NO LUXO OU NO LIXO

“A satisfação conclui, encerra, termina; a satisfação não deixa margem para a continuidade, para o prosseguimento, para a persistência, para o desdobramento.”
Mario Sergio Corttela

– Meu filho, as pessoas são o que comem – disse a mulher olhando firme em seus olhos.
– Mas, mãe, eu gosto – respondeu o garoto, titubeante, atrás dos grandes óculos.

Essa cena aconteceu recentemente no pátio de um colégio, aqui mesmo em Juiz de Fora. O garoto de apenas 12 anos, queria apenas saborear seu bife de carne processada, quando a sua mãe, em visita à escola, exclamou a plenos pulmões: “isso é lixo, e também é quem come”. A pessoa que lhe mostrava as opções de carne perdeu o rebolado e quase deixa a bandeja cair no chão. O moleque abaixa a cabeça, e a progenitora segue fazendo seu prato, enquanto remexia a comida, continuou resmungando entre os dentes.

O pequeno incidente, curto e desnecessário, foi suficiente para elevar os ânimos de quem assistia o acontecimento. Mas, a sua brevidade e o medo de criar algo maior desnecessariamente, fez com que ninguém se manifestasse a favor da criança, ou mesmo da dona da cantina, que ficou profundamente atordoada com o tiro à queima roupa que levou. A senhora “anti-junkfood” manifestou sua opinião. Perfeito. Só tem um pequeno problema: o filho dela não estaria pedindo uma coisa que fosse novidade, que nunca tivesse comido antes. Se isso aconteceu, há parcela de culpa de seus responsáveis. Sendo assim, ninguém precisa servir de alvo para as suas flechas inflamadas, ou de tapete para que possa limpar seus pés reais.

lixo-janela-carro

Caminhando pelas ruas de JF, ou mesmo de outras cidades que conheci, vejo inúmeros casos de pessoas arremessando seu “lixo” particular pelas janelas de ônibus e carros. Interessante isso. Será que o refugo, o despojo e os restos de minha alimentação podem, deliberadamente, serem lançados janela afora? E o que é lixo aqui nesse momento: a casca de banana, a embalagem vazia ou a atitude de quem o pratica?

Conheci na semana passada um sujeito ímpar. Roberto é carioca, mas vive em Juiz de Fora há 14 anos. O cara trabalha nos bairros Democrata, Mariano Procópio e Santa Terezinha, de segunda a sábado. Ele é um daqueles personagens que acabaram sendo contratados pelo “sistema”, numa forma de “funcionalizar” a pobreza, ou o que Marx chamaria de exército de reserva. Roberto passa seus dias úteis vasculhando o lixo da cidade, em busca daquilo que ninguém quer, mas que ainda possui valor no mercado, commodities da reciclagem. Uma espécie de tesouro do desprezo moderno, que exige um tipo especial de garimpeiro.

Catador de papel

Estava eu apreciando um chope de perfeito colarinho, quando essa figura estaciona a famosa carrocinha, cheia de papelão e latinhas, bem em frente a uma garagem próxima da minha mesa. O cenário estava armado. Fiquei assistindo de camarote. O garimpeiro, minuciosamente, aferiu a qualidade de cada uma das abarrotadas e generosas latas de lixo, retirando aquilo que lhe chamava a atenção. Nesse ínterim, foi ficando um rastro de sujeira, entre o seu veículo e o local do garimpo. Aí pensei, num relance típico de gente sem noção, que o cara deixaria a sua pequena parcela para a DEMLURB (limpeza urbana municipal). Normal, num mundo em que tudo tem seu preço e o seu consequente imposto. Ledo engano.

Pouco antes de terminar, o dono do bar lhe pediu para que puxasse a carrocinha um pouco para frente, a fim de não obstruir a entrada da garagem. Dessa forma, como não tinha espaço, ele foi obrigado a atravessar a rua. Nesse momento, eu pensei que o cara nem voltaria, já que sua obra estava completa. Não é que o Roberto voltou. Vassoura nas mãos e um assobio no rosto cheio de barba por fazer. Num instante estava tudo limpo e organizado novamente. Engoli seco e senti uma vergonha de mim mesmo por ter pensado mal do sujeito. Tinha de me redimir, mesmo que ninguém soubesse do que tinha passado na minha mente. Fui até ele e proferi meus mais profundos sentimentos de apreciação pela postura insólita. Excelente, o cara é bom de papo, tem uma história de vida sofrida, mas não se desfez do sorriso em momento algum, e encheu a vida de cortantes elogios, enquanto secava o copo que lhe ofereci. Claro, antes perguntei se ele já havia terminado o seu expediente. Naquele dia aprendi um pouco mais sobre o que é “ser lixo” e “estar lixo”.

Aquela triste mulher, enquanto forçava o filho a ser uma pessoa que ela pensa ser o melhor modelo, está, quem sabe, transformando sua autoestima em puro detrito. A satisfação que ela quer para o filho não permite que ele aprenda a fazer escolhas. Ela mesma, talvez, nem saiba como fazer isso. Dessa forma, em momento “inoportuno”, quando o garoto, desprovido de referenciais concretos, acabará compreendendo de forma errônea o mundo ao seu redor. Espero que um dia ele se encontre com o Roberto, nessas esquinas da vida, e aprenda que tudo pode ser reciclado, inclusive nossos conceitos. Que nada se joga fora. E que, principalmente, lixo é aquilo que a gente não entende, por isso mesmo insiste em repudiar e manter longe. Perdendo a oportunidade de encontrar valores incríveis em pessoas de atitudes impensáveis.

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2 comentários sobre “NO LUXO OU NO LIXO

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