DA BOCA PRA DENTRO

A pressa é desculpa pra muitas coisas. Às vezes, até para não nos desculpar, por que ela mesma, supõe-se, é a própria desculpa. Buda, em sua coletânea de aforismos, afirma que somos o que pensamos. O oriental iluminado nos leva a pensar que o conteúdo de nossos pensamentos nos define, nos projeta para o mundo e nos ajuda a percebê-lo e a sermos percebidos por ele. Mas, como lidar com nossos pensamentos num tempo em que tudo precisa acontecer instantaneamente? Será que a rapidez nos ajuda a sermos mais completos ou apenas nos transforma em fantasmas e sombras existenciais ou, até mesmo, em pseudo-versões resumidas que mal sabemos descrever. Dura questão, certo?
REVOLVE-SE ISSO COM UMA RESPOSTA CURTA
?

Enchemos a agenda, encontros simultâneos, como histéricos em busca da estranha realização de, outra vez, sermos algum tipo de celebridade.
Enchemos a agenda com encontros simultâneos, histericamente em busca de uma estranha realização pessoal.

Epicuro era um camarada tranquilo. Pelas ruas da Grécia caminhava ele sempre em busca de prazeres. Mas, não se engane, o cara tinha um jeito muito peculiar de viver a vida. Ao contrário do que seus amigos pensavam, o filósofo precisava de motivos ou objetivos bem claros para dar vazão às suas emoções. Segundo ele, uma pessoa é rica na proporção em que pode se desfazer das coisas. Ou seja, tudo me é licito, talvez, mas nem tudo me convém. O poder da escolha é, em si, a chave para a plenitude da liberdade. Nessa pressa toda em que vivemos, será possível fazer boas escolhas?

Estamos sempre irritados com alguma coisa. Ou porque demora pra acabar ou pra começar. Fila, trânsito, restaurante, aula, a namorada que nunca termina de se arrumar. O tempo nunca é suficiente. Se sobra, arrumamos um jeito de preenchê-lo. E, muito rápido lá estamos a reclamar da necessidade de termos pressa para saldar novos compromissos assumidos. Enchemos a agenda com encontros simultâneos, histericamente em busca de uma estranha realização pessoal. A endemia da pressa nos assola de tal forma que temos ansiedade para ficarmos mais calmos; mas, como todos sabem, não funciona.

Escrevendo esse texto, acabei me lembrando do meu amigo Magno Fonseca. Passamos horas a falar sobre a “pressa do mundo”, e de como é perda de tempo correr tanto. Hoje, ele mora num pequeno loft super charmoso, longe da vida urbana, cultivando suas flores, curtindo seu banho vespertino numa banheira rústica à beira do jardim, contemplando o pôr do Sol ao longe, sobre a serra de Teresópolis. O seu vizinho é que não mais chega à sacada, pra não ter de contemplar aquela franzina silhueta molhada, filosofando ao crepúsculo.

O misantropo Thoreau, pai de muitas pérolas, resume bem a essência dos papos com o Magno. E será uma excelente forma de fechar esse texto, antes que algum apressadinho desanime de ir até o fim: “seja um Colombo para novos continentes e mundos inteiros no seu íntimo, abrindo novos canais, não de comércio, mas de pensamento”, afirmou o tímido Henry David Thoreau. Meu amigo Magno deixou uma vida de luxo e prazeres para trás, porque descobriu que ele ia muito rápido, e na direção errada. Somos o que pensamos. Buda e Thoreau nos ajudam a entender que existem infinitas viagens a serem feitas, sem muita pressa, claro, mas, com certeza, não há tempo a perder quando se trata de nos conhecer, mesmo que seja devagar e sempre. Devagar e sempre…

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