz de provar o quanto somos estúpidos, por mais alto que seja. Seremos apenas gado sendo levado ao abatedouro, depois da sirene que marca a hora de sua morte.

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