GENTE ESQUISITA ADOIDADO

Porque você deve ser criativo? Dá pra medir o nível de criatividade?

Como saber se tenho essa “característica”? E, afinal, o que é criatividade?

Perguntas difíceis. Respostas ainda mais complicadas. No filme “Curtindo a Vida Adoidado”, de 1986, o diretor e roteirista John Hughes revelou ao mundo um dos personagens mais controversos da história cinematográfica. Ferris Bueller é uma espécie de anti-herói. Mas, mesmo assim, é impossível não se apaixonar por ele, a despeito de suas tramoias maquiavélicas destiladas sobre um batalhão de pessoas, durante os curtos 120 minutos do longa.

Bueller não curte ir à escola e compartilha seus melhores “crimes” com os amigos. O filme, que se tornou um clássico desde o seu lançamento, mostra uma antológica jornada de três jovens rumo a um irremediável desconhecido destino. Para conseguir realizar o projeto pessoal, Ferris usa de sua criatividade para convencer meio-mundo de que está doente, e outro meio-mundo de que a vida precisa ser divertidamente realista. A combinação de ingenuidade, talento e muita coragem fazem dessa figura uma marca difícil de ser esquecida e muito fácil de se identificar, em muitos níveis.

Intrigante como o mistério do clássico quase sempre se revela em personagens inusitados e suas inesperadas obras. Gente que foge às regras. Que pula pra fora da caixa sem pestanejar. Criam obras clássicas e cunham seus nomes na história de maneira única. Mozart, Einstein, Nietzsche, Shakespeare, Sócrates, Balzac, Beethoven, Kubrick, Benjamin Franklin, Darwin e Freud, só para citar uns pouquíssimos nomes. Não eram seres humanos perfeitos. Mataram aulas. Seduziram amigos. Fizeram inimigos. Exageraram. Criaram confusão, mas foram fiéis àquilo que acreditavam.

Quem não está disposto a cometer erros, dificilmente poderá criar algo novo. Esse é o resumo básico das ideias de um homem cuja voz tem sido ruidosamente ouvida por todo o mundo acadêmico. Nos últimos anos, sir Ken Robinson, um hilário britânico que lida de forma cômica com a maioria dos assuntos com que trabalha, tem chamado a atenção de muita gente, provando que “alunos problema” talvez sejam a solução de boa parte dos problemas da sociedade. “Outliers”, ou melhor, os “fora de série”, como o jornalista britânico Malcolm Gladwell costuma chamá-los, são aqueles seres que não se encaixam na norma, que não aceitam as regras. Que se reinventam de sua própria capacidade de interpretar a realidade. O erro, para esses personagens, são apenas degraus, oportunidades para a experiência, passagem para um desconhecido mundo pelo qual já são desesperadamente apaixonados.

A lição de Ferris Bueller, quando decide curtir a vida adoidado, é o banquete máximo de suas fantasias pessoais, quando se mostra o mais infantil, dedilhando todas as suas camadas existenciais. Colocando tudo a perder; talvez porque acreditasse na aposta imediata e no retorno imprevisível. Ser criativo é um risco. Engolir regras rígidas nos congela na impossibilidade de recriar, de repensar e reciclar, de reinventar e recomeçar. Toda genuína criatividade corre o risco de ser taxada de ridícula, perigosa ou desnecessária. As coisas mudam porque as pessoas mudam. Gente exagerada é gente esquisita. Rara. Um perigo para o status quo.

Criatividade é um estado de espirito. Não somos escolhidos para ser. Não dá pra medir. Criatividade é algo que se inspira a fazer. E isso só será possível com novas atitudes, com revoluções por minuto. Desacreditando. Invertendo. Há exemplos na história, nas artes, na literatura e no dia a dia… O criativo é aquela figura que simplesmente acredita no infinito das possibilidades. Que se aceita livre para fazer a viagem que for necessária, para convidar quem desejar e para reescrever a história à medida que o presente se apresenta. Com o risco da dor, da cicatriz, mas nunca abandonando a certeza de que cada experiência vale a pena, pelo simples fato de ser inevitável a busca de nossa própria identidade, em cada ideia, em cada rascunho.

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