É “DONISMO”

Hedonismo: s. m. Filos. Doutrina que afirma constituir o prazer o fim da vida. – Dicionário Michaelis.

Sempre quis ser neologista. Agora tenho a minha chance. E olha que é uma coisa super difícil, já que a expressão precisa significar algo, sem que haja vivo sinônimo à sua altura para a tarefa. Aí vou eu!

Roger Waters - "No Thoght Control"

Tenho o costume de, às vezes, ler jornal impresso, geralmente aos domingos. No dia 04 de setembro, ao me deparar com uma coletânea especial de reportagens sobre o oriente médio, quis ver como andava a situação naquela árida porção de terra. “Posso tentar virar agricultor, mas a verdade é que desde os dez anos eu só sei mesmo é usar um [fuzil] kalashnikov”, diz Ali Shawali ao correspondente da Folha de São Paulo. Shawali tem 40 anos, é ex-insurgente do regime Taliban e aguarda um posicionamento dos atuais governantes do Afeganistão sobre o seu próprio destino e das duas filhas pequenas. Confesso que me senti chateado com o que ouvi desse sujeito. Se Ali tem 40 anos, e desde os 10 o cara está envolvido com a insurgência, me corrija se eu estiver errado, ele gastou infância e juventude nessa empreitada. Deprimente. Qual a percepção de mundo que uma pessoa assim poderia ter? Essa é uma pergunta retórica.

O Afeganistão é um dos maiores exportadores de drogas com “h”: haxixe e heroína. Além disso, fica geograficamente posicionado num local que poderíamos chamar de entroncamento, por onde diversos países daquela região distribuem seus produtos, ou seja, literalmente usam seu espaço físico para fluírem seus negócios, sejam legais ou não. Sem contar a constante instabilidade econômica, política e militar, talvez pela também permanente sensação de que aquela é uma “terra de ninguém”.

Nenhuma guerra sequer, em nenhum tempo, – duvido eu –, tenha sido motivada por interesses nobres, numa circunstância em que se exigiu uma solene intervenção, na tentativa de se aplicar a justiça, em seu mais profundo sentido. Há sempre um interesse econômico, um motivo inescrupuloso para forjar um enfrentamento e, assim, justificar uma invasão e consequente posse do que o “inimigo” possuir, mesmo que seja uma mera permissão para usufruir de sua conveniente posição geográfica.

“A chuva que irriga os centros do poder imperialista afoga os vastos subúrbios do sistema”, relampeja Eduardo Galeano, em sua obra-prima As Veias Abertas da América Latina. Nesse livro ele aborda, com propriedade, a história da produção de calos, lucro e revolução na sub-América, nas terras abaixo do umbigo da supra-América. Aqui, o que custa caro mesmo é ser pobre, onde pagamos exorbitantes quantias para continuarmos assim, chupando os dedos molhados no beneplácito da benção dos opressores externos.  A obra de Galeano nos mostra a beleza do suor sagrado do povo latino que alimenta e engorda o sangue amargo estrangeiro.

Outra verdade que brota e floresce em terras que são exploradas por estrangeiros, sempre é o comércio “ilegal” de drogas. Será que o povo oprimido, por não ter emprego ou educação, acaba por se limitar ao cultivo de substâncias ilícitas, na esperança de alimentar seus famintos rebentos? Será que enquanto furamos buracos no chão, em busca de metais preciosos e petróleo, precisamos de nos entorpecer com algum tipo de droga para suportar o peso da carga sobre os nossos ombros? Será que essas drogas, demonizadas por governos do primeiro mundo e amadas por boa parte de seus cidadãos, realmente são o grande problema social moderno? E tem outro diminuto detalhe, nesses lugares a violência, em suas mais variadas facetas, é sempre o prato do dia; para os que conseguem sobreviver, é claro.

Donismo, ou seja, a síndrome irremediável de posse, melhor dizendo, o sentimento de poder sobre o ser considerado inferior (aquele se domina com algum tipo de persuasão ou ameaça, seja ela qual for) é a doença que aflige a humanidade. A incurável vontade de sentir algum tipo de prazer mexe com a gente. No ímpeto de reservar privilégios aos seus semelhantes, o mundo foi sendo esfacelado e dividido em blocos muito bem definidos: brancos e negros, burgueses e proletários, primeiro mundo e o resto, hemisfério norte e os que tentam sobreviver abaixo da linha do equador, capitalistas e comunistas, ricos e pobres, os donos da mídia e aqueles que pensam estar pensando, dentre outros.

Para continuarem sendo donos do mundo, os opressores inventam guerras; doenças e, consequentimente, novos medicamentos; mentiras que nos fazem comprar mais; histórias que nos convencem de que precisamos viver sempre com medo; sem contar a paradoxal sensação de que está tudo bem. Inacreditável. Os donistas, a fim de poderem financiar as suas fontes de prazer, tentam nos manter eternamente vivendo como fantoches, num simulacro de vida, uma espécie de emulação de bem-estar que nos mata de tanto trabalhar, como um ratinho na esteira que nunca alcança o queijo. Vivemos num cativeiro, comendo migalhas nas mãos de nossos “donos”, que sentem prazer em nos assistir perdidos nos labirintos de aço e concreto, curtindo a falsa sensação de estar buscando um lugar ao sol. Isso, meus amigos, é Donismo. O mal do século. O único jeito de acabar com isso é fazer a nossa voz ser ouvida. Fale, mas fale bem alto. Pois essa gente costuma se fingir de surda.

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3 comentários sobre “É “DONISMO”

    1. Que satisfação imensa ver vc aqui… volte sempre! E saiba que nossos cafés filosóficos estão fazendo falta… v se nun some, meu caro e dileto amigo! abs… p.s.: sobre os importados, nada vai conter a entrada dos carrinhos de olhos puxados, eles têm mais dinheiro que a nossa industriazinha nacional, e pagam à vista… espere e verá… teh+

  1. Luciana Paula

    É impossível ler tal reflexão e não sentir vontade de palpitar. Entretanto, para realizar tão atrevida tarefa, diante de seu brilhante amontoar de palavras, preciso recorrer ao brilhantismo do poeta. Dizia Carlos Drummond de Andrade: “Em verdade temos medo. Nascemos escuro. As existências são poucas: carteiro, ditador, soldado. Nosso destino, incompleto. E fomos educados para o medo. Cheiramos flores de medo. Vestimos panos de medo. De medo, vermelhos rios vadeamos.” (O MEDO). A couraça do medo tenta a todo instante nos encapsular para que nossa voz se cale. Mas temos TANTO a dizer… temos TANTO a viver… temos TANTO a ser… O mundo de hoje quer nos fazer acreditar que não é possível nada para além dessa miserabilidade de relações humanas que construímos até aqui. Somos tão ricos na ESSÊNCIA!!! Não permito que ninguém me diga que não posso. E somo minha voz a várias outras vozes que não vão se deixar calar!!! Hoje, em um pequeno pedaço do solo brasileiro, presenciei o hastear da bandeira do Brasil ao lado de companheiros mexicanos, chilenos, argentinos, paraguaios, costa riquenhos, africanos, canadenses… ao som do Hino da Internacional… gente que compartilha do mesmo sentimento de amor e que não vai se calar diante do medo. Gente assim me orgulha de ser humana. Gente que não quer ser DONO de nada… gente que quer compartilhar VIDA!!!

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