THAUMÁZEIN

Não, não é o sobrenome de um general nascido na Bulgária, nem mesmo o princípio ativo do remedinho noturno da vovó. Em grego, THAUMÁZEIN é a expressão para perplexidade, assombro, espanto e admiração.

Enquanto assistia ao filme “A Hora da Estrela”, baseado na obra de Clarice Lispector, percebi que, a cada dia, nos escapa a capacidade da surpresa, do susto. A diretora do filme, Suzana Amaral, conduz nossos sentidos a captar o extremo do ridículo, impregnado numa existência sem nexo, à beira da invisibilidade. Macabéa viveu 19 anos de uma história rascunhada, uma moça que espera nada de tudo, e tudo de nada. Está perdida em sua própria existência e não é capaz de se conectar com ninguém. Sua curiosidade limita-se à fome que não sabe se é de um cachorro-quente com Coca-Cola ou do amor que nunca conheceu.

O que mais me marcou no filme foi a moldura suspensa na mente: a ausência do sentido. Aí pensei “é tanta coisa ao nosso redor”. Tudo pisca e salta de telas sensíveis ao toque que, ironicamente, parece terem nos roubado essa capacidade de perceber o próprio toque.

Nada nos foge. Tudo está ao alcance. É tão fácil encontrar uma resposta que não nos assombramos com a própria descoberta, nem mesmo com o meio usado para alcançá-la. Deixamos para a máquina o trabalho. O “prazer” do desafio inquiridor se baseia, simplesmente, em oferta e demanda. Não interessa mais como as coisas acontecem, pois preencher uma lacuna é o mesmo que copiar e colar um bloco de texto da Wikipédia.

A arte da criação humana é a vontade de superar a limitação de nossos sentidos e simular a divindade em nós. Buscamos a perplexidade, o assombro, o espanto e a admiração como se busca a um Santo Graal, um estado de sensação máximo, um Nirvana pleno e completo. Mas, em meio a essa jornada, no meio do deserto, rumo à terra prometida, sempre somos traídos pelo calor de nossas próprias paixões.

Abandonar a tecnologia? Não. Claro que não. É exatamente ela que nos move, e sempre será. O fogo, a roda, a escrita, o papel, etc. todos juntos e combinados, de alguma forma, assinam o nosso processo evolutivo como seres humanos. Às vezes, se faz necessário desobedecer ao que alguns chamam de destino, e não permitir que uma busca insana pelo famigerado prazer nos seque a fonte, evitando perder a capacidade de distinguir entre o real e o imaginário, entre o ser e o estar.

Porque, mesmo que a poesia, as drogas, a filosofia ou mesmo a tecnologia ou qualquer outro subterfúgio nos tire do solo e simule experiências extrassensoriais, como numa roda gigante, sempre voltamos ao chão, ao ponto inicial, e nos é oferecida de volta a dura realidade. Isso ninguém pode negar. Pois é nela que as coisas acontecem. Claro que fertilizada e temperada com as melhores especiarias vindas das viagens ao mundo da imaginação.

Existem desafios inimagináveis ainda por serem descobertos e, profundamente, desejados pela apaixonada alma do ser humano. A história já provou que só os “malucos” alcançam grandes  feitos na vida, dentro e fora de si mesmos. Pois, um passo pode parecer diminuto para o resto do mundo, mas é o início de uma grande jornada para uma pessoa que decidiu desobedecer ao próprio destino e viver uma vida cheia de THAUMÁZEIN.

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