GREVE AGUDA

A gravidade desse fatídico evento chamado de ‘paralisação dos professores nas universidades federais brasileiras’ é algo que não dá pra mensurar ou descrever num simples texto. Mas, como não me contive dessa agrura, tive que pegar caneta e papel para registrar minha opinião. Com toda a licença poética possível, diria que estamos prestes a ouvir o estrondo de uma verdadeira Bomba Relógio. Sim, conta-se em regressivo ritmo o fim trágico que nos aguarda numa repentina e triste curva da história.

“Race to Nowhere, The Dark Side of America’s Achievement Culture”: esse é o título de um documentário que se tornou uma mega campanha contra os métodos usados nos Estados Unidos da América para ensinar e educar seus jovens. A coordenação da campanha vem provando, através de pesquisas e fortíssimos argumentos, que a sua opressiva metodologia baseada numa cobrança desprovida de didática sadia e incentivos lúdicos, tem apenas levado sua massa de aprendizes a absorver conteúdo, sob a violenta batuta do Capitalismo, que os quer capacitados para seguir ordens, robotizados e guiados por regras e sem a mínima carga de sensibilidade; egocêntricos, gananciosos e com disposição para fazer “qualquer” coisa pela tão sonhada ascensão social, ou melhor, o clássico e, hoje, embaçado ‘Sonho Americano’.

Por que inclui esse parágrafo? Espero que, até o final do texto, você entenda. A América foi por um caminho diferente do nosso, ou seja, ela investiu muito dinheiro em educação e, hoje, ironicamente, colhe frutos amargos porque simplesmente criou uma massa de pessoas que reproduzem comportamentos consumistas e, assim, compram tudo o que a TV ou o cinema ditam, na esperança de justificar seus esforços pessoais como cidadãos do ‘mundo livre’. Assim gananciosos desenfreados quebraram o país de uma forma tão ‘bossal’ que não sabem como consertar a merda que fizeram.

Serviço Sujo
O caminho que seguimos foi diferente, mas o seu fim será no mesmo delta onde deságua o caudaloso rio imperial norte-americano. Países como o nosso, ex-colônias, curtem o velho ‘ranso’ e investem uma miséria em educação, porque ensinar as pessoas a pensar colocaria seu sistema de controle em cheque. Fazer as pessoas mais críticas tornaria o modelo de manipulação de massas instável e seria impossível gerenciar o acúmulo de fortunas, e mantê-las em poucas mãos. Além de eliminar mão de obra barata que se usa para gerar bens de consumo usados pelos irmãos do primeiro mundo que não podem macular as mãos com o serviço sujo.

Suaves Parcelas
A ideia tupiniquim é deixar muitos com a feliz expectativa de ‘crescer’, que se vê em novelas e filmes, e outros poucos ainda acreditando que estão crescendo, mas apenas seguindo uma cartilha básica em que se reza o evangelho capitalista do consumo que os transfigura na santa imagem da realização ao custo de nada mais, nada menos, que a sua própria vida dividida em suaves parcelas de muito sangue, suor e lágrimas em troca de quase nada.

Esperança Fétida
O lado agudo dessa greve é a grave e pesada verdade que poucos conseguem ver. O lado cortante e pontudo desse movimento é a triste e doída realidade que não muda desde que se descobriu o controle ou tomou-se gosto por ele. O que uma pessoa poderosa deseja, senão ainda mais poder! O governo finge que paga os professores. Os professores, historicamente, em sua maioria, com raiva do sistema e sobrecarregados, tentam heroicamente, em alguns casos, salvar uns e outros que nadam sem fôlego nesse rio imundo de esperança fétida, mas é quase impossível alimentar mentes numa atmosfera onde predomina a intolerância ao raciocínio e privilegia-se a conveniência.

As greves não acabarão. Mesmo que seja finda essa atual, virão outras para apenas justificar a velha tradição de que o sistema funciona. O professor inconformado com seus rendimentos financeiros cruza os braços, o aluno volta para casa feliz num primeiro momento, pois terá mais tempo para curtir sua juventude, e os pais entram em pânico porque não sabem o que fazer, já que esperavam ficar em paz com seus afazeres enquanto a molecada passaria um bom tempo trancada do lado de dentro das escolas.

Pompa e Circunstância
Enfim, é tudo um grande teatro. O governo alivia, depois de infinitos dias de ‘negociação’ e a fábrica volta a funcionar. Seguimos formando milhares de alunos num sistema falido e sem recursos financeiros para um mero e simples engatinhar científico. Oferecemos diplomas engomados a pessoas que não fazem a menor ideia de que estão oficialmente autorizadas a viver num mundo em que o mesmo papel colorido e cheio de pompa e circunstância não lhes ajuda a enxergar a sujeira que está oculta bem debaixo dos cobiçados tapetes onde limpam seus próprios pés.

Livres para ficar presos
A greve acabará e as aulas voltarão, e tudo seguirá seu caminho, exatamente como era antes: jovens alunos sedentos por conhecimento diante de professores completamente desmotivados, que ganharão salários de miséria porque é muito importante mantê-los sem nenhuma estima e levá-los a moldar mentes vazias e despreocupadas com a sociedade, desde que passem de ano com notas boas e consigam um emprego.

O problema não é essa ou aquela greve. A grande questão é que, mesmo quando estamos com as salas de aula em funcionamento, nada de novo acontece. Tão somente a massificação do desejo de obter uma autorização do governo para se ganhar salários proporcionais ao título que conseguirmos na universidade.

A pior greve que nos acomete é aquela que o sistema começou, há muito tempo, e nos priva de alcançar plenitude como seres humanos e, consequentemente, como cidadãos livres e conscientes: descobrir o mundo, a vida, as pessoas e ser capazes de decidir sozinhos o que fazer e como fazer com tudo isso. Liberdade não tem preço e o conhecimento é a única chave capaz de nos levar até ela!

“We don’t need no education!” – Not this one, in fact.

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