Uomo Scofito

Nelson Rodrigues disse bem, certa vez, que o brasileiro cultiva o que o dramaturgo chamou de “complexo de vira-lata”. O eterno recalque de não-pertencimento a uma classe privilegiada, uma torpe condenação de ter que fuçar as sobras caídas de sofisticadas mesas de marfim, lambendo as feridas e abanando a cauda sob a égide da complacência.

A morte do ditador coreano Jong-il (da dinastia ping-pong: “vai ditador, vem ditador”) mostrou ao mundo uma imensa comoção por parte do povo de olhos puxados que, aos prantos, lamentava a perda de seu governante. Incrível assistir a isso, já que a Coréia vive debaixo da típica opressão mantida em regimes ditatoriais, com a tradicional cortina contra a livre expressão, sem contar os milhões de mortos, vítimas da fome. Como um país pode venerar, adorar e se apaixonar por alguém assim?

Recentemente, vimos uma galera aí metendo o malho no Michel Teló. Uns pouco, outros bastante. Outra turma preferiu defender. Na verdade, o que interessa mesmo é que essas figuras que despertam tais embates sempre existiram. Depois da explosão cultural, por exemplo, iniciada dentro do período ditatorial brasileiro, resistindo contra a opressão sobre a criatividade artística, vimos florescer uma imensa quantidade de novos personagens com as suas produções. Todo tipo de artista apareceu e, atrás deles, multidões de pessoas apaixonadas e desesperadas por um pouco de atenção.

Ou seja, o mito (ou o ídolo) reflete ou personifica as nossas mais profundas aspirações como seres humanos. Não é o povo que escolhe o artista, é o artista que escolhe o povo. Nesse exato momento, em que tudo é produto, até os criativos queimam a pestana em busca de ideias que dêem dinheiro. E, não adianta meter o pau nos atuais “heróis” da mídia, eles estão vendendo aquilo que as pessoas aceitam engolir, e, ainda por cima, lambem os beiços. E a própria mídia vai criar argumentos para dizer que isso, de alguma forma, é cultura.

Então, como eu falei no início, o complexo de vira-lata está impregnado em qualquer pessoa, no mundo todo. Estamos tão solapados de falsos conceitos que abrimos a porteira e perdemos o controle de nossas vidas. Transferimos nossos valores para aquilo que vestimos, comemos e bebemos, lugares que frequentamos e pessoas que conhecemos. Negamos quem realmente somos só para figurar num filmezinho social barato, para sermos aceitos. Somos incoerentes, matamos nosso discurso com atitudes estúpidas. Às vezes, cantamos de intelectuais e, depois da cachaça, sambamos na “boquinha da garrafa”, apenas para chamar a atenção. Sem contar que usamos também nossas profissões para nos disfarçar, já que, muitas vezes, não gostamos do que fazemos, mas tal atividade dá um tremendo status; certo?

A gloria do capitalismo, esse mostro que nos obriga a financiar tudo o que temos, e até o que não temos, nos domina o corpo e a mente, literalmente cobrimos a pele de cédulas. Nos embrulhamos como mercadoria, na esperança de sermos consumidos. Queremos ser desejados. A roupa sensual, a maquiagem, os bíceps, tríceps, o carrão, o celular, o corte de cabelo, a etiqueta aparecendo. Na verdade, reclamamos de que somos mal representados na música ou nas artes em geral, ficamos chateados por não ter uma boa criação cultural, mas, nós mesmos, já estamos totalmente corrompidos com o maldito complexo de vira-lata, pois não nos aceitamos e preferimos comprar coisas e prazer, ao invés de fazer auto-críticas, capazes de nos livrar da ditadura da moda e da sujeição ao império do dinheiro e da realização pessoal.

Uomo Scofito. Sim, isso mesmo. Quer dizer: “Derrotado”. Prefiro me auto-proclamar um derrotado nesse sistema vil e sujo. Se a ideia é ganhar coisas em troca de sacrifícios imbecis, esses que nos matam o tempo, a sanidade, a saúde e o bom convívio com as pessoas que amamos, prefiro me definir como um derrotado. Tá aí, não quero ganhar nesse jogo. Joguei a toalha! Chega de revirar latas em busca de glória e reconhecimento. Muito antes do dinheiro existiam os relacionamentos. Isso é que dá um bom tempero na vida. Chega de correr atrás do vento. Chega de migalhas. O mundo é feito de gente, não das coisas que podemos comprar e acumular. Quanto mais o mundo “progride” e se enriquece, mas as pessoas se tornam estúpidas. Quanto mais se tem dinheiro, mas sem pedigree nos tornamos, pois o excesso de riqueza nos faz insensíveis; e essa é a pior tragédia que pode acontecer com um ser humano.

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2 comentários sobre “Uomo Scofito

  1. marcos martino

    Bacana seu texto, amigo Barter. Olha, mas tem a “Tribo da sensibilidade”, de que falava Saramago. Uma tripo, posto que não é uma nação. Indios dispersos pelo mundo, mas que se reconhecem pelo olhar. Não é fácil a lida nessa terra de gigantes, meu caro. Mas sobreviveremos. Quem dera o mundo nos pagasse pra fazer a arte profunda, que vem de dentro, mas ele só quer o que está na superficie…ou na média. Além do mais, tem aquela filosofia do Bregaman Falcão: A Burguesia fede, mas tem dinheiro pra comprar perfume.

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