FÉ NO MENOS

“Vejam quantas coisas o ateniense precisa para viver!” Sócrates (470-399 a.C.)

A filosofia cínica foi fundada por Antístenes – um discípulo de Sócrates –, em Atenas, por volta de 400 a.C. Seus seguidores acreditavam que a felicidade real não dependia de fatores externos como o luxo, o poder político e a boa saúde. Diógenes, um de seus mais emblemáticos defensores, que era discípulo de Antístenes, certa vez pôde provar como funcionava o cerne de seu pensamento: ao receber a visita de Alexandre Magno, rei da Macedônia, este perguntou-lhe se ele tinha algum desejo, qualquer um, e assim lhe seria feito. Ao que Diógenes respondeu: “Sim, desejo que te afastes da frente do meu sol”.

Interessante também é saber que o próprio Sócrates nunca escreveu uma única linha sequer. Seus discípulos se encarregarem de difundir as ideias que influenciaram toda a Europa e, porque não dizer, o mundo, de alguma forma. Ele apenas limitou-se a viver tudo aquilo que defendia em seus discursos públicos. Sua filosofia do desapego era tão forte e incômoda que o levou a um trágico fim: pena de morte.

Os cínicos, como eram chamados os seguidores da tal filosofia cínica, pregavam o total desprendimento das coisas materiais. É claro que não dá para ser cínico hoje em dia sem exercer imensos sacrifícios. Afinal, a modernidade nos encheu de penduricalhos que se acredita serem imprescindíveis. Quão bom seria se todos pudessem ter carro e uma casa cheia de badulaques “Made In China”. O conforto moderno possui imensa dependência do que se diz na mídia. Sentimo-nos tristes quando descobrimos que a TV comprada, seis meses antes, já está sendo vendida pela metade do preço, porque foi lançado um modelo superior, pelo preço que foi pago no “antigo”, esse que está aí pendurado na parede exibindo a maldita notícia. Dupla frustração!

A verdade inconveniente é que não podemos usufruir do conforto que a indústria inventou sem interferir profundamente em nosso meio ambiente, ou sem destruir de forma irremediável o Planeta. A atual designação para cinismo serve bem para descrever o nosso comportamento, já que somos bem adestrados e domesticados para nos alienar da necessidade alheia, das duras consequências de nossos atos, e não nos importar com o que virá, com o futuro. Mas, simplesmente curtir, como hedonistas convictos, o momento presente, pasteurizando o Carpe Diem que serviu, no passado, para ajudar as pessoas no entendimento do grande valor do “agora”, e como ele não poderia ser desperdiçado em coisas fúteis e fugazes.

Não há espaço para o consumo a que somos expostos todos os dias. Ter fé no menos é acreditar que a satisfação do ser humano não está em coisas materiais. Elas não podem resolver nossos dilemas e frustrações. Por causa delas são travadas guerras, uma após a outra, em busca de poder político e domínio financeiro. É claro que não acredito que podemos viver só com a luz do sol, como tentava Diógenes. Mas, é o excesso que me incomoda. Ele está aí, mostrando seus resultados sujos pelas ruas, avenidas, oceanos, rios e na camada de ozônio. Os grandes fenômenos que precisam ser vistos seriam homens e mulheres jogando fora o ego, e junto com ele iriam um bocado de coisas inúteis que nos separam um do outro, e da maravilhosa experiência que é viver mais próximos da natureza e de tudo aquilo que ela tem a nos oferecer, de graça.

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