ATÉ NAS COISAS MAIS BANAIS

O estupro é o fim da humanidade. O retrato mais nítido da realidade moderna é a franca imagem da banalidade tomando a sua forma mais repulsiva. Sorridente e despudorada, a desprezível face do prazer egoísta está aí, gozando na cara de quem o desconhece ou de quem prefere fingir a sua existência. Quem são suas vítimas? Raptus ad stuprum!

O Estupro consiste no sequestro violento de vítima para ser usada como fonte de algum tipo de prazer. Pressupõe violência com relação sexual não consentida, em que apenas o raptor alcança algum tipo de satisfação. Sexo?

Na medida da completa banalização de tudo, somos raptados, todos os dias, para servir de prato e deleite de outrem, de outros, de quem segura a invisível espada. Fugimos da dor, da peste, da sentença, da morte, da vergonha. Fugimos, daí fazemo-nos prisioneiros de uma fuga que não liberta, daí caímos em teias feitas de escrituras de omissão.

Exageramos. Cultuamos a ideia do exagero. Valorizamos o exagerado. O extremo nos dá prazer, já que não somos capazes de descrevê-lo ou de compreender seus limites. A cena de estupro no filme Thelma & Louise, filme de 1991, dirigido por Ridley Scott, é emblemática. Depois de alguns drinques, Thelma se vê envolvida por um homem que, supostamente, representa o príncipe sempre sonhado. Casada, jamais, aparentemente, experimentou algum tipo de prazer. Sozinha, talvez, dentro de um relacionamento estéreo, tenha desejado uma aventura que a levasse a um nível de prazer possível. Talvez.

Sozinha, na esperança de encontrar respostas, aditivada com o sabor de tequilas e margaritas, encontrou o estranho perfume de um homem de atitude e caráter duvidosos. Sem referências, tornou-se um cordeiro em dia de corte. Conduzida ao matadouro, embriagada com o novato desejo desconcertado, foi ao encontro do algoz, no dedilhar de suas garras.

A fragilidade que nos é oferecida como cartilha deteriora a nossa capacidade de lidar com o mal. Daí, nos acostumamos com a realidade das correntes. Achamos normal ser dominados. Consideramos simples o fato de nos ver subjugados por patrões, namorados, vizinhos, parceiros, políticos, valentões, homens, brancos…

Thelma foi ao local do pretenso estupro. Espontaneamente. Sim. Mas o seu coração estava vazio de vontade e prazer. Uma vez compreendido que a vida não é banal, e que há camadas infinitas de significados na realidade de todos nós, fica mais fácil nos entender e exigir cada vez mais novas possibilidades de respeito de outrem, de outros, de quem segura a invisível espada; já que, agora, possuímos uma arma também.

Os problemas filosóficos surgem quando a linguagem sai de férias, diria Wittgenstein. Daí, podemos supor que a filosofia não é um corpo de doutrina, mas uma atividade, e que, segundo o mesmo filósofo, “pronunciar uma palavra é como tocar uma nota no teclado da imaginação”. Uma vez que aprendemos coisas novas, entendemos que a chave de nossa liberdade está naquilo que ainda não conhecemos. Continua Wittgenstein, “os limites da minha linguagem representam os limites do meu mundo”.

A violência e a morte do violentador trouxeram dura e doída experiência para Thelma. A vida teve novo sabor e aprendizado para aquela mulher que saía de um parto inesperado. No meio do tiroteio teve que lidar com pernas trêmulas e um código de ética que lhe esbofeteava sem misericórdia. A mundo força o estupro o tempo todo à espera de algum tipo de reação. Religião, política e futebol. A quantos tipos de violência estamos expostos todos os dias? O quanto já foi banalizada a realidade da vida? O que possui valor e de que se exige respeito hoje em dia?

O filme mostra uma nova mulher, disposta a pagar caro para não perder o pouco de liberdade que havia conquistado. O quanto custa a guerra contra a banalidade? Thelma e Louise protagonizaram um drama que a maioria das mulheres vive nesse mundinho nosso de cada dia. Chega de exageros. Chega de vazios em nome de audiências e gozos particulares. Chega de manifestações egoístas que se masturbam voluntariamente dentro de mentes e corpos alheios. Chega dessa sujeira que o fraco e desprovido não ajudaram a fazer, e são obrigados a limpar. Chega de ter que pedir por favor por aquilo que é direito legal. Que sejamos exagerados na capacidade de amar, sem banalizar o amor que somos, intensamente, capazes de criar.

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