Anjo ou Demônio?

A POBREZA DE CADA UM DE NÓS E AS RESPOSTAS QUE NINGUÉM TEM

Dia desses estava eu voltando para casa, depois de visitar um amigo, quando me deparei com cena certamente comum para o habitante da urbe. Ao subir a Avenida Rui Barboza, no bairro Santa Terezinha, logo em frente à igreja, lá estava ele, deitado e cercado por suas coisas, de certa forma até “impedindo” a passagem pela calçada. O cara, em posição fetal, curtia seu berço de concreto, sem lençol ou coberta, vestindo apenas uma jaqueta surrada. O fato me lembrou uma história que, em toda a minha vida, nunca tinha ouvido antes.

João nasceu num dia chuvoso. Sua mãe não sofreu com o parto. Dos quatro que teve, esse foi o mais tranquilo de todos. O garoto veio ao mundo sem qualquer complicação. Pesava 3,5 Kg e era um garotão de 53 centímetros. O pai, orgulhoso, não parava de chorar, emocionado com a chegada do filho, primeiro descendente macho da família. Suas irmãs, Cíntia, Cláudia e Valquíria, enquanto se acotovelavam, colaram as carinhas no vidro do berçário para ver o irmãozinho.

Quando João volta para a sua mãe, para a primeira amamentação, ela olha bem para ele, sorriso rasgado na cara redonda de ex-grávida, e lhe diz: “meu filho, você vai ser um belo mendigo”.

Em seus dias de faculdade, quando cursava matemática, João não tinha muitos amigos. No quarto período ele conseguiu beijar a Renatinha, que, nas festas da turma, sempre enchia a cara e beijava todo mundo. Na oportunidade, a galera saudou a perda de sua virgindade bucal com um brinde.

Isolado pelos cantos, João preferia a biblioteca aos encontros calorosos no bar em frente à escola. Ele não bebia, não sabia jogar sinuca e não entendia as piadas que a turma contava. Ou seja, péssima ideia tê-lo por perto.

O garoto formou-se com louvor, além de ter ajudado mais da metade da turma a chegar ali, com suas intervenções pseudo-pedagógicas, quando os amigos, na hora da prova, não sabiam a resposta certa. A família estava lá, menos o pai que havia falecido de cirrose hepática: Cíntia e o namorado, Cláudia com marido e filho, Valquíria com suas tatuagens, piercings, maquiagem escura, e a sua mãe. Essa que não escondia os cabelos grisalhos; de olhos vermelhos e lenço úmido, mal continha a emoção de ver o único filho formado em curso superior.

João nutriu promissora carreira como professor universitário. Livros, palestras, aulas-magnas, ele era um ícone no universo acadêmico. Entretanto, havia algo incompleto. O docente mais respeitado da faculdade continuava sem amigos. Sozinho. Colecionando casos mal sucedidos com mulheres que não conseguia entender. Quando morre sua mãe, perde a única mulher de quem considerava ter recebido atenção sincera. Começa a beber.

Vinte anos depois de ter abandonado a carreira acadêmica, João está sentado no meio da praça central da cidade, observando as pessoas. A barba já grisalha, o rosto sujo, as roupas surradas e o cabelo ralo que lhe sobra sobre a cabeça desenham o retrato da desolação. Enquanto isso repassava fragmentos de lembranças antigas: os aniversários, os presentes e as mentiras sobre o paradeiro do pai, que nunca estava em casa. Nessa hora, uma garota passa por ele e se detém para observá-lo. Ela o reconhece, faz muitas perguntas, mas o maltrapilho não se lembra da ex-aluna. O álcool deteriorou sua mente. João aproveita para lhe pedir um cigarro. Ela o abandona com os olhos encharcados.

É claro que nenhuma mãe rogaria praga de mendicância sobre seus filhos, por pior que fossem. Mas, por tudo o que é mais sagrado nessa vida, o que leva uma pessoa a tornar-se um mendigo? Sinceramente, eu não sei. Muitas respostas podem existir. Isso é certo. O que me incomoda mesmo é que, diferente do pobre comum, o mendigo é quase sempre emblemático. Por baixo daquela sujeira toda há sempre uma história. Raiva, revolta, indiferença, abandono, solidão, psicopatia, misantropia, muitas coisas. Como ajudar essas pessoas? Talvez mereçam a vida que têm. Será que elas querem, ou precisam ser ajudadas? Será que eu posso fazer algo? Deveria, de alguma forma, fazer? Sinto-me, às vezes, desprovido de soluções, de coragem, mendigando respostas. Talvez seja eu mesmo que precise de alguma ajuda.

Quando pequeno, me ensinaram que as pessoas moradoras de rua eram más. Como se fossem monstros que prendiam crianças desobedientes nos sacos que carregavam nas costas. De certa forma, somos impedidos de percebê-los como realmente são. Quando crescemos, não conseguimos vê-los espalhados pelas ruas, pois o mendigo faz parte da cidade como o lodo não falta numa parede úmida. São imagens que não nos impressiona, são impressões que não nos incomoda, pois o mendigo que mora dentro de nós não é capaz de nos dar uma esmola sequer, a fim de enriquecer um mínimo que seja a nossa pobre sensibilidade, há muito endurecida, embaçada e porque não, mofada pela falta de calor. Humano!

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