Lê-se vivendo, ou vive-se lendo?

Bom dia. Este texto recebi de meu amigo Guilherme Renunce. Confesso que me senti muito inspirado com uma missiva proveniente de um homem que não tem muito o hábito de escrever. Espero que continue incomodado e que nunca “Renuncie” ao poder de uma “caneta” bem direcionada…

“Não sei por que, mas de repente me deu uma vontade danada de escrever um pouco.

É sempre um prazer escrever, confesso. Acho que a vontade de escrever surge do prazer de ler. Não sei se é uma regra, mas é o que eu acho.

Admito, porém, que ultimamente não tenho andado muito inspirado não. Por algum motivo, tenho escrito com uma frequência menor do que realmente gostaria. Acho que algumas situações mal resolvidas no âmbito pessoal de minha vida têm acabado por refletir nesse bom hábito, mas não sei bem.

Se pararmos pra analisar o bom hábito da leitura, percebemos quão prazeroso é quando se “devora” um livro, sentindo como se estivéssemos realmente vivendo as impressões passadas pelo autor. Pensando nisso, percebo o quanto essa leitura pode ser tanto benéfica quanto maléfica.

Benéfica, claro, pelo próprio hábito em si, devendo fazer parte do cotidiano de qualquer pessoa que queira ter o mínimo de cultura literária, ou coisa que o valha.

Mas, porque também maléfica? Bem, não sei, apenas essa hipótese passou pela minha cabeça.

Quantas vezes já paramos pra pensar e lembrar das aventuras e situações vividas em nossa vida até então. Ruins ou boas, elas fazem parte de nosso “portfólio” de experiências. Que prazer não teremos em contar as várias peripécias vividas por nós aos nossos filhos e netos, a sensação de que fomos o herói da nossa própria vida. Nada mais normal.

Vividas sim, e não lidas em nenhum livro, e muito menos ouvidas de algum amigo mais “corajoso”. Não, de jeito nenhum, falaremos por nós.

Vou ler sim. Mas vou ler com o objetivo de expandir minha mente, meus horizontes. Vou ler buscando uma ideia para o próximo capítulo da minha vida, para uma próxima aventura, e não porque é tudo o que me resta.

Vou ler sim, para constatar que não sou o único que pensa de tal jeito, ou que posso pensar de outras formas, e que isso me faz bem. Ou então porque está chovendo muito lá fora, ou porque, ao fim do dia, me encosto para uma prazerosa leitura, quando tudo que podia ser feito já o foi, o dever cumprido.

Ah, quanto tempo perdemos sendo nosso próprio inimigo, nosso maior obstáculo. A diferença entre um “intelectual” que se enterra dentro de casa atrás de um livro e um simplório que se apega a uma novela qualquer enquanto a vida rola lá fora é uma maior ou menor cretinice, isso sim.

Afinal, que porcaria é essa? O que de mais importante poderemos escrever senão nossa própria existência? O que de melhor poderemos regozijar senão de nossas próprias lembranças?

Trocamos experiências reais por linhas e parágrafos, quando não cenas na TV. Que trouxas nós somos!

Quando que o simples virar da droga da página de um livro, ou a mudança da porcaria de um canal da TV, vai ser melhor do que uma brisa no rosto, ou o cheiro de terra molhada pela chuva, o pisar na grama? Nunca, é bom que se diga.

Gosto muito de ler, e sou um fervoroso defensor do hábito da leitura, e gostaria de ler mais. Mas também gosto muito de viver, sendo um defensor ainda maior desse, tendo vontade de viver cada vez mais, com mais intensidade.

Pra que depois não me depare com a triste realidade de perceber que todas as minhas lembranças não passam de memórias alheias, memórias de um desconhecido que ousou viver sua vida e a contou em um livro qualquer, bom ou ruim, pra que depois algum infeliz faça dessa leitura sua experiência de vida. Que patético.

Espero que, um dia, não precisemos esticar nossas lembranças para que completem um livro, mas sim que tenhamos que resumi-las para que caibam no mesmo.

Isso sim é que eu espero.

Forte abraço do amigo.”

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4 comentários sobre “Lê-se vivendo, ou vive-se lendo?

  1. Ler ou viver eis a questão.As duas coisas são necessárias mas não em quantidades mas em idades.
    A vida de cada um tem sua razão de ser e dessa subjetividade de cada um a razão é a objetividade de viver. Tudo isso acho que se resume no gosto musical. A musica tem o poder de dizer da sua evolução.Melhor não se furtar à vida; a de aventura, a de ler, a de amar, a de provocar e a de simplesmente viver com leitura ou sem. Pensando melhor com.
    Parabens pelo texto, muito oportuno. Se possivel com uma boa cachaça, uma moda com viola, uma mulher que consola e um vida pra dividir.
    abraços
    L.Blanco

  2. Vívilyn Hagen

    Não pude deixar de ler este texto ao receber o link…

    Enquanto lia minha memória corria por dentro de mim para que num curto espaço de tempo eu pudesse me lembrar de peripécias e atos heróicos que eu mesmo dei conta de me proporcionar….

    Ler me faz viajar por outras histórias, mas viver novas experiências e pensar na minha vida me faz crescer e desejar algo novo todos os dias!!

    Como disse a Tata, ler é bom… Viver é melhor ainda!!

    Que grande verdade!!

    Por isso, não vamos poupar nossos desejos e sonhos!! Podemos ir adiante sempre!!

    Ótimo texto Gui!!

  3. Thais Frateschi

    Brilhante!

    Mais ainda surpreendente quando vi o nome do autor.

    Adorei!!!

    Mais ainda por saber que eh verdade. Conheco (cedilha) voce!

    Ler eh bom! Viver, melhor ainda!

    Inteligente desabafo, inteligente!

    Mais ainda inteligente do que le-lo…

    … vou pegar minha moto e sair por ai!

    Inspirador!

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