deus NÃO SABE DE NADA

O ser humano é incrível! Da descoberta do fogo à bomba atômica, da invenção da roda à primeira pegada em solo lunar, e do desenvolvimento da escrita à tela sensível ao toque, quantas coisas impensáveis ocorreram nesse pequeno imenso período, e em cada intervalo menor de tempo, quando inúmeras revoluções agitaram nossa história? Retórica. Ninguém possui essa resposta, nem mesmo o Google.

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Eis a questão: pensar ou não pensar? Acredito que a tecnologia será sempre refém da curiosidade humana. O nosso cérebro, mesmo que aprecie a contínua economia de energia, está sempre em busca de novas soluções. Claro que essa regra não se aplica a todos os humanos respiradores de oxigênio. Pessoas criativas podem consertar coisas simples, sem deixar a peteca cair; ou podem ser geniais, pelo simples fato de que não se contentam apenas em manter as coisas funcionando, corretamente. O gênio, geralmente, olha as coisas ao contrário, do lado avesso e por novas perspectivas. Essas pessoas incomodam e criam sérios problemas, até que sejam percebidas como as salvadoras da pátria, mesmo parecendo completamente loucas à primeira vista.

“Imagine cada invenção humana, sendo trazida à existência, por uma simples, insuportável e inquieta vontade de fazer as coisas de formas diferentes.”

Sempre penso na reação dos nobres protetores da história de seus povos, anciãos que mantinham eternos todos os grandes feitos de seus compatriotas, guardados em suas mentes, e contados de geração em geração, quando um intrometido jovem inovador lhes apresentou a escrita. Imagine a reação deles ao saber que o seu conhecimento não precisaria mais ser totalmente guardado apenas em suas brilhantes cabeças sagradas.

Imagine os primeiros navegadores, quando partiram em suas frágeis caravelas, singrando mares que pendiam abismo abaixo, num mundo que acreditava-se não ser redondo. Imagine gravar em pedras, peles e pergaminhos todo o conhecimento acumulado por um povo, dispensando que fosse apenas lembrando de cabeça. Imagine cada invenção humana, sendo trazida à existência, por uma simples, insuportável e inquieta vontade de fazer as coisas de formas diferentes. Agora, imagine, depois do susto diante do novo, quando nos é apresentada a ideia maluca do ser pirado, percebemos que a mesma ideia pode ser usada com pequenas mudanças, para que alguma vantagem seja obtida, sempre seguida pela desculpa de que é preciso proteger “nossas” criações.

“Mas, de alguma forma, alguém descobriu uma forma de tirar vantagem da beleza de nossa liberdade digital.”

O ferro fundido virou panela, que deu lugar às flechas de pontas metálicas. O fogo, que um dia serviu para aquecer e cozinhar, também teve seu papel em guerras e dominações. Daí a roda, o papel, a escrita, a agricultura, a fusão nuclear, etc. Sempre achamos um jeito de rever as coisas, mas sempre encontramos uma forma de colocá-las ao avesso e fazer parecer que é assim mesmo. Hoje, diz-se que a tecnologia está em todos os lugares, que temos todas as respostas que desejarmos, que somos livres para dizer o que nos vier à mente, que a democracia “reina”. Mas, de alguma forma, alguém descobriu uma forma de tirar vantagem da beleza de nossa liberdade digital.

Agora que quase todos (talvez a grande maioria), num inevitável e crescente número, estão navegando por um oceano conhecido como ciberespaço, crentes que estejam invisíveis, entregam suas pegadas, cliques e curtidas ao onipresente algoritmo que tudo vê e tudo sabe. Esse deus digital abençoa e cobra seu dízimo, inexoravelmente, de todos, sejam devotos ou não. A tecnologia digital convergiu o mundo a um único espaço, misturando culturas, no apogeu daquilo que conhecemos como globalização. O Grande Irmão está de olhos abertos, vidrados em cada movimento, por mínimo que seja, já que cada atitude pode valer os preciosos centavos que viram trilhões, num mundo em que quase nada se faz sem a bênção de um IP.

“…concedendo o merecido descanso para nossos cansados corpos, imersos nos prazeres que tanto buscamos, enquanto nos rouba a energia que gastaríamos pensando por conta própria.”

Na verdade esse “deus” não sabe de nada, ele só pode usar estatísticas para prever nossas possíveis ações. No entanto, estamos dentro dessa caixa digital, e afundamos cada dia mais para dentro de seus domínios, emaranhados por tentáculos, que insistem em nos dizer que estão ali para ajudar, para tornar as coisas melhores. Claro que parte disso é verdade. Mas, tenho medo de tanta facilidade. Tenho receio de que tanta conveniência nos faça gostar da ideia de que o cérebro humano realmente precise economizar sua preciosa energia. Às vezes, me apavora a ideia de que um dia criaremos uma IA capaz de nos dar todas as respostas, e tomar o controle de nossas vidas, concedendo o merecido descanso para nossos cansados corpos, imersos nos prazeres que tanto buscamos, enquanto nos rouba a energia que gastaríamos pensando por conta própria.

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