UMA SELFIE TREMIDA

O primeiro monge diz: a bandeira está se mexendo. O segundo monge responde: não, é o vento que se move. A discussão que nunca acabava, deu lugar à uma voz que veio detrás deles: não é o vento e nem a bandeira que se mexem, é apenas a sua mente que se move.

O duque de La Rochefoucauld afirmou que amar a si mesmo é o começo de um romance vitalício. O cara disse bem. Mas… “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, lembra? Assim que descobrimos o prazer de dar a si mesmo doses cada vez maiores de “amor”, esse bonde começa a viajar sobre uma linha muito tênue, além de decorar a borda de um precipício, descomunalmente, sem fundo. Sim, sabe por quê? Porque é viciante a emoção dos holofotes. Que me desmintam os sobreviventes de seus nefastos efeitos. Menos a Amy que não está no Canadá.

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Apaixonar-se por si mesmo é um gume de duas facas. A dualidade do processo de fazer amor consigo mesmo nos leva a estampar a fuça em situações das mais diversas possíveis, e quase sempre não dá pra pensar em seus efeitos. O agora, sim, nesse exato momento, é o palco de trilhões de fotos sendo produzidas. E agora, foram outras trilhões mais… Na sua maioria, o registro é o semblante sorridente de algum ser em busca do melhor perfil ou daquele ângulo que revele o quanto é corajoso, sacana, esperta, rico, sociável, descolada e outras tantas possibilidades, desde que se viva um breve momento de celebridade. E daí? Quanto isso custa, e quem vai pagar a conta?

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O filhote de golfinho arrastado até a areia para decorar a selfie de uns, e a outra que aproveita o enterro do político quase eleito pra registrar a sua passagem histórica pelo evento, e aquele outro nos braços do “cristo”, e o astronauta (bom, nesse caso merece sim)… e teve aquele que não resistiu e registrou a sua fuga de bois na Espanha, e a lista não acaba mais…

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Somos espantosamente mórbidos.

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Até aonde se pode ir com isso? Ironicamente, parece haver uma invisível licença para a hiperexposição. Valoriza-se o EU em detrimento de qualquer outra coisa. Essa insaciável necessidade de ser percebido nos leva muito além de qualquer limite. Não que deva ser proposto ou imposto um ou muitos limites. Longe disso. Mas, começo a temer o que seremos capazes de fazer em troca de uma sefie que poderá nos trazer os tão sonhados 15 minutos de fama.

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É a bandeira que se move ou é o vento? Quando a nossa mente para de se mexer, talvez percamos a capacidade de olhar ao redor, de perceber o horizonte, de tentar imaginar o que há além dele. Talvez percamos oportunidades de aprender que histórias reais são escritas coletivamente. Muitos filósofos afirmam que certas posturas são um reflexo de um desejo interior por reprodução, por um sexo, selvagem, que nos jogue adiante na história. Imagino então que esse oceano de selfies talvez seja o reflexo de uma sociedade hedonista, a se masturbar digitalmente em busca prazeres efêmeros, a qualquer custo. Antes de fazer a próxima foto, pense no que se move: sua mão ou sua mente?

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