Mentiras Pirotécnicas

[ Filosofia Inflamável – Capítulo 9 ]

Naquele exato momento eu carregava uma garganta seca, corpo trêmulo e mãos suadas, além de um coração angustiado, espremido dentro do peito, e nada que ele me dizia ajudava a aliviar a maldita dor que incomodava cada canto incandescente da minha cabeça.
– Mestre, é muita mentira. Tudo que eu vi e ouvi era um amontoado de merda. Mentiras em cima de mentiras, fedendo a excremento. Eu não consigo me imaginar acreditando em nada que eles dizem. Acho que nunca mais poderei confiar naquelas pessoas.
– A sua condição de cético é plausível, querido amigo. Tudo o que você viveu justifica seu estado de raiva.
Ele me jogou aquelas palavras sem nem mesmo mudar o tom de voz, muito menos olhar em meus olhos. O tempo todo ficou podando suas pequenas violetas, concentrado, usando apenas a ponta dos dedos. O transtorno que me sacudia naquela hora não conseguiu mexer nas tranqüilas águas da mente daquele estranho homem.
– O que é que eu vim fazer aqui? – perguntei em voz sussurrante, lançando os olhos para o céu que estava extremamente azul e recheado de gordas nuvens brancas.
– Boa pergunta, meu caro amigo. O que é que você veio fazer aqui? – Disse ele, virando-se e me olhando firme, bem dentro dos olhos.
A inquisição me fez titubear e engolir duro, na mesma garganta seca que não ousava cuspir nenhuma resposta. Fiquei ali, em eternos segundos silenciosos, tentando arranhar qualquer coisa nas paredes da mente, na esperança de respondê-lo de alguma forma. Odiei-me! Consegui ver o filme de minha vida passar bem diante de mim, imagem após imagem, e não pude dizer uma só palavra. Eu que sempre me gabei de ser o homem das palavras fáceis, estava ali congelado diante de um velho caquético, que mal se sustentava sobre as finas pernas.
– Cadê toda a sua perspicácia, ô gostosão? – Perguntei-me, usando uma meia dúzia de letárgicos e atrapalhados neurônios, que em nada não me ajudavam.
– É…
– Sim!
– hãm…
– Então, diga-me, por que você veio até aqui?
Não agüentei. Fui obrigado a me render ao poder daquele olhar e desviar para o chão meus fracos olhos. Fui até o beiral da varanda em busca de refúgio.
– Disseram mentiras pra você, não é?
– Acho que sim. – respondi sem muita animação.
– Tenho más notícias, garoto. Essa não será a última vez e eles não serão os únicos a mentirem pra você.
Aquela afirmação tão óbvia pareceu estúpida num primeiro momento, mas aí pensei que a verdade é essa: pessoas e mentiras se confundem como num espetáculo pirotécnico. Nunca sabemos qual será o próximo efeito e jamais que tipo de som emitirá e o tempo que gastará para alcançar nossos ouvidos. O ser humano é uma constante mentira, sempre nos causando surpresas que, à primeira vista, pode até parecer indigno de crédito, uma falsa promessa, improvável. Mas, depois de certo tempo, o som de sua explosão revela a sua força.
– Garoto, é a atitude da pessoa que prova a sua intenção. Qualquer um pode dizer o que quiser. Mas, a verdade vem com os fatos. Você saberá que aquela árvore ali perto do lago é um pessegueiro, quando ele fizer brotar seus frutos. Aí, sim, ele dará provas reais de sua promessa como árvore. Com as pessoas é a mesma coisa. Depois de belas frases é necessário vir o fruto, a prova, o fato, a consumação.
– Mas, eu acreditei neles. – Gritei, colocando as duas mão sobre o rosto.
– Sim, eu sei. Acredito em cada palavra sua. Todavia, você não viu os fatos. Resolveu descansar e deixar um documento assinado em branco para fazerem o que quisessem. Esse foi seu erro. Esteja por perto quando dividir a construção de seus sonhos com alguém. Porque, caso contrário, não poderá reclamar se algo estiver fora do lugar quando você resolver aparecer. As rédeas de sua vida devem estar nas tuas mãos o tempo todo, mesmo sabendo que a vida precisa ser compartilhada.
Quando olhei pra trás, ele continuava sua brincadeira de limpar as violetas, meticulosamente, como se o mundo fosse feito exclusivamente para elas. Às vezes eu não entendo esse cara.
– Mestre?
-Sim.
– Agora eu sei o que vim fazer aqui.
– Eu também sei.
– Então porque me fez aquela pergunta estúpida, se já sabia a resposta?
– Garoto, a minha resposta já estava pronta. A sua ainda precisava nascer. Agora ela está aí, bem diante de você. Eu não preciso mais dela, será mais útil a você, na próxima vez que pensar em subir essa montanha de novo, em busca de solução para seus problemas.
– Seu velho maluco, sempre com a resposta na ponta da língua.
Ele me respondeu dando um sorriso de canto de boca, borrifando um pouco de água sobre as plantinhas. Naquele momento, percebi que já era hora de descer a imensa montanha que tinha subido, pois já começava a declinar a tarde, e a noite naquelas trilhas eram bem complicadas.
– Mestre, adeus. Até a semana que vem.
Ele se despediu mais uma vez com aquele pequeno aceno bobo com a mão, como se eu fosse um mosquito que o incomodava. Às vezes me dava vontade de xingar-lhe alguns nomes feios, só por diversão. Mas, ele me fazia um bem tremendo, mesmo detonando todas aquelas bobagens que eu, majestosamente, construía na mente.
– Quem é esse cara, afinal? – Me perguntei, silenciosamente, atravessando o jardim e já pegando o início da inclinada trilha rumo à minha casa.
– Pare de se fazer tantas perguntas, garoto. – Gritou, lá de cima, colocando a última violeta alinhada com as outras trinta e seis.

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