QUAL É A SUA DESCULPA?

Este é um texto da Leiliane Germano, uma das escritoras que têm me impressionado muito ultimamente. Compartilho aqui no Arte porque acredito na sua qualidade, e na força de seu texto. Ótima leitura…

 

“A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota.” (Jean-Paul Sartre)

O céu estava azul. Não era dia de aula, as férias haviam chegado e o clima propício para imaginar inúmeras aventuras pelo Borel. Levantei da cama, me vesti. Como sempre minha mãe não estava em casa. Ela saía cedo, só não trabalhava aos domingos. Mas ela sempre deixava na mesa o pão, a manteiga e o café com leite.

Enquanto tomava meu café ficava criando minha lista de peripécias. Pipa, futebol e subida no pé de ameixa do vizinho depois do almoço. Seria um dia daqueles.

– Eu só quero é ser feliz, na favela onde eu nasci … – Cantarolava enquanto eu descia a ladeira. Meu trajeto era o mesmo durante a descida. Passava pela upp, depois pela quitanda da tia Alzira e pelo boteco do Zé. Quando criança, eu sempre ganhava um doce quando passava lá.

Encontrei com a molecada no campinho. Foi 4×0 de lavada, nosso time estava com sorte eu fiz um dos gols e pulei na arquibancada para comemorar. Lá estava a Júlia, era a menina mais bonita da turma, meu gol foi para ela.

Na saída do jogo, o clima estava estranho no Borel. Alguns PM’s passaram por nós com um semblante fechado. Passamos batido.

Fui em casa almoçar. Minha mãe deixou comida pronta na geladeira. Foi só esquentar. Depois, tirei um cochilo e voltei para a rua, para jogar queimada.

No fim do dia, depois de muita bolada e corre corre, estava suado e pronto para mais uma aventura.

– Ih caramba! O Anísio já ta em casa Jhonata. Não vai dar para pular o muro e pegar as ameixas. – Falou o Juninho desanimado por ter melado nosso plano.

Sentamos no meio fio e ficamos maquinando o que fazer enquanto o estômago avisava que a fome queria aflorar. Fomos lá em casa ver o que tinha para comer. Não havia pão.

Lembramos então que a tia Lu estava em casa naquele horário. Fomos lá “filar” um lanche. Ela estava de saída, mas nos deu um saco de milho para pipoca.

– Obrigado ae tia, tem refri lá em casa, a senhora salvou o dia.

Sabíamos lá para minha casa. Alguém nos seguia. Dava para sentir o passo pesado, firme, como se cada movimento ordenasse um “mãos ao alto”. Olhei de rabo de olho o Juninho e vi seu rosto perder a cor.

Um estouro.

Entre um passo e outro senti uma pressão em minha cabeça. Algo se fundia a mim, em dor e ferro. Algo me tirava o ar, veloz fazia tudo virar lentidão.

Algo me tirava a voz. Meu peito ainda gritava mas a boca permanecia inerte. A rua tinha um cheiro pesado e azul lá do alto começava a desbotar. Os milhos que jamais se tornariam pipoca caíram esparramando- se pelo chão. O menino que jamais se tornaria homem pouco a pouco se despedia. O que antes era estrondo, se fez silêncio.

O que antes era história, se fez fim. – Chama a ambulância, chama a ambulância! Porra cara era só milho de pipoca.

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Negro, pobre, morador do gueto e morto por uma confusão da PM. Você deve estar pensando: ah isso é normal. Não, não é. Todos os dias vários Jhonatas morrem pelos cantos do país. Várias desculpas são criadas em cima de cada bala atirada contra eles. Em meio a protestos de familiares e manchetes de jornais, os tiros ganham novas conotações e cada vez menos soluções. Um capuz que não deixava ver o rosto, um celular confundido com uma arma, um saco de milho que parecia droga. Qual será a nova desculpa para uma nova morte em vão? Qual é a sua desculpa para achar que isso é normal?

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