O QUE STEVE FARIA?

“Conheci alguns gênios com quem era tão difícil trabalhar que tive que deixá-los ir embora;
por outro lado, alguns de nossos funcionários mais brilhantes, agradáveis e eficazes
foram demitidos por empregadores anteriores por não serem nada disso.”
– ED CATMULL

 

Ser original é impossível. Não é difícil afirmar isso, já que para ser 100% original, genuinamente, deveríamos criar algo totalmente novo, sem copiar nenhuma parte do que criamos. A própria natureza é uma metáfora para isso. Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Essa constante transformação que reina absoluta no planeta é o motor que mantém o seu brilho, a sua vivacidade. Não sabemos como se “originou” a natureza como a conhecemos hoje. Há teorias e conjecturas, mas certeza absoluta ainda não. Uma coisa que podemos afirmar, sem medo, é que a essência do processo de criação na natureza está intrinsecamente na sua “arte” de combinar e recombinar elementos. E a sua riqueza está exatamente nessa característica.

O novo é adaptativo.

Quando a Pixar e a Disney começaram a “namorar”, criou-se um temor interno de como seria esse relacionamento, e de como seria um possível desfecho. Steve Jobs conhecia bem a história interna que reinou absoluta por décadas na Disney, após a morte de seu criador e mentor criativo. Walt era o espírito que mantinha a empresa em movimento. Sua energia guiava a equipe como um sol. Após sua morte ficou cunhado o termo “O que Walt faria?”, e esse foi o mote que conduziu a linha criativa da mais famosa produtora de entretenimento do mundo.

Infelizmente, não funcionou como o esperado.

Ao ler o livro Criatividade S.A., de Ed Catmull, atual presidente da Pixar Animation e da Disney Animation, fica claro como tudo aconteceu. Walt era um ser humano comum, mas as suas atitudes não. Seu talento foi combinar imaginação e saber escolher com quem trabalhar seus projetos.

Combinar ideias e pessoas é uma arte.

Mas, usar um mantra na esperança de evocar o espírito que já não está mais presente pode ser infrutífero. A maioria dos projetos de Walt funcionaram, pois ele tinha um jeito peculiar de dar asas às suas ideias. Sem a sua presença, foi necessária uma nova forma de fazer isso. Mas, a empresa acreditava que poderia “copiar” seu estilo de criação. O que se provou improdutivo com o passar do tempo.

Quando Steve Jobs começou a negociar a parceria entre as duas empresas, a primeira coisa que procurou eliminar era o tal mantra: o que Walt faria? Ele mesmo, na Apple, já execrava a possibilidade de sua equipe copiar suas ideias e seu jeito de pensar, buscando sempre incentivar o pensamento original.

Sua queridinha, a Pixar, estava prestes a se tornar sócia da gigante Disney, mas ele não queria que a cultura da maior contaminasse a menor. O espírito criativo que tinha transformado a minúscula e cambaleante empresa, comprada de George Lucas, numa potência ganhadora de vários Oscar’s não poderia ser comprometido. Pelo contrário, deveria ser levado ao novo parceiro, a fim de resgatar a sua essência, exorcizando ideias e costumes antigos, mantendo assim a identidade de ambas, sem que uma copiasse a outra.

Jobs deu carta branca para Catmull e sua equipe. Tinham autoridade para fazer o que quisessem. E o resultado todos conhecem. O casamento das duas marcas as fez ainda mais fortes, sem a necessidade de misturá-las. Ser original é encontrar a sua essência e permitir que ela crie a sua arte a partir de uma visão única, combinando ideias e pessoas livremente.

Gosto da visão de Catmull sobre a forma como sua empresa lida com as pessoas. Ele acredita que é melhor ajudar sua equipe a encontrar e aperfeiçoar seus talentos do que simplesmente trazer pessoas “prontas e completas”. Acredito que boa parte de sua originalidade está aí, nessa capacidade de “ler” gente. Reciclando o que puder ser reciclado, e descartando o que não for possível.

É interessante aprender a liberar as pessoas, por mais valiosas que possam parecer naquele momento.

Existe uma crise de criatividade. Isso é um fato.

Até a leitura que fazemos sobre ela, muitas vezes está equivocada. Criatividade, para ser o que realmente deve ser, requer problemas reais. Daí, soluções inesperadas. O sucesso de empresas como Apple, Pixar, Amazon, Google, etc., tem muito a ver com a forma como solucionaram grandes problemas, aproveitando o timing, combinando fatores, elementos e pessoas, oferecendo soluções rápidas e únicas. E isso vale para o nosso dia a dia também.

Empresas inovadores parecem distantes, fazendo coisas impensáveis para mortais como nós, mas na realidade elas só têm sucesso porque seguem regras simples: dão liberdade para seus colaboradores desenvolverem suas próprias ideias. Imagine se na natureza tivesse um “chefe” dizendo o que cada elemento deveria fazer, seguindo regras rígidas de comportamento. Ainda seríamos um grande deserto, sem nada da belíssima diversidade que temos hoje.

A natureza é densamente cheia de possibilidades porque parece existir um tipo de “curiosidade” que permeia toda a sua estrutura. Parece que ela está o tempo todo experimentando coisas novas, mas, na verdade, está apenas recombinando ideias, fragmentos, átomos e moléculas, afim de estabelecer novas formas de equilíbrio.

Na natureza tudo pode acontecer. E não se engane, pode não parecer mas também fazemos parte dela, e essas mesmas regras servem para cada um de nós.

O problema é que após séculos de alfabetização e doutrinação escolar, conseguimos padronizar o pensamento humano, tornando a criação de ideias algo artificial, pautado em regras fixas. Não é tão natural para o ser humano moderno ter ideias próprias, livres e espontâneas. Nas escolas está tudo pronto, à espera da hora certa de ser ensinado. Em outras palavras, a instrução direcionada tornou as crianças menos curiosas e, assim, menos inclinadas a explorar o mundo, sempre dependentes de algum tipo de guia. Na fase adulta, continuamos esperando que alguém diga o quê, quando e como fazer.

Mas e se o verdadeiro problema for a própria escola?

Para Peter Gray, autor de vários livros sobre educação, o fato lamentável é que uma de nossas instituições mais queridas, por sua própria natureza, “falha com nossos filhos e com a nossa sociedade”, comenta. Numa cultura tomada por essa lógica, fica difícil exigir comportamento criativo e espontaneidade de jovens que vão se candidatar a vagas em empresas. Estamos tão acostumados a seguir regras e esperar o apito para agir, que não conseguimos desenvolver um espírito empreendedor em sua plenitude. Preferimos perguntar: o que o Steve faria?

É mais fácil.

O ecossistema mental das pessoas está árido. Séculos de padronização no ensino entulharam nossas mentes com processos rígidos de comportamento. Ao contrário de uma floresta, repleta de vida e possibilidades, em que tudo se aproveita, em que tudo pode acontecer, na qual a vida se reinventa o tempo todo, uma pobre lavoura de monocultura sofre com pragas por não saber lidar com elas. É preciso pesticidas e esforços imensos para que não morra. Quase tudo é artificial.

Numa floresta há predadores naturais para cada ser. Tudo está em perfeito equilíbrio. Um ambiente de pura liberdade. Imagine uma mente como uma densa floresta tropical, onde tudo pode acontecer, e qualquer resultado serve para reconfigurar o próprio espaço de criação. Agora, imagine uma mente que só repete ações, copiando e colando, como uma lavoura de soja, por exemplo, que sofre para se manter viva, dependendo de produtos químicos para repelir predadores e da ação direta da mão do homem e de máquinas para “dar certo”.

Não é possível falar de criatividade sem mencionar o sistema de educação; sem mencionar a forma como desenvolvemos o ecossistema mental das pessoas. Se as mentes virgens infantis são invadidas, e nesse espaço são criadas monoculturas, baseadas em repetição e dependência, dificilmente criaremos gerações de pessoas criativas, dispostas a inovar. Os estudos de Peter Gray mostraram que a insatisfação com a escola se mostram cada vez mais evidentes. E que o aprendizado que depende de alguém para ensinar já não atende às necessidades das crianças e jovens. Quando descobrem por conta própria, com um mínimo de interferência, as crianças desenvolvem sua criatividade, encontrando respostas de forma muito mais rápida.

Ser original é impossível. Que bom! Isso nos obriga a encontrar nossas próprias respostas, combinando ideias e pessoas, aproveitando o momento, criando a nossa voz e a nossa identidade: isso amplia nosso ecossistema mental. Ou então, podemos esperar que alguém tome a iniciativa, mude o mundo, crie novas regras, e nos diga o que fazer, quando e como.

Anúncios

O AMOR NOS TEMPOS DO INSTAGRAM

Não vou negar, me sinto um pouco mal quando navego pelo Instagram. A razão? Bom, muitas. Talvez não me faça bem assistir a felicidade alheia. Talvez seja incômodo perceber que as outras pessoas viajam mais, amam mais, brincam e se divertem mais, enfim, vivem melhor e mais intensamente que eu. Mesmo que isso talvez não seja a verdadeira versão de realidade.

Quando li o texto “O mundo globalizado e tecnológico está matando os clássicos”, do meu novo amigo Henrique Szklo, comecei a imaginar as ideias que ele havia exposto nas linhas que escreveu. A esquizofrenia que mantém nossos dedos deslizando telas luminosas, em busca de alívio emocional está impregnando nossa vida e a nossa capacidade de conviver. Engraçado Szklo dizer que “O amor nos tempos do Instagram são assim: lânguidos”. Quando menciona uma série de criações épicas, icônicas e memoráveis como “Take on me” do A-ha, “This is America” do Gambino, “Thriller” do Michael Jackson, Game of Thrones, Wlaking Dead e La Casa de Papel, mostra como cada uma delas é dependente de como a cultura do momento pode torná-las eternas ou apenas um amor de verão.

Eu mesmo adoro vasculhar a Internet em busca de “pérolas” dos meus tempos de moleque. É uma forma de voltar no tempo e me sentir reconectado àquele tempo. Um jeito artificial de voltar a ser jovem. Talvez esse seja o segredo de um clássico: um portal que nos leva a lugares de onde não gostaríamos de ter saído. A música, o cinema, as artes, a literatura, etc., e todas elas misturadas são uma busca humana de nos agarrar a um presente que inexoravelmente nos abandona. Impiedoso, nos permite apenas lembrar ou gravar artificialmente o momento imediato.

Na cultura digital, a percepção do tempo mudou. Somos medidos pela quantidade de cliques e onde os colocamos.

Os memes atuais, versões modernas dos clássicos, são um jeito de escrever nossa história com frases curtas. “Será que precisamos guardar em nosso arcabouço emocional ideias e coisas que nos façam retornar no tempo e reviver nosso passado?”, argumenta Szklo. No futuro, será que não precisaremos de um passado maior do que quinze dias? Pergunto eu. Talvez, com o volume imenso de informações que teremos que lidar, tenhamos que limitar o alcance de nossas lembranças, dependendo de aplicativos para nos lembrar do que comemos no café da manhã de ontem ou os amigos com que conviemos.

Para Szklo, talvez a falta de ideias em estado sólido será, na verdade, um avanço em nossa evolução como espécie. Ele imagina e se pergunta se isso nos fará finalmente capazes de viver apenas o momento, “já que o futuro também será tão cheio de expectativas que para a nossa própria sanidade mental e emocional tenhamos de nos fixar apenas no presente absoluto”. Difícil responder a essas questões, mas uma coisa é certa: vamos continuar pensando, imaginando e querendo novidades, mesmo que sejam versões repetidas do que já tenha nos encantado um dia. Ora, isso talvez seja a receita de um clássico. Ou estou errado?

Enfim, a boa notícia é que teremos onde guardar nossas memórias; seja como Ray Kurzweil imaginou, fazendo upload de nossas mentes, ou seja algo totalmente diferente, não importa. Uma cópia de nossas experiências estará disponível em algum lugar. A forma como lidamos com isso é que muda, com o tempo. Sentimos saudades de formas diferentes, falta de coisas diferentes, raiva e amor de maneiras que nunca são as mesmas e nem mesmo os motivos. O mundo está mudando e não sei se poderemos resolver os problemas que surgem apenas dando um like.

O futuro parece ser digital, mas ainda estamos presos em corpos biológicos, sedentos por emoções, o máximo que pudermos experimentar; mas sem um mapa confiável de onde encontrá-las. Enquanto isso, continuamos a contar histórias, mesmo que durem apenas uma ínfima fração do tempo de um clássico “clássico”, pelo simples fato de que sem elas não seríamos quem somos: viciados naquilo que somos capazes de criar.

Iphone, Worderland e Tyler Durden

Antes de apagar definitivamente, a luz piscou 4 vezes.

Não podia fazer nada. Fim do expediente, às 16h54, naquela sexta-feira. Sempre que acontece, a luz demora a voltar. Sem energia elétrica, foi-se a Internet, a TV e a iluminação. Sorte que ainda sobrava um restinho do dia claro, numa tarde fria e chuvosa, com sua luz fraca, refletida nas casas à frente da minha janela.

Então, a solução era encontrar a caixa de velas e manter a casa iluminada, até a eletricidade voltar. Lembrei da minha infância, quando mudamos para a casa que meu pai construiu. Não havia energia elétrica no bairro, então ficamos meses vivendo sem vidros nas janelas e à luz de velas, como num sofisticado evento ao ar livre.

Trinta anos depois, o efeito me soou um pouco diferente. Na época, foi divertido para uma criança de 9 anos “acampar” por alguns meses, experimentando a brisa da cidade alta, brincando com as estranhas sombras criadas pela trêmula luminosidade da chama de uma vela, além dos sons vindos da vizinhança que ainda era desabitada; uma mata fechada que guardava mistérios que ampliavam intensamente a minha imaginação.

De volta àquela fatídica sexta-feira, fui obrigado a achar uma forma de alimentar meu tempo, já que sem energia era impossível qualquer tipo de escape da realidade. A chuva estava forte, então não dava para sair a pé. A Internet do celular oscilava fortemente e não conseguia chamar um Uber. Então me vi condenado a curtir o silêncio do meu lar.

O dia se despediu com um último suspiro de luz cinza, quando consegui achar a caixa de velas. Acendi e a coloquei sobre a impressora, à direita da minha mesa de trabalho. Fiquei alguns instantes olhando pra ela e, de repente, comecei a deslizar a tela, assistindo ao feed de notícias, com velhas imagens daquele passado distante.

Como um pedacinho de fogo é capaz de iluminar tanto a nossa mente?

Estendi a mão e tirei o Clube da Luta, que já tinha se cansado de pedir para ser lido. Trouxe a vela para mais perto e comecei a leitura. Mais de meia vela depois, já havia terminado um capítulo inteiro, quando a luz resolveu voltar.

Alegria? Talvez.

Estar imerso, ali, no silêncio, igual a um monge da idade média, me fez sentir como Guilherme de Baskerville, em O Nome da Rosa, quando encontrou o caminho secreto da biblioteca para a torre proibida. Desligar do “mundo” por um pedaço de tempo me ajudou a perceber que parece que existem duas realidades: uma eletrônica, que funciona apenas quando está ligada à tomada, e outra, paralela, que dá suporte para a primeira, mas que quase não aparece, como se fosse um cenário de apoio; onde apenas comemos, bebemos, dormimos e defecamos.

O coelho apressado levou Alice para o buraco. A menina que não entendia porque o mundo era como era, perguntava se a vida poderia ser diferente. A busca por identidade nos faz tomar decisões precipitadas, seguir caminhos esquisitos e conhecer gente estranha. Lembro quando matava aula na época do ensino fundamental. Adorava escapar de fininho, e ir para a biblioteca. Mas afinal de contas, quem mata aula numa biblioteca? Enfim, era um tipo de buraco para Wonderland.

Para mim funcionava muito bem. Odiava a sala de aula.

Fugir da realidade em busca de respostas é a saga do sapiens. Essa fome o fez partir do seu berço na África e dominar o mundo. Atualmente, “todas as respostas” parecem estar nas palmas luminosas de nossas mãos. Cedemos às suas afirmações, de cabeças inclinadas, como devotos ou prisioneiros, prestes a ter as cabeças cortadas.

Olhamos para nossos dispositivos eletrônicos como Alice olhava para o buraco que a levaria ao “País das Maravilhas”. Ela tinha pressa, e não lhe faltava incentivo. Nosso mundo moderno tem pressa e muitos buracos luminosos, com imensas setas indicando onde devemos jogar nossos sonhos. Hoje, a Apple é a empresa mais valiosa do planeta. Um trilhão de dólares. Se fosse um país, seria a 17ª economia do mundo.

Como uma empresa consegue um feito desses? Seguindo seu exemplo, outras marcas estão vindo logo atrás. O mundo será governado por empresas particulares?

Não sabemos, mas os números estão aí para provar que, assim como o Novo Mundo foi descoberto e administrado por empresas que financiaram as grandes navegações, em busca de países e maravilhas, parece que o novo milênio será governado por empresas que vão nos fazer viajar, sem sair do lugar, pagando caro por cada experiência.

Estamos com pressa e hiperconectados. Correndo, à espera de um milag… digo, da nova versão de nossos smartphones.

Como dizia Tyler Durden: As coisas que você possui acabam possuindo você.

Espero que essa nova revolução nos ajude a conhecer melhor a nós mesmos. Que voltemos dessas viagens com uma visão melhor da realidade. Que a tecnologia nos ajude a encontrar mais sensibilidade, e que ao tocarmos regiões desconhecidas da nossa realidade interna, sejamos capazes de entender a urgência de validar nossas necessidades humanas, aquilo que nos torna o que somos de verdade.

Estaremos sempre em fuga, isso é um fato. Faz parte da nossa natureza. Só espero que a tecnologia nos ajude a não mais fugir de nós mesmos. Há beleza no ser humano, e as nossas invenções deveriam ser um atalho até ela, e não o contrário.

Paixão Impossível: efeito garra

Quando vi a cena em que Tom Cruise quebra o tornozelo saltando entre dois prédios, pensei: puxa vida, esse cara é realmente louco. Durante as gravações do mais novo filme da franquia Missão Impossível o senhor Cruise arriscou a vida, mais uma vez. O ator tem um extenso histórico de ferimentos graves e de quase morte por causa de sua carreira cinematográfica. Para os desavisados pode parecer que Tom sempre foi essa figura, que ousa desafiar o perigo e a si mesmo, enfrentando desafios cada vez mais arriscados a cada filme que faz. Mas, nem sempre foi assim.

“Encontre a sua paixão” é um dos mantras mais repetidos dos últimos tempos. Conselho típico em aconselhamentos, sessões de coaching, livros, etc., etc., etc.; mas, parece que não tem funcionado bem.

A nova geração se mostra engajada com valores bem diferentes, mostrando que buscam bem-estar a despeito da grana que podem ganhar. As décadas de catequização, sob os auspícios da máxima de que se você encontrar algo que ame nunca precisará trabalhar um só dia na vida, estão mostrando um resultado não muito satisfatório. Esse catecismo acabou criando a ideia de que se não me sinto bem com o trabalho que estou fazendo, devo pedir as contas e partir rumo a novas aventuras. Muito bom! Na verdade, muita gente encontrou a sua arte, o seu elemento, a sua paixão, quando resolveram jogar tudo pra cima e dar um rebootem suas vidas. Mas, nem tudo são flores nessa história.

“Encontre sua paixão” pode ser um conselho terrível, revela um novo estudo que vem questionar a sabedoria comum sobre como devemos escolher nossas carreiras.

Gostar do que se faz é sim uma premissa de ouro. O problema é que a métrica atual para avaliar quase tudo em nossas vidas passa por um filtro com imensa resistência ao que não pode ser percebido instantaneamente. O “instantâneo” condicionou nossa forma de pensar, nossa percepção do mundo, a nossa mentalidade ou como se diz atualmente nosso mindset. Carol Dweck, pesquisadora de Harvard, que também participa do estudo mencionado acima, junto com seus colegas afirma que nossas verdadeiras paixões não são “encontradas”, mas “desenvolvidas”.

É muito conveniente acreditar que o grande “amor” de nossas vidas estará nos esperando, prontinho, pleno, completo e intensamente disponível, com a nossa cara, logo ali, na próxima esquina. Lamento informar-lhe, mas, na verdade, a coisa não funciona bem assim. Por isso tanta confusão hoje em dia. A pessoa, o emprego ou a coisa que tanto queríamos encontrar ou “ter”, depois de um curto espaço de tempo, começam a exigir uma série de “cuidados” e graus variados de envolvimento, a fim de se manterem plenos, completos e intensamente disponíveis, daí, nessa hora, começamos a nos questionar se esses eram realmente os personagens da tal história de nossas paixões pessoais.

E viveram felizes para sempre.

A promessa de felicidade eterna depois de terminada a “grande busca” pode se tornar um problema complicado para todos que acreditam nisso. Após matar o dragão e se casar com a princesa, nos resta apenas a célebre e conveniente frase “E viveram f. para sempre”… Só nos esquecemos que a rotina vem no dia seguinte, que após todo e qualquer evento épico vem a cobrança diária pela manutenção da vida como ela realmente é. Não é possível viver de acordo com a lógica dos contos de fadas ou dos videogames. A realidade faz exigências, cobra caro e não aceita cheques pré-datados.

O estudo mostrou que muita gente começa a desistir nos primeiros sinais de dificuldade. Nessa hora, a maioria pensa que esses problemas iniciais são a prova de que não encontraram a sua verdadeira paixão, de que não estão no lugar certo, como se só valesse o prazer contínuo e ininterrupto. Nossos pais tiveram que aprender a nos amar. Depois de toneladas de dificuldades, fraldas sujas, remédios, noites em claro e muita, muita pirraça, eles ainda estavam lá. Mas, não se engane, muitas vezes eles estiveram perdidos, sem saber o que fazer, com o coração apertado, se sentindo fracos e, muitas vezes, inúteis.

A arte de criar filhos é agridoce. Assim, como a arte de viver!

Se os pais do futuro começarem a jogar seus filhos na primeira lata de lixo, só porque não se sentem mais à vontade com eles, seria um caos. E pensar que já existe gente que faz isso hoje. Lamentável. São casos raros, mas não podemos negá-los. Estamos vivendo uma crise generalizada, que representa uma falta sistemática de paciência; não conseguimos ir além dos 60 segundos de vídeo, dos 3 meses de namoro, da décima página, do segundo quarteirão, da quarta música, da primeira repreensão feita pelo coordenador ou pela gerente, depois de um erro no trabalho. Estamos intolerantes.

É preciso um tempo para as raízes se firmarem. Jogar a semente ao chão, e esperar que em um passe de mágica brote uma árvore completa soaria ingênuo ou até mesmo estúpido.

O estudo mostrou que acreditar numa meta fixa faz com que as pessoas limitem suas possibilidades. A certeza absoluta de que a sua “paixão” é apenas desenhar florais pode restringir o alcance de seu talento, por exemplo. Se houver empecilhos aqui e ali, e você simplesmente mudar a direção e manter o foco fixo naquilo que acredita vai acabar criando mais estragos emocionais que benefícios. A pesquisa de Dweck procurou mostrar que a flexibilidade e capacidade de adaptação podem ser aliadas poderosas na construção de uma carreira repleta de surpresas; umas ruins, que servem de fertilizantes para novos aprendizados, e outras muito boas, que podem direcionar a carreira de quem se abre para novos horizontes, perspectivas e possibilidades.

Quando Tom Cruise adquiriu os direitos da franquia Missão Impossível, ele já era um ator reconhecido, mas com rasa experiência em filmes de ação. Ele fez uma escolha. Após o primeiro filme da saga, nunca mais o veríamos ou o perceberíamos da mesma forma. Ele tinha participado de grandes produções, contracenado com nomes sagrados da sétima arte, e se tornado um dos queridinhos de Hollywood. Mas, isso não foi suficiente pra ele. Cruise queria mais, e pagou caro, literalmente, para transformar-se na marca que é hoje. Você pode não gostar da série, mas é difícil negar o seu esforço para criar plots criativos, cheios de ação e realismos, que minimizam o uso de CGI. O cara dispensa dublês em praticamente todas as cenas; seu objetivo maior é garantir máxima experiência emocional ao seu público. Isso, definitivamente, não tem preço.

Ele não precisava fazer isso. Mas fez assim mesmo. Colocar a vida em risco é muito mais que apenas colocar o emprego ou uma amizade ou até mesmo um relacionamento em risco. Na busca de nossas paixões precisamos amadurecer nossos conceitos e entender que mudanças acontecem mesmo sem a nossa permissão. O mundo faz exigências, e se a gente apenas acenar com a cabeça quando for conveniente vamos acabar fazendo parte do entulho que é gerado durante as revoluções das quais decidimos não participar. Paixões que buscamos por motivos equivocados são ilusões, coisas impossíveis de se realizar. Mas, se houver garra para ir além, a despeito das dificuldades, e mesmo coragem para ajustar a rota no meio da viagem, tudo fica mais interessante.

Nossas paixões não estão prontas e não podem ser compradas em lojas de conveniência. Lamento dar essa notícia. Quando ampliamos as possibilidades dá, sim, uma certa angústia. É bom quando podemos ver o caminho todo, o cenário completo, mas na vida isso só acontece em livros e no cinema, onde até para fazer sucesso ou encontrar a paixão verdadeira é preciso abrir mão do conforto, e partir para novas experiências, parecendo louco, às vezes. Afinal, o mundo faz exigências. Lembra?

A INTERNET DAS PESSOAS

A noite de terça-feira quase sempre é de happy-hour. Dessa vez me juntei ao parceiro de muitas filosofadas, que há tempos não encontrava. Júlio é um homem da tecnologia, mas sempre flertou com o pensamento complexo, com um pezinho na academia grega e seus descendentes. A gente sentou no boteco, perto das 18h07, quando o assunto começou logo a pegar fogo, antes mesmo das canecas de chope chegarem.

— O que vai acontecer com o mundo, com a tecnologia tomando conta de todos os aspectos da nossa vida? — perguntei à queima roupa.

Júlio é um cara que viveu bem seus 45 anos, criando três filhas, num casamento que dura uma eternidade para os tempos modernos. O sujeito não tem papas na língua, para nenhum tipo de assunto. Por isso não resistiu à tentação e foi estudar filosofia na UFJF, depois de prestar o ENEM, no ano passado. Parece uma criança quando conta das aulas de metafísica.

— Cara, é inevitável que as máquinas, de alguma forma, acabem tomando conta de tudo em nossas vidas. Uma hora, teremos aplicativos governando nossas ações, mapeando nosso dia a dia, como já é feito hoje, mas num nível muito mais completo e complexo. — disse ele, sem fazer cerimônia.

Lembrei de uma entrevista com Yuval Noah Harari, na qual ele fala de seu novo livro 21 lições para o século 21 e os desafios desse momento em que vivemos. Com os efeitos do desenvolvimento das inteligências artificias, que já se mostram perfeitamente perceptíveis, mas sem deixar clara a direção para a qual estamos indo, ou se, de alguma forma, na verdade, seremos levados contra a nossa vontade. Harari comenta da ineficiência das autoridades do mundo todo para criar legislações capazes de harmonizar a expansão das IA’s e a nossa adaptação a isso. Empregos sempre foram extintos por causa da evolução científica, mas, paralelo a isso, sempre criou-se novos, alinhados aos novos tempos. Entretanto, a rapidez com a qual as coisas acontecem atualmente, deixam incertas as nossas chances de superação.

Estamos avaliando tudo. Motoristas de Uber, livros, carros, shows, restaurantes, lojas, etc.; enfim, tudo! Claro que nem todos nós somos justos na hora de escolher as estrelinhas que vamos oferecer. No episódio Nosedive da aclamada série Black Mirror, conhecemos uma realidade na qual as pessoas são aceitas ou não, de acordo com a avaliação social acumulada. Uma pessoa com nota acima de 4,5 está muito bem. Acima de 4,7 você faz parte da elite. Mas, se sua nota estiver abaixo de 3,1 eis o hades, o limbo, o inferno perfeito.

— Você acha que essa lógica vai chegar até nós, quando seremos avaliados em tempo real? — joguei mais uma sobre ele.

— Se você tem um CPF, então já participa disso. Existem níveis para tudo, hoje em dia. Seu score determina o que você pode comprar e como vai pagar. Já estamos sendo avaliados, em todos os níveis, principalmente nos que mais importam hoje. — ele respondeu, depois de um longo gole.

A Internet das Coisas está conectando todas as camadas dessa nossa realidade. Eletrodomésticos, carros, TV’s, além de computadores e afins, estão cada vez mais conectados, em vários níveis. A Internet das Pessoas (acabei de inventar isso) vai copiar essa lógica e nos manter ligados, de muitas formas e nos mais variados níveis. As sugestões automáticas que as máquinas já fazem sobre suas necessidades de recarrega, manutenção, etc. serão adaptadas à nossa realidade humana. A necessidade de rapidez e praticidade na vida diária vai exigir que nossa reputação seja simplificada em apenas um score geral, que resuma o nível de confiabilidade que oferecemos.

Por isso, o registro geral de tudo o que acontece com a gente vai pesar nessa classificação, com nosso CPF, IP, perfis em redes sociais e aplicativos de compras e prestação de serviços, e tudo o que marca nossas ações seja mapeado, para gerar uma nota que vai abrir ou fechar as portas por onde desejarmos passar.

Harari diz que os maiores desafios que iremos enfrentar não serão apenas as máquinas conscientes, que possivelmente vão nos roubar os empregos. Ele teme uma realidade na qual nossos governos não sejam capazes de lidar com a crise que será criada pela proliferação das IA’s, permitindo que talvez ocorra algum tipo de catástrofe social.

Os métodos de avaliação são inevitáveis.

Mas, será que teremos meios eficientes para fazer isso? Essas notas serão usadas de forma justa e inteligente? Seremos capazes de fazer boas escolhas e agir com seriedade diante disso?

A internet tem evoluído para satisfazer necessidades, de todos os tipos. O mundo que está aparecendo bem diante de nós faz exigências das quais ninguém poderá se abster. Sem a avaliação adequada não poderemos comprar e nem vender: viver será uma questão de crédito (confiança acumulada). Nossa futura avaliação vai determinar os tipos de hospital, restaurantes, clubes, lojas, bairros, etc. que poderemos frequentar, pois vai determinar que empregos teremos e se até mesmo teremos algum.

A nova moeda do futuro será aquilo que pensam de nós. Somos confiáveis?

Isso já é antigo, pois cédulas de dinheiro são apenas documentos públicos que confirmam que podemos confiar que aquele pedaço de papel poderá ser trocado por mercadorias e serviços. Como os cartões de crédito também o fazem. Acreditamos também no valor que eles representam. A diferença é que na Internet das Pessoas, seremos julgados pelo mundo ao nosso redor. Poderemos confiar nele?

Em breve, nosso valor pessoal estará visível e será usado para garantir crédito e determinar nossos círculos de convivência. Como sempre aconteceu, mas desta vez teremos cérebros digitais cruzando dados e registros sobre nós para gerar um rótulo provisório de quem somos e o que poderemos fazer. Uma espécie de “deus digital” que vai avaliar nosso comportamento, como nos relacionamos com as pessoas e as empresas, e assim determinar se merecemos o céu ou o inferno. Talvez um purgatório, enquanto lutamos desesperados por atenção, palmas e estrelas, trocando curtidas em nome de uma busca que não sabemos onde poderá nos levar.

FILHA DA MUSA

 

A criatividade humana pode nos salvar da extinção ou acelerar o processo

 

Nos anos 90, a Microsoft contratou a melhor equipe disponível na época para criar o que seria a obra prima das enciclopédias. Infelizmente, o milionário investimento não deu certo. Especialistas das mais variadas áreas, muito bem remunerados, não foram capazes de criar uma ferramenta de pesquisa acessível e confiável. O projeto Encarta tinha falhado. Vinte anos depois, a Wikipedia realizou o que parecia impossível. Pode não ser perfeita, mas a enciclopédia online está disponível em diversas línguas, sem custo, para a todos que desejarem consultá-la. Milhares de pessoas trabalham, todos os dias, para mantê-la atualizada, e parece que está funcionando. O pagamento pelo seu trabalho? Aparentemente, o simples prazer de contribuir, de colaborar, de participar de algo que acreditam ser grande o bastante e digno o suficiente para contar com a sua devoção.

Já é sabido que as pessoas não trabalham por dinheiro.

Para a maioria das pessoas trabalho ainda é uma espécie de castigo. Um atalho para conseguir recursos que serão, assim, convertidos em suas verdadeiras paixões. Claro, cada um vê o mundo de maneira diferente, e investe seu tempo e o suado dinheiro da forma que mais lhe apraz. Nossos motivos são íntimos e pessoais. Uns colecionam quinquilharias diversas, outros preferem carros antigos; uns se contentam apenas com viagens extravagantes, outros ainda se satisfazem apenas com bebidas caras, e ainda tem gente que é apaixonada por livros; a lista é tão grande quanto a imaginação humana seria capaz de se esticar.

Pagamos caro para ter acesso ao que amamos, e não resistimos à sedução de exibir nossas paixões. Somos viciados em compartilhar o que nos emociona.

O ser humano é um evangelista nato.

Quando assisti ao filme Mãe, do diretor Darren Aronofsky, percebi nitidamente isso. A alegoria feita pela obra sobre a história do homem, de uma possível perspectiva divina, é muito impactante. O que fazemos quando estamos apaixonados? Perdemos a noção do valor do dinheiro, dos limites físicos, da vergonha própria e da alheia, flertando, muitas vezes, com a morte, num balé afiado, no qual esbarramos o tempo todo com os limites da insanidade. Construímos reinos, destruímos cidades, arrasamos exércitos, queimamos milhares de livros, detonamos bombas atômicas, lançamos sondas espaciais, perseguimos e humilhamos pessoas consideradas inferiores, e também movemos céus e terras para reverter muitas de nossas atitudes, mesmo as mais terríveis.

A fé humana é o combustível mais poderosos do universo.

As musas gregas eram responsáveis por inflar a mente de seus devotos. Na época, imaginava-se que as nove deusas seriam capazes de alimentar a criatividade de quem as buscava com real dedicação. O ato criador precisava se valer das benesses derramadas do Olimpo. Sem isso seria impossível trazer algo à existência no mundo dos mortais. Essa ideia persiste até hoje, de muitas formas. A grande maioria das pessoas ainda acredita que o ato criativo é um dom. E isso recebe reforço de muitos canais de comunicação que insistem em deificar aqueles que “chegam lá”, como se fosse um lugar restrito aos deuses e seus seletíssimos agraciados.

Yuval Noah Harari defende que dominamos o planeta porque somos capazes de cooperar, mesmo sem conhecer uns aos outros, desde que acreditemos nos mesmos valores, ou que nos seja oferecido o valor dinheiro como elo. O mais interessante é que muitas das grandes conquistas da humanidade foram conseguidas através de algum tipo de doação. Se acreditamos em uma ideia e doamos nosso tempo, dinheiro e tudo o mais que for possível. Impérios se ergueram e caíram porque as pessoas deixaram de acreditar em ideias antigas, e começaram a desejar fortemente outras coisas. Resultando em mudanças drásticas na forma como viviam suas vidas. Mudam as ideias, caem os paradigmas e as coisas precisam se reorganizar. As pessoas se juntam com aquelas que pensam igual a elas, para oferecer segurança e conforto até que outra onda de mudanças venha e coloque tudo abaixo.

As pessoas cooperam para o bem e para o mal. As pessoas se juntam para muitas coisas, desde salvar um gatinho ou até mesmo construir uma pirâmide. Elas só precisam de motivos, de inspiração. Não aquela vinda de deusas moradoras dos montes gregos. A energia que une as pessoas é tão avassaladora que acabamos legando sua origem a algo divino. A energia que move uma pessoa que está apaixonada por algo ou por alguém beira a loucura, a mais completa sandice. Por isso atribuímos traços espirituais aos seus efeitos.

Quando acreditamos estar no caminho certo, nada consegue nos deter.

Sozinhos ou no meio de uma cruzada, lutando contra moinhos imaginários ao lado de nossos fiéis escudeiros ou no alto de um arranha-céu; dormindo na fila para ser o primeiro ou virando noite sobre livros e tubos de ensaio, não importa, sempre estaremos sob a influência do que chamamos de coração: o verdadeiro pai da criatividade. Essa que é filha da única musa digna de toda e qualquer devoção: a vida!

Imprevisível, a vida dinamita nossa imaginação das mais diversas formas, moldando o mundo ao nosso redor enquanto forja nossos pensamentos, uma escolha de cada vez, combinando as ideias que curtimos e, principalmente, as que compartilhamos.

O FIM DOS SIMPSONS

“fim”: s. m. 1. Termo, conclusão, remate. 2. Extremidade, limite de espaço, extensão ou tempo. 3. Intenção, propósito. 4. Escopo, alvo, objeto, fito, mira. 5. Morte. 

No dia 17 de dezembro de 2019, o garoto mais sem noção da história da TV vai completar 40 anos. Bartholomew J. Bouvier Simpson ou, como Matt Groeningpreferiu chama-lo, Bart Simpson, é o filho mais velho em uma típica família de classe média americana. “Típica” seria puro eufemismo. Na verdade, Groening, a pedido de James L. Brooks, criou uma série para ser exibida em horário nobre, e usou como inspiração suas próprias experiências domésticas, trocando apenas o nome do garoto. Bart, suas duas irmãs, Lisa e Maggie, a mãe Marge e o paizão Homer, são os protagonistas da combinação mais explosivamente improvável da história televisiva. Em 2019, serão trinta anos no ar. A série mais longa já produzida até hoje.

O que mantém um programa vivo por tanto tempo?

Adultos, jovens e crianças conhecem as figuras amarelas dos Simpsons. A velha série está mais jovem do que nunca. Não porque os personagens nunca envelhecem, mas porque os criadores conseguiram conectar o conceito inicial e contextualizar a proposta a todos os fatos temporais que ocorreram durante esses quase trinta anos. Fala-se de tudo, sem preconceito algum. Sexo, drogas, política, dinheiro, relacionamentos, racismo, futebol, homossexualidade, educação, sexismo, etc., etc., etc. Eles são um buraco negro invertido, de onde vêm todos os tipos de leituras inesperadas da realidade. Haja criatividade para oferecer saúde a um programa de televisão.

Bart está na quarta série há décadas. Claro que ele é refém de uma elipse temporal que o aprisionou nesse espaço tempo, mas há uma mensagem de evolução em seu personagem. O quarentão tapado, de QI questionável, já provou para todos que o acompanharam “crescendo” que medir a inteligência das pessoas por simples métricas pode ser uma perda de tempo. Pesquisas tem insistido em dizer que a inteligência das pessoas tem diminuído. Pode ser que, como a tecnologia faz mais e mais tarefas para nós, nos tornemos menos inteligentes. É possivelmente devido a mudanças em como matemática e línguas são ensinadas, ou até porque nós gastamos muito tempo em smartphones e computadores. Quem sabe?!

A crítica cortante, que está explícita em cada linha dos roteiros, faz dessa família um marco inesquecível da cultura pop. Esse é um tempero que os diferencia do que foi produzido antes, durante e, certamente, depois que eles partirem. Que o pensamento crítico é um catalizador da criatividade muita gente sabe, mas combinar elementos aparentemente desconexos e tirar daí uma história divertida, sedutora e, muitas vezes, educativa, faz dessa ideia uma marca que, dificilmente, será esquecida.

Experimentei todos os tipos de emoções assistindo aos Simpsons.

Adoro assistir aos episódios antigos, porque me realçam os tempos de adolescência. Resgatar a energia dessa época de alguma forma me renova. Para mim, almoçar ou jantar na companhia dessa família é muito revigorante. Às vezes, me incomoda saber que as crianças têm mais de trinta e seus pais estão acima dos 60. Não importa. No entanto, é difícil não se render à ideia de imaginar que existem tantas camadas existenciais dentro desses seres amarelados. Décadas acumuladas de tantas experiências, em mais de 600 episódios, de 29 temporadas, que parecem infinitas.

Pesquisas provam que a longevidade humana tem se ampliado cada vez mais. No entanto, alguns pesquisadores tendem a acreditar que o fator mais preponderante para ir em frente é a forma como escolhemos seguir nossos caminhos. Gente que vive mais intensamente, aprendendo coisas novas e oferecendo a si mesmo experiências diferentes, em momentos improváveis, tem mais chances de ir além e estender o fim da vida. Enfim, quem tem propósitos está a fim de chegar mais longe.

O fim (propósito) dos Simpsons se desenvolveu e se transformou com o tempo. Talvez eles acabem na 30a temporada, talvez durem para sempre, talvez nos surpreenda de muitas outras formas. Talvez. O fim dessa série está nas mãos das novas gerações de roteiristas que podem trazer novo fôlego a ela. Ela começou inspirada nas experiências de Groening, mas, com certeza, possui pouco do DNA original que a criou. Se ele não tivesse permitido essa diversidade criativa, dificilmente teria atingido seu imenso sucesso. O fim dos Simpsons dependerá da coragem em continuar a ler a realidade, oferecendo perspectivas, às vezes prevendo o futuro, em meio às mudanças que acontecem, hoje, cada vez mais rápidas.

TEM UMA CRIANÇA NO MEIO DO CAMINHO

Quando ele chegou em casa, seu pai já estava jantando. A ordem foi para ir dormir sem comer e sem tomar banho. O castigo era implacável. Sem conversa ou qualquer argumentação. O garoto de 8 anos não podia, segundo as leis da casa, chegar depois do pôr do sol. Infelizmente, aquela não foi a primeira e nem a última vez que suas fugas em busca de aventuras para explorar o mundo foram descobertas. Às vezes, a cumplicidade da minha mãe não ajudava muito. O estômago roncava, mas a mente estava cheia o suficiente para alimentar o desejo de novos voos.

Essa é só mais uma história de uma fiel criança, que insistia em sua agenda pessoal. Leis e regras não se aplicavam muito ao seu caráter aparentemente indomável. Mas, nem todas as crianças podem se valer disso. Os pais do século XXI têm ferramentas mais sofisticadas do que apenas simples regras de permanência no sagrado solo doméstico de seus lares. E funciona. A galerinha fica em casa, sem o menor problema. Nada é mais eficiente na arte de roubar a atenção de uma criança do que as quinquilharias eletrônicas vendidas hoje em dia. São babás quase perfeitas!

 

“Não sei o que o mundo pode achar de mim; mas para mim mesmo parece que fui apenas um menino, brincando na praia e me divertindo quando encontro, vez ou outra, uma pedrinha mas lisa ou uma concha mais bonita do que o normal, enquanto o grande oceano da verdade jaz totalmente não descoberto a minha frente.”
– ISAAC NEWTON

 

Pesquisas mostram que brincar é vital para o desenvolvimento de uma criança, equipando-a com as habilidades necessárias para lidar com o futuro da humanidade, como inteligência emocional, criatividade e solução de problemas. Ser um super-herói é liderar; receber um ursinho de pelúcia para o chá é organizar; construir um forte é inovar: brincar é aprender.

Essas oportunidades devem ser concedidas às crianças, onde e quando for possível. Mas, milhões de jovens em todo o mundo não têm espaços seguros para brincadeiras exploratórias e práticas. De fato, 78% dos pais concordam que, durante a infância deles, o mundo era muito mais seguro. É fundamental que a liberdade de brincar com segurança não seja perdida. Crianças que brincam em ambientes seguros, com apoio adequado, desenvolvem melhor a comunicação direta, trabalho em equipe e habilidades de negociação, permitindo que elas se tornem mais resistentes aos desafios da vida.

Muitas outras crianças continuam sem brincar o suficiente, pois isso acaba não sendo prioridade em meio às pressões e distrações de um mundo agitado, cheio de testes e provas, e orientado pela tecnologia. Infelizmente, nossa crença na importância vital da brincadeira, tanto dentro como fora da sala de aula, não é compartilhada por todos. Estudos mostram que, nos últimos 30 anos, o tempo que as crianças passam brincando na escola está diminuindo rapidamente. Em alguns países, duas em cada três crianças reclamam que seus pais organizam muitas atividades fora da escola, e quase a metade (49%) acredita ser difícil encontrar tempo para brincar com seus filhos.

Mais da metade das crianças nos Estados Unidos passam menos tempo ao ar livre do que condenados em prisões de segurança máxima. Enquanto o nosso mundo em constante mudança continuar a representar novos desafios, a capacidade das crianças de desenvolver habilidades essenciais ao futuro – e ao futuro da sociedade como um todo – será prejudicada.

Em um mundo ágil, repleto de tecnologias como aprendizado de máquina e inteligência artificial, significa que as crianças que entram na escola primária hoje terão empregos que ainda nem existem. Isso significa que precisamos repensar nossos sistemas de ensino, programas de treinamento e, principalmente, nossos processos de avaliação, para que as crianças de amanhã estejam preparadas para o que o futuro tem a oferecer.

A importância do ato de brincar em face de um mundo em plena e constante mudança nunca foi maior. Quando as crianças brincam, por exemplo, elas praticam o pensamento original, que é um dos principais processos cognitivos para a criatividade. Jogos de construção, na primeira infância, se correlaciona com o desenvolvimento de habilidades de visualização espacial, que estão fortemente ligadas às capacidades matemáticas e habilidades de resolução de problemas na vida adulta.

O homem que nos ajudou a ver como o universo funciona, já no fim da vida, não teve vergonha de dizer que passou sua vida toda brincando. Talvez esse tenha sido o grande segredo de sua genialidade. A dedicação de Isaac Newton ao que considerava importante não somente mudou a sua vida, mas a forma como o mundo entendia a si mesmo. Por não aceitar as regras de seu tempo, não o perdeu apenas imaginando como seria diferente, mas se comprometeu a fazer algo, enquanto se divertida. E parece que a brincadeira acabou dando certo!

Quanto mais nossos filhos brincarem hoje, mais preparadas serão as gerações futuras. A brincadeira sadia é necessária para nos dotar de líderes que possam resolver conflitos, resolver problemas, construir comunidades socialmente conectadas e inspirar a sociedade a florescer.

Quando você diz “eu te amo”

“Só se ama o que não se possui completamente.”
MARCEL PROUST

 

Insinuação é um substantivo feminino. É a maneira hábil de dar a entender alguma coisa sem expressá-la claramente. Também é a habilidade de se fazer aceitar, de seduzir pelas palavras e maneiras.

Sim, o dicionário diz isso, muitas vezes.

A escola nos ensinou que somos feitos de história. Quando olhamos as fotos daqueles tempos, lembramos de cada detalhe, de cada aventura, de cada amigo, amor e desafeto. Raras são as vezes que a sala de aula, propriamente dita, nos fez derramar uma lágrima de saudade. A escola nos ensinou que aprendemos mesmo é com as pessoas: amigos e professores, não com as matérias que ensinam. A escola é muito importante, mas não há mais lugar para ela. Não como ainda insiste em ser.

Lembro de uma vez que tive a brilhante ideia de pular o muro da minha antiga escola. Acredito que estava no quarto ano (antiga terceira série). Ficava olhando pela janela a densa mata que existia na parte de trás da Escola Estadual Luiz Antônio Bastos Côrtes, em Caratinga, imaginando que mistérios estariam ocultos naquele lugar. A cabecinha daquela criança de 9 anos fervilhava. Planejei, dia após dia, até achar coragem para ir ao encontro do desconhecido. Então o dia chegou. Era uma manhã quente, e o sol brilhava forte entre poucas nuvens. Assim que a sirene anunciou o fim das aulas, minha pastinha estava fechada, com todos os objetos recolhidos. Resoluto, desci as escadas mas, ao invés de seguir na direção do grande portão laranja, virei à esquerda e segui, furtivo, rumo aos fundos da escola. O coraçãozinho batia forte. Voltar ou seguir em frente?

Hackathon é uma expressão nova. E significa que estamos começando a entender o verdadeiro significado que há na criação colaborativa, no valor de acreditar na cooperação. Para quem não sabe, é o nome dado às maratonas feitas por programadores. Reuniões com o objetivo de somar forças criativas para o desenvolvimento de novas plataformas, sistemas e softwares. Uma maratona para resolver grandes desafios, munidos apenas com o talento de cada participante, combinados com a boa vontade e a disposição para ir além das possibilidades comuns. Espero ver o Hackathon em muitas áreas, sem preconceitos. O mito do gênio solitário está com seus dias contados.

Quando era moleque, adorava folhear os dicionários do meu avô, que passaram para o meu pai, que os jogou no lixo, de onde os resgatei, quase aos prantos. A coleção de seis pesados volumes me acompanhou, desde a tenra infância. Estão, agora, bem aqui na minha frente, enquanto escrevo essas linhas. São um legado. A edição de 1968 do Dicionário Brasileiro Ilustrado Edigraf foi um presente do tempo; um mostro de papel que poucos devem se lembrar. Eles me ajudaram a conhecer uma lasca da cultura mundial e, principalmente, das belas peculiaridades da Língua Portuguesa. Sim, em maiúsculas, porque a língua é a alma de uma cultura. A língua insinua, e a língua pode dar e fazer conotações. Depende de quem usa o poder de sua semântica.

Amamos o que não possuímos totalmente. Sozinho, diante daquele duro muro de cimento, pensei: é agora! A ansiedade pela nova experiência foi a força que me jogou para o outro lado.

A dor do “não saber” tem movido a humanidade. Quem sabe, muitas vezes, evita compartilhar. Conhecimento é poder. Grandes conquistadores ergueram centros acadêmicos e bibliotecas por onde passavam, a fim de contarem suas próprias histórias ou perpetuar as ciências. Sentimos um comichão pelo desconhecido. Em poucos milhares de anos, depois da Revolução Cognitiva, saímos das cavernas direto para os limites do Sistema Solar. Hoje, já ultrapassamos as bordas da Via Láctea com as lentes do telescópio Hubble. Isso tudo porque aperfeiçoamos a arte da colaboração. Cada um completa um pedacinho do quebra-cabeça. De pedra em pedra, toneladas tornaram-se a pirâmide de Quéops. Que até hoje, nos mantém intrigados com a sua própria história.

Quando se diz “eu te amo” é porque continuamos curiosos. Não importa quando, como ou para quem ou o quê declaramos nosso amor. Entramos em fluxo quando estamos diante daquilo que nos rouba a atenção. Aquilo que nos desafia a inteligência, prova que há uma esquina, uma curvatura, uma cortina sensual a nos deixar em suspenso à espera de mais.

O que faria uma turma de nerds se juntar para trabalhar juntos?

Muitos motivos. Cada um deles teria a sua própria resposta. Mesmo com objetivos desenhados à sua própria maneira, conseguem colaborar. Mesmo com sonhos e expectativas distintas, estarão lá, com os olhos brilhantes. Os homens e mulheres que construíram as muralhas da China, as estradas romanas, as 13 colônias, as caravelas que tropeçaram nas Américas, as pirâmides, a corrida espacial, etc. tinham os mesmos motivos que essa moçada que ama programar computadores. Todos querem fazer parte da história. Todos, a seu modo, dizem “eu te amo” à sua arte, aos seus deuses, às suas musas, pois desconhecem o futuro que desejam, ansiosamente, construir. Um futuro que não se parece com uma mata no fundo de uma pequena escola do interior de Minas, mas que os inspira ardentemente a seguir em frente, sem medo do que poderão encontrar.

A sala de aula está se mudando de vez para novos espaços, e a história do homo sapiens veste novos caminhos, enquanto o futuro anseia por uma sociedade cada vez mais colaborativa. A criatividade humana nos mandou várias mensagens do passado. Aprendemos, a duras penas, que o conhecimento humano é muito valioso. Ele liberta, e também aprisiona, se mal usado. Em tempos de Internet, quando todos sabem tudo o tempo todo, fica apenas uma pergunta no ar: devemos confiar nos homens ou nas máquinas?

Quando saí daquela mata cheio de arranhões, carrapichos e teias de aranha na cara, percebi que a descoberta cobra um preço muito caro. Nada substitui a realidade. Nenhuma aula, mesmo com toda a tecnologia disponível, seria capaz de simular a experiência que um aluno pode ter quando experimenta algo realmente concreto. Repeti muitas vezes situações semelhantes, e aprendi que sempre vale a pena tentar. Mas a lição que ficou é: nunca entre em uma mata sozinho. É muito arriscado. Afinal, as aventuras que dividimos são melhores pois temos com quem compartilhar. Quem explora sozinho acaba não voltando ou, se volta, não tem testemunhas para comprovar suas histórias.

Arrependido? Não. Mas, sugiro que escolhamos sempre dividir nossas experiências. É uma forma muito mais rica e humana de criar novas possibilidades, e manter o mundo mais seguro e próspero. Divertido? Sim, pois a combinação de ideias faz com que encontremos soluções mais poderosas e em curtos espaços de tempo.

Os desafios deste momento exigem muito mais colaboração.

A quantidade de informações que estamos gerando precisam ser analisadas por sistemas cada vez mais sofisticados. Um novo mundo está do outro lado do muro, e não precisamos ir sozinhos. Precisamos apenas juntar pessoas apaixonadas pelos motivos certos. Isso já será suficiente para justificar possíveis arranhões, carrapichos e as terríveis teias de aranha. Nada demais para quem prefere aventuras em grupo!

O futuro dos empregos e a criatividade que ainda não existe

“A imaginação é mais importante que a ciência, porque a ciência é limitada,
ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro.”

ALBERT EINSTEIN

 

Se todas as profecias dizem que, em breve, não haverá mais empregos, e que teremos terríveis abalos em toda a estrutura econômica do mundo, o que pode ser feito para mudar esse fatídico destino?

A criatividade que “criou” esse mundo o fez sob os auspícios do conhecimento acumulado até aqui. Infelizmente, parece que deu algo errado. As consequências de se ter uma sociedade como a de hoje exige um tipo de imaginação disruptiva, que se reinventa à medida que a realidade se descortina logo à sua frente. Claro, muitos diriam que a velocidade de transição está cada vez mais acelerada, mas apenas dizer isso não fará o mecanismo desacelerar. O mundo parece rápido porque, talvez, ainda estejamos presos a modelos e formatos de aprendizado de um tempo há muito ultrapassado.

Consumimos o entretenimento atual com imensa facilidade. Então, por que não aprendemos com a mesma facilidade? Por que a educação não é tão divertida, mesmo com toda a tecnologia disponível?

Gosto muito de uma das cenas de Ex Machina, na qual vemos uma das questões mais enigmáticas do filme, o que resume bem o drama e os dilemas vividos hoje em dia: “será que no futuro as máquinas vão olhar para nós como olhamos para os dinossauros?”. O modelo de mundo que conhecemos bem é esse em que pagamos impostos para que o governo cuide de nós; em que pagamos escolas incumbidas de preparar nossos filhos para o mercado de trabalho e, assim, continuarem a pagar impostos, mantendo a roda girando.

Não é comum vermos pessoas autônomas, totalmente livres para dar asas às suas ideias.

Felizmente, uma sociedade alternativa está surgindo das cinzas deixadas por esse modelo antigo, na qual se vê a necessidade de repensar urgentemente todos os métodos de aprendizado. Conhecimentos dinâmicos e contextualizados, úteis a um mercado de constante inovação, onde não há mais ortodoxia, padrões e nem mesmo previsibilidade.

As mudanças estão acontecendo e, de muitas e inevitáveis formas, teremos que enfrentar transições que vão nos cobrar uma conta muito alta.

Imagine governos totalmente guiados por IA’s, quando a maioria dos mecanismos estatais forem administrados por sistemas digitais. Uma massa de gente que trabalha em setores burocráticos será demitida. E esse é só um pequeno exemplo. O desemprego vai colocar muita gente na rua. Infelizmente, o modelo educacional que possuímos hoje, dificilmente se dedica a propor métodos colaborativos. Ainda vemos claro o poder da competição como mote central da cultura escolar.

Em um mundo sem emprego, com milhões de pessoas à beira do caminho, e sem uma noção clara e objetiva do valor da colaboração e do empreendedorismo, correremos sérios riscos.

A criatividade que já foi concebida historicamente como um dogma, restrita a seres escolhidos por uma força maior, começa a perder suas vestes sagradas e se despir, mostrando a sua verdadeira vergonha, ou seja, a de que jamais deveria ter sido elevada a nenhuma altura. Seu lugar sempre foi ao alcance de todos os mortais. Agora, com a sobrevivência de um mundo inteiro em risco, nos resta resgatar a nossa própria humanidade na qual reflete o poder da criatividade, enquanto, ironicamente, construímos máquinas sofisticadas o bastante para, talvez, tornar isso desnecessário.

Eis o dilema.

Em artigo para o Fórum Econômico MundialJoanna Cea e Jess Rimington, ambos ligados ao Stanford University Global Projects Center, falam da exclusão da maior parte do que chamamos de engenhosidade no mundo e seus enormes custos. “Estamos sufocando a inovação que uma comunidade agregada e integrada poderia oferecer. Há consequências imensuráveis por não ouvir a maioria das pessoas do mundo – em nosso país ou nas cidades. Se não prestarmos atenção, se não houver inclusão e engajamento de um maior volume de vozes, não apenas obteremos resultados mais fracos e também cometeremos erros evitáveis, mas também inventaremos um futuro de trabalho codificado com as mesmas patologias sociais profundas e sistêmicas”, afirmam. Para eles, a manutenção de um sistema ultrapassado nos manterá alinhados com o status quo que reforça ativamente tristes valores como o racismo sistêmico, a guerra, as mudanças climáticas, o sexismo e o feminicídio.

Os autores afirmam que para criar uma existência próspera, bela e mais justa, precisamos inverter os paradigmas que institucionalizaram a exclusão da dignidade, da engenhosidade, da criatividade e da liderança na maior parte do mundo. Para Scott Rosenberg, uma vez que mundos inteiros podem ser simulados para os sentidos, “a única maneira de assegurar a integridade da imaginação do público seria tirar esse poder das mãos de uma elite e colocá-lo ao alcance de todos”, defende.

Em uma sociedade livre para se valer de suas ideias, sem barreiras, conectada e consciente do poder de suas capacidades, empenhadas no trabalho colaborativo, será muito mais fácil lidar com os problemas que batem à nossa porta. Caso contrário, os resultados serão complicados, colocando a humanidade cada vez mais perto de algum tipo de risco de extinção. Imagina só!

INIBIDOS CRIATIVOS

“Mãe, por que os lápis marrons e pretos não são chamados também de ‘cor de pele’?”
HELENA, 8 anos

Quando a pequena Helena fez a sua pergunta o mundo parou. Sua mãe sentiu-se profundamente constrangida, já que ela mesma nunca havia pensado na questão proposta pela filha. A caixa de lápis de cor da garotinha ofereceu a ela a oportunidade para questionar algo que a maioria de nós, muitas vezes, nem percebe.

O talento infantil para fazer perguntas é inegável. Para a maioria dos adultos, um incômodo; para outros, oportunidade para rever suas próprias vidas. Nesse caso, você deve estar se perguntando, o que a mãe da Helena disse? Mesmo constrangida por não ter pensado nisso antes, o orgulho por ter uma filha que o fez a animou no desafio de explicar que todas as cores podem e devem ser tons de pele.

Essa é uma história real, e me fez pensar em todas as vezes que ou passamos por cima ou inibimos assuntos importantes que surgem durante a educação de nossos filhos. A criatividade come nas mãos de nossas perguntas, e em nenhum outro lugar. O problema é que no momento mais crítico da construção de nossa inteligência somos frágeis seres, que dependem dos adultos que podem ou não alimentar nossa curiosidade de forma apropriada.

O que pode ajudar quem possui TDA é a falta de inibição. Nesse caso, o cérebro tem dificuldades para filtrar pensamentos e impulsos na região do lobo frontal, permitindo resultados inesperados. Para alguns cientistas e terapeutas, esse fator pode auxiliar no desenvolvimento de sua criatividade, já que continuam, a despeito de adultos despreparados ou desmotivados, a olhar para o mundo com a força de uma mente quase indomável. Para as outras crianças, a curiosidade estará lá também, latente, mas a domesticação do lobo frontal poderá ser mais eficaz, caso haja uma deliberada inibição de seus potenciais.

Para Rod Judkins a dúvida nos faz investigar, e isso nos leva a descobrir novas ideias. “Duvide de tudo e de todos o tempo todo — especialmente de você mesmo”, diz. A criança sempre pergunta. Essencialmente, essa é a sua marca comum. Elas imaginam, criam e perguntam o tempo todo. Em maior ou menor escala isso gera transtornos. Claro, não temos tempo disponível para responder todas as questões criadas pelos pequenos. Mas, é importante entender que as perguntas criadas espontaneamente por eles, se bem respondias, formarão a base central do caráter que os acompanhará por toda a vida.

“Cor de pele” pode ser qualquer uma.

Criar crianças criativas é o desafio desse momento no mundo moderno. Elas são reféns no microcosmo do núcleo familiar, onde aprendem os rudimentos para construir o próprio caminho. Mesmo conectadas o tempo todo, não podemos esperar que a tecnologia seja mero entretenimento. As que confiam em seus pais vão querer confirmar suas ideias, se tiverem dúvidas. Dar liberdade para uma criança e se sentir livre para lidar com assuntos importantes pode ajudar no desenvolvimento da criatividade de todos os envolvidos. Sim, responder pergunta de criança é um desafio sem igual, mas adultos inibidos criam crianças inibidas. E a inibição pode matar o maior talento de um ser humano emocionalmente saudável: a capacidade de fazer perguntas sem a menor vergonha.

ESTUPIDEZ ARTIFICIAL

“O homem sensato se adapta ao mundo; o insensato insiste em tentar adaptar
o mundo a si. Portanto, todo progresso depende do insensato.”

GEORGE BERNARD SHAW

Lembro do verão de 1985. Eu e meus colegas de sala fomos convidados para conhecer uma grande novidade que havia chegado à cidade. A primeira impressão foi de espanto total e completo. Paixão à primeira vista. O CP500 que estava bem diante de mim era uma máquina espetacular. Como algo tão fantástico poderia existir? — me perguntava, incessantemente. Minha primeira experiência com um computador pessoal foi memorável. Para uma criança de 11 anos, na década de 80, aquilo parecia um ser vivo.

Trinta e três anos depois, não existem máquinas jurássicas como aquelas, talvez apenas em museus. Foram atualizadas e conectadas à Internet. A máquina que deslumbrou aquela inocente criança tinha uma tela monocromática minúscula, e nenhum HD. Um smartphone atual tem mais poder de processamento que todos os computadores usados para levar o homem à lua, nos anos 60. No século 21 a tecnologia tem dificuldades em deslumbrar as pessoas. Ela já faz parte de nosso dia a dia. Virou parte da paisagem “natural”. Hoje, crianças já nascem com câmeras coladas em suas carinhas sujas de sangue. Estarão online bem antes de mamarem pela primeira vez. A memória total de um CP500 tinha algo em torno de 64k, mais ou menos um décimo do tamanho de uma foto média, publicada no Instagram atualmente.

Numa sociedade na qual circula tanta informação, talvez não haja tempo para o deslumbramento.

Em um artigo muito intrigante, a revista The Economist fala sobre uma importante mudança que está ocorrendo neste momento. O petróleo cedeu seu lugar para a informação como a commodity mais valiosa do mundo. O combustível que nos permitiu viajar a 110 km por hora, de acordo com a legislação brasileira, perdeu seu lugar para algo que nos faz viajar à velocidade da luz. Pelo menos a informação pode. E o que é a informação, senão um retrato fiel de tudo o que somos e fazemos. Quanto mais registramos nossos dias, mais dados geramos para o mundo. E cada informação sobre cada pessoa neste planeta é útil para a tomada de decisões das máquinas que, de muitas formas, já nos governam.

A presidente da Microsoft Brasil, Paula Bellizia, em artigo para a edição especial Inteligência Artificial da Revista Exame, afirma que “toda empresa está se tornando uma empresa de tecnologia, não importa o mercado em que atue”. A Internet e os dispositivos móveis tornaram abundante um volume incrível de dados. Informação onipresente e cada vez mais valiosa. —Não importa se você vai correr ou assistir TV, ou mesmo ficar parado no trânsito, praticamente todas as atividades criam um traço digital – rica matéria-prima para as destilarias de dados — The Economist. Gigantes como a GE e a Siemens, dentre muitos outros, agora se vendem como empresas de dados.

Estamos cada vez mais monitorados. Todos somos geradores de dados; empresas e pessoas comuns são a nova lavoura de onde saem as sementes que alimentam máquinas famintas por doses cavalares de informação. Quanto maior for o volume de dados processados, mais fácil será fazer previsões, e mais inteligentes serão os sistemas que os processam. A velocidade da luz iluminou a estrada do futuro, e agora viajamos por um caminho que, aparentemente não tem limites.

Às vezes, eu me pergunto — por que as máquinas ficam cada vez mais potentes e sofisticadas?

Quanto mais perguntas fazemos, mais repostas conseguimos. E cada uma delas precisa ser armazenada em algum lugar para que a história das perguntas possa fazer algum sentido. E para administrar o acesso a essas informações, precisamos de recursos tão sofisticados quanto o volume de informações que geramos. Um CP500 armazenaria uma versão simplificada de apenas uma única foto em preto e branco. E isso seria injusto com a história de qualquer pessoa, por mais tímida que fosse.

Seria estupidez negar a nossa sede por novidades. Seria ridículo negar que somos apaixonados por criar momentos e relembrá-los. E essa necessidade de resgatar lembranças nos obriga a ter HD’s cada vez maiores. A necessidade de viver momentos cada vez mais emocionantes, e não perdê-los, colocou a criatividade humana em perspectiva. O que move nossa caminhada rumo ao progresso são nossas emoções, e não seríamos humanos sem elas.

A máquina é estúpida. E também artificial. A máquina foi criada para guardar a versão bruta e crua de nossas vidas. São apenas zeros e uns. Números, aparentemente sem nenhum sentido. Não acessados são incapazes de gerar emoções. Inacessíveis são inúteis. A máquina sabe cada vez mais sobre nós. Tanto, a ponto de fazer perfeitas previsões que soam inacreditáveis. Escolhemos máquinas para armazenar cópias de nossas lembranças porque não caberiam todas, intactas dentro de nossas mentes.

O desafio na era da informação seria o deslumbramento. Não o daquela criança de 1985, quando conheceu um computador pré-histórico. Mas, talvez, daquela criança que todos nós conhecemos um dia, que adorava fazer perguntas. Que adorava explorar o mundo. Quer você queira ou não, todos os seus passos já estão sendo gravados. Feliz ou infelizmente, o mundo precisa disso para funcionar. Resta bom senso meu e seu para fazer boas escolhas. Mas, aí você me pergunta — como fazer boas escolhas? Bom, normalmente seria fazendo más escolhas.

A vida é isso aí. Com ou sem máquinas, o ser humano se vê refém de suas emoções. E esse será o próximo desafio da tecnologia: criar máquinas sensíveis. Serão como nós? Difícil responder. Mas, isso não nos impede de continuar seguindo em frente, usando a poderosa criatividade humana para criar novas perguntas e arrumar onde guardar todo o resultado disso. Não acho que haveria problemas em conviver com máquinas inteligentes, de forma alguma; problema de verdade seria conviver com gente que nega as suas próprias emoções: um tipo de vida estúpido e artificial. Que não valeria as próprias fotos e HD’s onde seriam armazenados.

MEU AVÔ MATOU UMA MULA

“O que quer que você deseje fazer, vai descobrir na vida que,
se não for apaixonado pelo seu trabalho, não vai conseguir persistir.”

JEFF BEZOS

 

Eu não sei montar cavalos. Nunca soube. Mesmo vindo do interior de Minas, tive raríssimas oportunidades de estar sobre o lombo de um equino. Como neto de um lenhador profissional, vi muitos animais sendo maltratados durante o ofício de transportar a lenha que acendia vários dos fogões que alimentavam a cidade de Caratinga. Até os anos 70, era comum esse tipo de comércio, já que o botijão de gás era um artefato de extremo luxo para a maioria das pessoas da terra natal de meu pai. O ofício de puxar abarrotadas carroças era terrível para os animais. Reza a lenda de que um deles foi morto por meu avô, de tanto que apanhou durante uma das viagens de entrega. Definitivamente, a arte de domar cavalos, mulas ou até jumentos, de alguma forma, não me parecia apaixonante.

Por que contei essa história? Porque todos nós vivemos a mesma história. Acredito que o ser humano, sem exceção, nasce dotado de um poder, ironicamente, inimaginável.

A única coisa que nos permitiu sobreviver nesse selvagem planeta foi a nossa capacidade de imaginar. A imaginação é um “dom”. Mas, não se engane, ele não é tão divino assim, mesmo que tenha o poder de mudar realidades e transformar vidas. O corpo biológico que possuímos é frágil. Muito frágil. Se tivéssemos que contar apenas com ele, estaríamos perdidos. A imaginação humana nos deu poderes para superar todos os desafios de nossa existência. Mas, essa mesma imaginação é um animal selvagem.

E que continue assim.

Quando meu avô decidiu domar suas mulas e usá-las como “motores” de prestação de serviços, ele escolheu o caminho mais fácil. Claro que, dificilmente, ele teria consciência clara de seus atos naquele momento. Era quase um instinto. Quero apenas usar essa história real como uma metáfora, para simbolizar o que a maioria de nós acaba fazendo: encher a carroça com nossas melhores ideias, e entrega-las aonde forem solicitadas, sob a açoite de uma imaginação sendo domesticada.

A criatividade moderna é uma piada, ás vezes.

Adoro ler livros de história. Não porque há datas e sangue espalhados pelo chão; ou cidades, povos e línguas perdidos. A história sempre me mostrou um desfile de telas. Quadros nos quais eu podia ver o que nós, homo sapiens, podíamos fazer com tudo o que tínhamos em cada época. Um dia foi a roda; noutro o fogo. Daí a pouco, a agricultura. Mais adiante, a escrita e, então, a pólvora. Não demorou para singrarmos rios, mares e oceanos. Esses mesmos espaços que hoje submergem cabos de fibra ótica, por onde caminha a atual humanidade. O ato criativo humano está, hoje, em perspectiva. Pergunte ao Google que tudo se resolve. Está tudo lá. O oráculo que tudo responde também define a nossa criatividade.

Está certo? Errado, talvez?

Não é esse o meu ponto. O que desenha o meu medo é o fato de estarmos, cada vez mais, criando novas formas de domesticar as mulas do meu avô. Estamos, cada vez mais, dominando a arte de sermos criativos, mas, com isso, perdendo o seu charme selvagem. A imaginação humana é um animal selvagem. E precisa continuar assim. A melhor versão de um predador é aquela que ronda, furtiva, as pradarias e savanas. Não existe espírito criativo que caiba em um livro ou em uma simples palestra, e nem mesmo pode ser encontrado livremente em um buscador de Internet. Há riscos no processo criativo, e quem se propõe a entrar nesse mundo, preciso estar consciente disso, se quiser ser original.

Eu não sei domar cavalos. E é bom ter isso bem claro. Não se deve domar a criatividade. Deixe-a solta no imenso e vasto universo. Imaginação domesticada não nos serve de nada. Quando li sobre o projeto que lançou a sonda Voyager, percebi o quanto a mente humana é incrível. Imaginamos a possibilidade de encontrar vida além do sistema solar. Na estrutura da sonda, incrustados numa placa de ouro, enviamos uma série de símbolos, sons e imagens que esperamos que encontrem um destinatário desconhecido. O qual poderá transformar nosso destino, se estiver lá, no infinito, e se for capaz de ler nossa mensagem. Se isso acontecer, culpem ou agradeçam ao astrofísico Carl Sagan, a ideia foi dele.

Essa é uma prova do poder da imaginação humana. Nossa imaginação não está mais presa à atmosfera terrestre. Ela está prestes a romper as fronteiras mais longínquas do universo conhecido por nós, e poderá não retornar sozinha.

Uma criança criando seus primeiros rabiscos é uma bomba explodindo. Com um mínimo de sensibilidade poderíamos sentir o chão tremendo, e imaginar o estrondoso estrago que será feito em sua ignorância se puder decolar rumo ao infinito, e além. Quando meu avô matou aquela pobre mula era porque ela não o obedecia, empacada, não querendo seguir o caminho que ele insistia em lhe impor.

Sobre a vida que seguimos, em relação a nós mesmos, sobre nossos amigos, funcionários, familiares e, principalmente, sobre nossos filhos, acabamos, de muitas e terríveis formas, escolhendo puxar forte o cabresto, erguer a chibata e não temer o resultado, mesmo que seja o sangue vertendo sobre suas cabeças, pois acreditamos que aquele tal bendito caminho é o melhor a seguir.

Será?

Uma mente livre é algo assustador. Concordo! Mas, apenas para quem ainda acredita que o talento precisa de jaulas, cercas, muros ou cabrestos. Para o criativo, aquele que encontrou o seu elemento, a sua arte, o melhor caminho é permitir que a imaginação permaneça como foi criada: selvagem. Isso vai garantir que não haja fronteiras para o seu poder, mesmo que ainda exista muitas pessoas insistindo em dizer que o céu seria seu limite.

A FÁBRICA DA IMAGINAÇÃO

A criança nasce sem medo. Na infância usamos todas as oportunidades que temos para explorar o mundo. Infelizmente, somos sufocados com uma série infinita de mitos, costumes e padrões de comportamento que nossos pais nos impõem, desde os primeiros passos. A diferença da qualidade do “medo” que vamos sentir e o resultado disso dependerá do formato como somos criados. Uma família que não impõe limite algum vai permitir que a criança conheça o mundo sem nenhum mapa. Em um lar em que haja regras demais, serão desenvolvidas pessoas que sentirão um medo descompensado, que os obrigarão a acreditar apenas nos favores das regras que os governou a vida toda.

Pessoas criativas são aquelas que ou tiveram liberdade para desenvolver sua curiosidade de forma saudável ou aquelas que, de alguma forma, se rebelaram contra a cultura com a qual não concordavam. A criatividade exige reinvenção de valores. A tradição é importante para a sociedade, de muitas formas, mas para haver progresso positivo há também que haver liberdade criativa, para repensarmos as bases que governam todas as instituições sociais.

A ignorância é um estado. E isso nos possibilita vias de aprendizado, das mais variadas formas. Todos nós, como seres humanos, somos ignorantes. Por mais que você saiba sobre o mundo, ainda assim vai ignorar um aparente invisível oceano de conhecimentos que só poderá se mostrar caso essa ignorância o incomode. É o incômodo que faz a diferença. E ele tem a força da curiosidade que desenvolvemos no decorrer de nossa vida, principalmente aquela estimulada na infância.

O cérebro infantil busca ardentemente conhecer o espaço, o ambiente, as pessoas e a linguagem ao seu redor. É uma estratégia de sobrevivência. Se, nesse momento de evolução e emancipação de sua “ignorância” lhe forem colocados empecilhos, barreiras e punições constantes e sem justiça que o valha, mataremos a sua criatividade, que beberia da curiosidade que lhe será roubada, em uma época que nem mesmo pôde lutar por ela.

A maior habilidade de uma pessoa criativa é a curiosidade. Sem sombra de dúvidas. Mas, como nada é tão simples assim, imagine que apenas ser curioso não torna ninguém criativo. A curiosidade precisa de disciplina, de regras, de orientação, de bom senso. Sair pelo mundo, curioso, em busca da novidade pela novidade não vai levar ninguém a lugar algum. Claro que a curiosidade como terapia é um excelente catalisador da criatividade.  No meio de qualquer projeto, de uma busca, uma pesquisa, um estudo, uma criação nova, sempre vamos esbarrar em bloqueios criativos; e é nessa hora que devemos sair pelo mundo, curiosos, sem saber o que fazer, pelo simples prazer de relaxar. As melhores repostas podem vir dessas improváveis pausas.

Empreendedores são essencialmente pessoas que erram. E erram muito. E disso depende a criatividade deles. Quanto mais errarem, e quanto mais aprenderem com isso, mais ricas serão suas experiências e a capacidade de criar coisas novas. A sua imunidade emocional estará fortalecida. Não existe lugar seguro para quem quer empreender. E isso é bom. Zona de conforto nunca fez bem a ninguém. Cada erro nos ajuda a adaptar o negócio, a ideia. Aperfeiçoar é a melhor estratégia, e isso depende do reconhecimento das falhas e das atitudes corretivas. Acreditar piamente em uma ideia rígida e infalível é assinar o próprio atestado de óbito.

No mundo em que vivemos é perigoso ser criativo. Ironicamente, quanto mais buscamos ser criativos, mas problemas enfrentamos. Esse mundo ainda não está pronto para o espírito livre da criatividade. Os criativos ainda sofrem com a depressão que os assolam pois são muitas vezes incompreendidos. Um animal selvagem aprisionado tem um rugido fraco, nunca comparado com o predador que reina na savana aberta. O dilema do criativo quase sempre são as contas que precisa pagar. Se “inventar moda” vai acabar perdendo o emprego. Ele ou ela acabam se rendendo à pressão.

Felizmente, o mesmo mundo que criou uma massa de gente repetidora, agora precisa de gente criativa, pois para as funções que não exigem um cérebro foram inventadas máquinas. O dilema agora é: ser ou não ser criativo. Mas, o resultado disso será tornar-se um inútil, que recebe uma graninha do governo para não morrer de fome ou dar vazão à sua arte e mostrar para as máquinas que ainda há um oceano inflamável, à espera de uma fagulha capaz de mudar o seu destino. Basta um sim, um passo, mas na direção contrária, pois o criativo sempre cria o seu próprio caminho.

Criatividade é algo que se descobre. Sim. Mas, não se engane, você não vai se deparar com ela em alguma esquina da vida. Criatividade é um estado de espírito. Um exercício diário. Se você gosta de respostas prontas, saiba que a sua criatividade será questionável. A criatividade exige a releitura de tudo. Isso não é negociável. Se aceitamos tudo como está, nada muda, nada é criado.

Sim, você tem razão se disser que as coisas precisam de uma certa organização.

Claro que sim, mas de tempos em tempos é preciso um terremoto para que se possa ver as coisas por outra perspectiva e, daí, reorganizar tudo, encontrando novas formas de seguir em frente. Um excelente exercício para ampliar a criatividade e estimular a curiosidade é mapear a nossa rotina. Como faço o que faço? Como são meus dias? Questione-se sobre as suas práticas diárias. Experimente novos trajetos de casa para o trabalho, para a igreja, para o clube. Experimente novas amizades, e tente ouvir sobre a religião que você não concorda. Perceba que disse “ouvir”, pois se a gente fala, nessa hora acabamos criando barreiras e não criamos a novidade em nossa mente. Ler livros diferente, assistir a filmes que não gostamos, dormir em posições diferentes, enfim, oferecer a si mesmo uma experiência sensorial completamente nova.

Cada nova atitude vai ativar novas áreas em seu cérebro, catalisando novas possibilidades, e as conexões neurais estarão mais ricas, ajudando você a sentir o mundo de forma mais ampla, dando uma sensação de que é mais inteligente. A coisa é viciante. Depois que começamos é quase impossível voltar à velha vida. Como disse Einstein, uma mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original.

O DEMÔNIO DA CRIATIVIDADE

“E se o mundo não corresponde em todos os aspectos a nossos desejos,
é culpa da ciência ou dos que querem impor seus desejos ao mundo?”
CARL SAGAN

A depressão é uma doença marginal. Não se fala dela nas rodas de bar, a menos que seja para comentar daquela pessoa que não está presente, pois é sempre alvo de críticas, pois todos acham que a sua “depressão” é desculpa para faltar ao trabalho ou evitar atividades estressantes. Na maioria dos casos, a doença (que é difícil de ser aceita como doença) é tratada como preguiça, charlatanismo e até como reforço de um mau caráter.Pouco se sabe e pouco se fala sobre a depressão. Há preconceito, principalmente ou por se tratar de uma doença mental, que ninguém gosta de reconhecer, ou por não haver um conhecimento público bem esclarecido, que abra espaço para um debate saudável. O pior traço da doença hoje, ainda é o seu status de fato inaceitável.

O mundo está ágil. Veloz. O mundo, graças à ciência, não para nunca. Não nos amedronta a noite. Trabalhamos 24 por sete. E sempre é possível fazer um pouco mais. A constante exigência é que não haja pausas. Cada pausa significa prejuízo ou algo que se perde. E isso é inaceitável. Para aliviar a pressão estamos cada vez mais dopados de álcool, de drogas (lícitas e ilícitas), de cacoetes consumistas, de mídias sociais que nos entorpecem com suas mensagens. Precisamos de doses cada vez maiores de felicidade. Cenário perfeito para a depressão explodir.

Mas, num mundo que corre, o depressivo, neste contexto, é um problema. É o cara na contramão atrapalhando o tráfego, como na letra de Chico Buarque. Citada em artigo à Revista Época, pela jornalista Eliane Brun, a psicanalista Maria Rita Kehl nos provoca com uma hipótese sobre a qual vale a pena pensar: em seu último livro, O Tempo e o Cão – a atualidade das depressões (Boitempo, 2009), ela comenta que a depressão, que vem se tornando uma epidemia mundial desde os anos 70, pode ser a versão contemporânea do mal-estar na civilização. Para ela, a depressão teria algo a dizer sobre a forma como estamos vivendo e sobre os valores da nossa época. Para além da patologia, a doença pode ser vista também como um sintoma social.

As máquinas, graças à ciência, tornaram-se hiper sofisticadas. Estão quase tendo vida própria. Houve um tempo em que dava orgulho ser um operário. Alguém que operava máquinas. A figura humana representava o ápice pois tinham dominado o poder das máquinas. Revoluções políticas se valeram da imagem do homem e da mulher, fortes, prontos para assumir seus lugares em indústrias, que prometiam libertá-los da pobreza. Hoje, as máquinas estão cada vez mais autônomas, e prometem assumir o controle total, muito em breve. Parece não haver lugar para o ser humano no futuro. Quando olhamos para frente, só é possível ver máquinas. Prestes a se ver expulsos do paraíso, os seres humanos estão cada vez mais desprovidos de seu propósito. Cada vez mais desconectados do próprio mundo que ajudaram a criar. Diante disso, como não se perder, e não acabar mergulhando em estados depressivos?

Fizemos tanto amor com a tecnologia que nos tornamos dependentes de seus favores. Só sentimos prazer se for possível apertar um botão ou deslizar uma tela iluminada. A Revolução Industrial nos despiu de nossa humanidade e nos violentou com tamanha força, que não entendemos o mundo se não for por métodos de repetição, lineares, compreensivos e que redundem em resultados previsíveis.

Ao assistir ao documentário Innsaei: o Poder da Intuição, de 2016, percebi como estou eu mesmo dopado com tantas mentiras sobre a vida e sobre o meu potencial como ser humano, em como me deixei ser aprisionado pelas facilidades da tecnocracia. O filme conta a história da busca da alma, da ciência, da natureza e da criatividade. InnSæi leva-nos por uma viagem mundial que busca compreender a arte de como o ser humano se conecta com a sua essência.

A antiga palavra islandesa “Innsæi” tem múltiplos significados. Pode significar “o mar de dentro”, da natureza sem fronteiras do nosso mundo interior, em constante movimento de visão, sentimentos e imaginação além das palavras. Pode sugerir “ver o interior”, conhecer a si mesmo bem o suficiente para ser capaz de se colocar no lugar de outras pessoas. Ou pode ser interpretado como “ver de dentro para fora”, que é ter uma forte bússola interna para navegar em nosso mundo em constante mudança. Isso tudo potencializa uma habilidade intrinsicamente humana: a intuição.

Os números da depressão no mundo são assustadores. Os transtornos mentais custam à economia global US $ 1 trilhão em perda de produtividade por ano, sendo a depressão a principal causa de problemas de saúde e incapacidade, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. Mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de depressão, um aumento de mais de 18% entre 2005 e 2015. Enquanto isso, 260 milhões de pessoas sofrem de transtornos de ansiedade. Muitos vivem com as duas condições. Não dá para ignorar isso.

Há uma solução possível através do diálogo aberto, da expressão artística, da busca por significado nas coisas simples, na natureza selvagem e em seus mínimos detalhes, nos relacionamentos sinceros, na dedicação ao bem comum, na desaceleração, na interação saudável e na ruptura das fronteiras que dividem todos os seres humanos, sem exceção, e a beleza de suas ideias.

Como bem disse Steven Pinker, um autor que gosto muito, “esta história não pertence a nenhuma tribo, mas a toda humanidade, a qualquer criatura senciente* com o poder da razão e o desejo de persistir em seu ser, pois requer apenas as convicções de que a vida é melhor que a morte, saúde é melhor que doença, a abundância é melhor que a necessidade, a liberdade é melhor que a coerção, a felicidade é melhor que o sofrimento, e o conhecimento é melhor que a ignorância e a superstição”.

As máquinas não serão assombradas por demônios. As máquinas são o resultado da nossa própria busca pela eternidade, pelo divino que não conseguimos explicar, um jeito de eliminar nossas falhas e limitações. Nos enfeitiçamos tanto por elas que perdemos o controle de nossas criações. Se não acordarmos desse transe, e nos dermos conta dos riscos que corremos, dificilmente escaparemos de um triste final.

O demônio da criatividade persiste em seu trabalho, assombrando nossas mentes em busca de alguma reação. Nossas escolhas podem salvar o mundo, ou encher o sombrio abismo do esquecimento, com todas as mentes que poderiam fazer a diferença, mas nunca encontram um motivo, um propósito real para ter uma voz, para ser protagonistas de suas próprias histórias, pois haviam lhe drenado a sua sensibilidade, capaz de gerar a intuição necessária para se tornarem únicos, seres impossíveis de serem copiados. Singulares!

 

* Senciente: adjetivo de dois gêneros – que percebe pelos sentidos; que recebe impressões.

VOCÊ TEM MEDO DE QUÊ?

“A ausência de medo não é a coragem;
a ausência de medo é um problema mental.”

PO BRONSON

 

Steven Pressfield diz que o medo é uma força de resistência. Para ele, quanto mais medo sentimos sobre um empreendimento específico, mais certos podemos estar de que esse empreendimento é importante para nós e para o crescimento de nossa alma. “É por isso que sentimos muita resistência. Se isso não significasse nada para nós, não haveria resistência”, defende. O medo é bom, diz Pressfield. É um indicador. O medo nos diz o que temos que fazer: quanto mais assustados estamos com um trabalho ou chamado, mais seguros podemos estar por fazê-lo.

O medo nos faz pensar nos detalhes, tomar precauções e preparar o terreno para nos certificar de que o trabalho pode sempre ser melhor. O medo nos faz imaginar, e isso pode ser bom.

A maioria dos animais, como nós, sente medo…

A maneia como lidamos com o medo é uma construção cultural. Cada povo, cada cultura, cada tempo tem a sua própria versão de seus medos, receios e temores. A primeira exibição de cinema conhecida foi em 28 de dezembro de 1895, em Paris, sala Eden: Arrivée d’un train em gare à La Ciotat (Chegada de um trem à estação da Ciotat). Em pouco menos de 60 segundos, a primeira plateia acompanhou a chegada de um trem à estação. O evento foi tão insólito que várias pessoas simplesmente fugiram desesperadas para o fundo da sala com medo de serem atropeladas. Isso nos dá um exemplo simples de como o medo pode ser moldado. Ironicamente, hoje colocamos óculos 3D e de realidade virtual para sentirmos sensações ainda mais intensas, com os objetos ainda mais reais e vindo diretamente em nossa direção. O que foi aterrorizante um dia, agora é motor de uma indústria multimilionária.

A teoria de Pressfield sobre o medo é muito interessante. Confesso que quando a li em seu livro The War of Art – Break Through the Blocks and Win Your Inner Creative Battles – eu achei muito estranho. Afinal, passei boa parte da minha vida sentindo medo. Para dizer a verdade, quase a vida toda. Talvez não conte o período intrauterino. O medo, o receio, o temor, o pavor, a apreensão, a preocupação, a inquietação, a incerteza e a dúvida me serviram por tempos como companhias inseparáveis, mas quase sempre de forma negativa. Tirar proveito disso parecia ilógico. Me aproveitar de meus estimados e aterradores fantasmas soava estranho, e me dava ainda mais medo.

Eureca! Foi isso que me libertou. Se brigar com o medo também dá medo, então o medo é apenas uma ideia, e ideias podem ser alteradas, reconfiguradas. E conhecereis a verdade…

Um dos meus maiores medos era falar em público. E ainda continua sendo, tenho que ser sincero. Mas, o enfrentamento dessa situação está me ajudando a ser uma pessoa melhor, mais assertiva e positiva, além de muito mais criativa. Afinal, quando você aceita dar uma palestra precisa dar o seu melhor, já que pode ajudar outras pessoas a lidar com os seus próprios medos, e tirar vantagem disso. Hoje, consigo permitir que pessoas estranhas leiam o que escrevo; o medo está lá, de longe me olhando pelo canto do olho, é verdade. Mas, não dou muita bola pra ele. Sei que vai me pegar desprevenido, em algum momento, mas isso não me assusta mais, pois a própria vigilância e a possível falha vão me tornar mais consciente de minha missão como profissional, e como ser humano.

As máquinas estão assumindo postos de trabalho, há tempos na história do homem. Não é um fato novo. Desde que o homo sapiens se viu imerso no que Yuval Noah Harari chama de revolução cognitiva, experimentou um viciante drinque de imaginação, o qual lhe deu poderes, aparentemente, inimagináveis. A nossa capacidade de pensar sobre o que ainda não existe ou não é possível foi a ponte para dominarmos o mundo. Imaginamos tanto que o nosso dia a dia moderno é infestado de criações feitas para tornar nossas vidas melhores. Claro que isso é um fato questionável, mas temos que concordar que estamos o tempo todo imaginando coisas. Mas, com o tempo, o sapiens se perdeu e se permitiu pensar demais em algumas situações e de menos em outras. Identificar onde está o erro é o grande desafio do momento. Por isso criamos inteligências artificiais. Talvez porque pensamos demais e, talvez, tenhamos perdido o controle.

Seres humanos são criativos por que sentem medo. Medo da finitude, do desconhecido, do futuro e de si mesmos, pois não sabem do que são capazes, de suas possibilidades. Têm medo, pois têm a arma mais poderosa do universo: a capacidade de imaginar. E isso mudou a vida de todos os nossos antepassados, e não nos deixará na mão quando mais precisarmos dela. As máquinas inteligentes serão apenas mais um desafio, senão o maior, numa história que já provou que somos capazes de superar todos os desafios. Pelo menos até agora, já que o futuro sempre foi produto da nossa imaginação, até se tornar um presente inevitável.

 

***

Esse tema é discutido em meu novo livro
“Imaginação: a arma mais poderosa do universo”.

Lançamento, em breve!

MÁQUINA DE DAR ARREPIOS

Ideias são luminosas. Quando surgem não há como escondê-las. Chamam a atenção de verdade. A “ideia” de usar lâmpadas como o símbolo da criatividade parece genial. A própria história da lâmpada, por si mesma, define um conceito difícil de ser destruído. Quando a noite deixou de ser tão assustadora, o mundo tornou-se um lugar cada vez mais interessante. Monstros noturnos começaram a dar lugar a uma nova classe de personagens que esculpiam nossas fantasias, pelo simples fato de não haver mais escuridão. Um interruptor simples interrompia o medo, mudava o brilho nos olhos, iluminava dilatadas pupilas que começavam a imaginar novas coisas.

A lâmpada mudou o mundo porque mudou como o sentimos, e como o observamos. Mas, acredito numa outra forma de ilustrar ideias.

Me veio uma luz aqui.

Quando Angelo Barovier, na ilha de Murano, em Veneza, aplicou cinzas de alga marinha (rica em óxido de potássio e manganês) em vidro derretido descobriu algo impressionante. Quando a mistura esfriou, ele tinha criado um tipo de vidro extraordinariamente claro. Barovier chamou a mistura de cristallo. E assim nasceu o vidro moderno, e a sua poderosa influência sobre os destinos da humanidade.

Até o século XV, ninguém havia visto a sua própria imagem, clara e límpida. A revolução do dióxido de silício (vidro) seria, inexoravelmente, sem precedentes.

Fazemos piadas pelo enorme número de selfies produzidas a cada instante, em todo o mundo. Sim, parece ser um evento moderno, mas não é. Logo após o aperfeiçoamento da produção de vidro cristalino, bastou que alguém tivesse a ideia de revestir a parte de trás das peças com um amálgama de estanho e mercúrio, a fim de criar uma superfície brilhante e altamente reflexiva. Eis a revolução das selfies, em sua versão pré-histórica, é claro. Depois disso, a fixação pela autoimagem tornou-se endêmica, inspirando infinitos movimentos.

Gosto de imaginar uma semente que é jogada no chão. A mente é o solo, e aquela lasquinha de possibilidade é uma coisa nova ali, naquele lugar, aparentemente, estranho. Se não houver as condições apropriadas, o broto não saltará do anonimato para a luz do dia.

O chão que chamamos de mente, onde a coisa acontece, onde pulsam todos os nossos pensamentos, também abriga o nosso repertório: experiências acumuladas. Isso tudo fertiliza nossas ideias. Quanto mais rica e diversificada for essa base, mais poderoso será o desenvolvimento da semente. Nosso processo criativo necessita desse repertório. Livros, viagens, músicas, relacionamentos, aventuras… Tudo conta. Tudo serve de alimento. Quanto mais diversificado, mais exótico e, por isso, mais interessante.

Ideias são plantadas em nossos corações todos os dias, mas a sua vida dependerá da riqueza de onde tirar os nutrientes que a conduzirão. A imaginação humana é fértil na mesma medida de conexões que fazemos com o que aprendemos. Seres humanos imaginam. Mas, seres humanos só imaginam se foram nutridos com imagens, com significados que se reinventam. A complexa combinação de experiências é o verdadeiro poder que possuímos. A imaginação em si não é nada, se não tiver de onde beber, de onde tirar a sua força. Quanto mais adubado o solo de nossas mentes, mais poderosas serão nossas ideias.

Quem decidirá o destino da humanidade: Um homem, um deus ou uma máquina?

IA’s talvez sejam nossos futuros adversários digitais, mas elas ainda não têm um coração para provar que estão excitadas com as suas próprias ideias. Não sentem um turbilhão de sensações eletroquímicas varrendo suas terminações nervosas, arrepiando suas peles quando uma louca imaginação lhes salta à mente. Pelo menos, por enquanto.

Então, é melhor imaginar um futuro em que tenhamos máquinas organizando eventos, conferindo o IR, administrando o trânsito e o tráfego aeroespacial, até mesmo ensinando nossas crianças ou, melhor, aprendendo com elas, já que ensinar é um processo mecânico, e o aprendizado é orgânico. Enquanto isso, a gente vai se divertir com a próxima viagem virtual a galáxias próximas, planejando a colonização de novos planetas, e também, quem sabe, descobrindo novas formas de tornar essa frágil e debilitada circunferência azul em um lugar melhor para se viver.

Isso eu acredito que não seja muito difícil de imaginar! Ou seria?

 

A VIRTUDE DA IGNORÂNCIA

O limite da ignorância estará sempre um passo adiante, onde quer que estejamos. É no movimento que esbarramos em nossa própria estupidez. E não se engane, a coisa não se limita a um simples “ir”. Acariciar a rotina não acrescenta muita à nossa experiência. Esse “ir” até pode nos levar ao tal “limite” entre o saber e o desconhecido. Seria como buscar a utopia, mas o que, às vezes, evita o mico, é o mero fato de que o passeio, talvez, justifique a própria viagem. Só indo pra ter certeza, ou não, quem sabe?!
Em tempos de facilidades tecnológicas, é uma maravilha viajar apenas via controle remoto ou touchscreen.

Tirar o traseiro do assento seria meio estranho, já que a sensação de deslocamento digital é quase perfeita em alguns casos, e também temos a convicção de que aprendemos muito nas jornadas virtuais. Só que não; na verdade precisamos de um pouco mais. O cientista Howard Gardner diz que é preciso mais do que o conhecimento clássico que se ensina nas escolas. “A maior parte dos testes mede a inteligência lógica e de linguagem. Quem é bom nas duas é bom aluno. Enquanto estiver na escola, pensará que é inteligente”, declara. Ele também afirma que se o aluno decidir dar um passeio pela cidade, rapidamente descobrirá que outras habilidades fazem falta, “como a espacial e a intrapessoal – a capacidade que cada um tem de conhecer a si mesmo, fundamental hoje”.

Certo dia, quando rabiscava uns rascunhos, acabei por definir pra mim mesmo a seguinte ideia: o ápice da sabedoria é quando aprendemos que não existe limite para a nossa própria ignorância. Não sei se alguém já disse isso, mas o conceito com certeza não é novo, muito menos e totalmente meu. Ser sábio é estar inquieto. É sentir coceira na mente o tempo todo, é estar aflito pelo avesso das coisas. A expansão de nossa linguagem e de nossos limites depende disso, e a percepção de mundo cresce na mesma medida. Afinal, como disse meu amigo Ludwig Wittgenstein: as fronteiras da minha linguagem são as fronteiras do meu universo. Ou seja, meus passos geográficos são saltos sensoriais, se estou aberto para o voo.

Dada a maldita ignorância, que fez e faz cabos eleitorais há tempos e por todos os lados e mantém muita gente deitada nos cantos quentinhos da estupidez, ficamos na berlinda, a inquirir se a marcha rumo ao utópico horizonte vale a pena ou se seria melhor mesmo enfiar o rabo entre as pernas e aguardar ração e água fresca, depois de ir buscar a bolinha no fundo do quintal. Schopenhauer não gostaria do tom desse papo. O alemão sisudo, sentado numa mesa de bar, diria: meu caro, “talento é quando um atirador atinge um alvo que os outros não conseguem, gênio é quando um atirador atinge um alvo que os outros não vêem”. Dado o invisível soco na boca do “estômago” vazio – de bons argumentos contrários -, partiríamos resignados de volta à implacável busca pelo limite da ignorância?

No meio de uma praça ateniense Sócrates debatia com seus discípulos sobre a necessidade de romper com o conforto de seu conhecimento estático. Gritava ele aos quatro ventos que sábio era aquele que conhecia os limites de sua própria ignorância. Já o poeta de Itabira, com seus versos de ferro, vem fechar a nossa reflexão sobre a ignorância, nos servindo um prato de tempero forte. Drummond propõe que usemos de nossa ignorância para invalidar e, talvez, neutralizar o poder de quem deseja afligir a nossa realidade. “É virtude ser ignorante quando os sábios são perversos”, alfineta Carlos, o poeta de fala mansa e corte afiado nas entrelinhas.

O limite é a vontade; sempre será. O limite está no meu querer, o meu chafurdar no conhecimento, sem vergonha da pergunta, porque ela elimina o limite e, para a tristeza do pobre de espírito, cria outro. A vida é infinita em suas possibilidades, texturas e cores. Infinita e sedutora nas formas e na incontestável forma de nos surpreender. No exato momento em que nos aproximamos de suas bordas, com cara de ignorantes, ali mesmo, ela nos lança a distâncias colossais, de onde nos restará somente a decisão de nos levantar e caminhar na sua direção, de novo.

O BEM MAIS PRECIOSO DO UNIVERSO

Hoje, só se fala em Childish Gabino e This is America. O criador da “confusão”, Donald Glover, está feliz, ao que tudo indica. O barulho que desejava criar é ensurdecedor. Todos querem explicar a sua obra. Todos querem descobrir os segredos ocultos em sua música. Todos querem ser os primeiros a atravessar o imenso oceano de sua imaginação e descobrir até onde é possível navegar. Quem é Gambino? Quem é Glover? Quem é a América? Quem somos nós? Quem é você? Quem sou eu?

De tempos em tempos surge um encrenqueiro. Vez ou outra, alguém bota a cristaleira abaixo. De repente algo surge no horizonte e não se parece com nada que conhecemos. Um tsunami de ideias somado a uma outra imensa onda de desespero sempre desenha a paisagem nessas horas. O incômodo é humano. Serve para despertar as pessoas, fazê-las mudar de posição. Sair da África e colonizar o resto do mundo. Negar a ideia de uma Terra plana e enfrentar o bravio e desconhecido Atlântico. Questionar as leis de um poderoso país, que foi criado sobre as bases da liberdade e da igualdade, marchar até a sua capital e provar que nem todos ainda são iguais.

Imaginar que é possível muda tudo.

Quando é preciso usar a imaginação significa que ainda não existe o que desejamos. E isso nunca foi problema para o ser humano. Quando Johannes Gutenberg inventou a tipografia, ou o processo de impressão com tipo móveis, não imaginava a revolução que iria fazer. As pessoas tiveram acesso a maiores quantidades de literatura, por isso precisaram cada vez mais de lentes para auxiliar na leitura. Isso impulsionou a pesquisa e o desenvolvimento do setor ótico na Europa, causando um salto na criação dos microscópios e telescópios. Com isso, é possível para imaginar o que houve na saúde e na astronomia. Conhecimento acessível e novas ferramentas de pesquisa dariam o pontapé inicial para o Renascimento.

O bem mais precioso do universo é a imaginação humana. “E hoje esses exploradores, humanos e robóticos, usam como guias infalíveis em suas viagens pela vastidão do espaço as três leis do movimento planetário que Kepler revelou durante uma vida de labuta pessoal e extáticas descobertas”, escreveu Carl Sagan, no livro Cosmos, de 1980. O homem que teve a mãe morta por suspeita de bruxaria, foi o mesmo que não abriu mão de seus valores. Segui imaginando um mundo diferente, um universo infinito, em que a harmonia era seu segredo.

Em meio a pressão da igreja que repelia qualquer ideia contrária a seus princípios, Kepler seguiu em frente. Em Somnium, uma ficção científica que escreveu durante a fatídica Guerra dos Trinta Anos, ele fala do poder que os sonhos têm, e como a realidade é muito pouco para sustentar nossas ideias. “Num sonho deve ser permitido a liberdade de vez ou outra imaginar o que nunca existiu no mundo da percepção sensorial”, defende.

Gambino mostrou sua arte. Multifacetada. This is America é um apelo amargo, autobiográfico, de uma realidade imaginada por uma mente inquieta. É corajoso pois aniquila as barreiras da simples projeção criativa de quem traz à vida uma obra. Ele se mistura nela. Ao despir a cultura americana, despe a si mesmo, sem vergonha de mostrar o poder de uma imaginação que não perdoa ninguém. Essa é uma guerra entre realidade e fantasia, e em suas fronteiras há um lugar possível em que poucos ou quase ninguém deseja morar. Parece que Glover não se importa com o barulho. This is America, mas qual é a que ele ou todos nós realmente desejamos?

Consegue imaginar?

ONDE OS FRACOS (AINDA) NÃO TÊM VEZ

O que podemos aprender com os estudantes mais inteligentes do mundo

A cada três anos, meio milhão de estudantes de quinze anos, de todo o mundo (72 países), representam outros 29 milhões de adolescentes em um teste conhecido como PISA (Programme for International Student Assessment – “Programa Internacional para Avaliação de Alunos”).

Ao contrário de outros exames, o teste não avalia o que os adolescentes memorizaram. Em vez disso, pede que resolvam problemas que nunca viram antes, identifiquem padrões que não sejam óbvios e que escrevam argumentos convincentes. Ele testa as habilidades, em outras palavras, que as máquinas ainda não dominaram.

Cingapura esmagou todos os outros países (novamente) com as melhores pontuações nos testes, tendo o Japão e a Estônia ocupando o segundo e terceiro lugares, respectivamente. O que é fascinante sobre o teste são os temas claros que ele revela sobre o motivo pelo qual alguns sistemas educacionais superam significativamente os outros.

Não é quanto dinheiro um país investe em educação. Países como os Estados Unidos, Luxemburgo e Noruega estão no topo da lista entre os maiores investidores, mas nenhum deles é considerado superpotência educacional.

Nem mesmo a pobreza ou os imigrantes são fatores determinantes. Lugares como a Estônia, com pobreza infantil significativa, e o Canadá, com mais estudantes imigrantes do que os Estados Unidos, agora estão no topo das paradas. Todos esses fatores são importantes, mas eles interagem com outras condições críticas para ajudar – ou não.

Aqui estão cinco fatores determinantes do que faz com que um sistema educacional ofusque outros, de acordo com os dados. Aqui estão algumas dicas para os líderes que se dedicam a construir organizações “mais inteligentes” e “mais inovadoras”.

  1. Melhoria contínua

A força educacional que é Cingapura define o padrão para o resto do mundo em grande parte porque está constantemente desafiando a abordagem de status quo relacionado à educação, por isso desenvolveu uma cultura robusta entre educadores de melhoraria contínua.

No local de trabalho, essa filosofia de melhoria contínua muitas vezes é negligenciada, ficando à margem, cedendo à pressão para atingir metas de curto prazo.

Como líder, você deve equilibrar os requisitos de curto prazo com o desenvolvimento de uma vantagem competitiva sustentável no longo prazo, promovendo uma cultura de constante reflexão e aprimoramento. Isso significa priorizar e reservar um tempo sagrado para fazer exatamente isso, não importa qual reunião esteja pendente.

  1. Adotar e Aplicar padrões rigorosos

Como líder, nunca esqueça a importância de definir metas altas, e manter isso no mesmo nível para todos da equipe. Nada torna uma organização “mais emburrecida” e mais desengajada do que quando seus membros observam inconsistência nos padrões ou no descompromisso da liderança.

  1. Revele e explique ideias

É muito fácil um líder dar ordens e ir embora, deixando a equipe descobrir o resto por conta própria. Este é um belo convite para investir tempo no compartilhamento inteligente de informações.

Explique o que é necessário com exemplos e reserve um tempo para responder a perguntas. O autor George Bernard Shaw disse certa vez: “O maior problema na comunicação é a ilusão de que ela aconteceu.”

  1. Invista tempo no coaching individual

Este vai deixar você sem chão.

As organizações mais inteligentes e mais qualificadas são, muitas vezes, aquelas que refletem o conhecimento que o líder disseminou hábil e sinceramente. Isso inclui reservar um tempo para investir no desenvolvimento daqueles que não são necessariamente “estrelas”.

Os países de maior pontuação na educação fazem um ótimo trabalho ao proporcionar aos alunos desfavorecidos oportunidades iguais.

  1. Abrace a mudança

O estudo cita que um dos maiores impedimentos para um sistema educacional ser poderoso são os professores que não adotam mudanças; o que impede os estudantes de acessarem ambientes mais avançados e outras metodologias disponíveis.

Como líder, você deve saber que a mudança é inevitável e que cabe a você moldar a mudança em vez de deixá-la moldar você de maneira negativa.

Saiba que abraçar a mudança é uma das maiores ferramentas de desenvolvimento pessoal que você tem à sua disposição, e que mostrar a capacidade de aprender e se adaptar é um dos principais identificadores de líderes de alto potencial.

Adaptado do original.

 

Segue…

Ao ler esse material fiquei intrigado. Com muitas coisas, claro. Mas um fato em especial me chamou a atenção:

Ao contrário do que dizia Chico Buarque, existem sim muitos pecados ao sul da linha do Equador; principalmente no que diz respeito à educação. É uma corrida maluca, uma terra sem lei para todos os alunos, ricos e pobres. Não importa se estudam numa escola pública ou particular, a grande diferença sempre estará no elemento humano.

Volume de tarefas e livros lidos não nos tornará humanos com as capacidades ampliadas, em todos os sentidos possíveis. A presença de espírito dos mestres e a abertura sincera para o universo que se descortina com as incansáveis novidades, que nos chegam ininterruptamente, são as verdadeiras joias do infinito.

Mais que isso. Dar espaço aos aparentemente desfavorecidos, mais lentos ou desafortunados tem se mostrado uma chave para a descoberta de talentos geniais em meio um público há tempos desdenhado em muitas áreas da vida, principalmente na educação. Privilegiar os “melhores” a despeito dos que não se encaixam acabou se mostrando contra produtivo e arriscado demais. Chegou o tempo para uma releitura da realidade. Assim encontramos uma nova força, vinda de lugares e mentes nunca imaginados.

Países que hoje são os queridinhos do PISA, como a Finlândia, nem sempre tiverem um sistema invejável. Não vou me alongar mais que o necessário, mas eles reestruturaram a sua educação várias vezes, sem medo de corrigir os problemas em pleno voo. Sistemas educacionais como o dos Estados Unidos, de quem copiamos o nosso, se mostrou inchado, rígido, antiquado e, mais que nunca, impraticável nos dias de hoje. Eles ainda não fazem tão feio nos exames internacionais pelo volume de dinheiro que “gastam”, literalmente, na educação. Mas, ironicamente, ainda ficam muito atrás de países como a Estônia, Polônia e Lituânia.

 

 

Screenshot
Ranking de matemática – mais dados disponíveis no site da OECD.

 

Pouco ou quase nada do que foi mostrado no texto, no que diz respeito ao que é necessário para uma educação forte, está presente em nossa realidade brasileira. O mais interessante é ver que não basta apenas dinheiro para transformar positivamente um sistema educacional, e, consequentemente, toda uma cultura. Há que se ter boa vontade e dedicação. Claro que com apenas isso não faremos verão. Precisamos de recursos financeiros. Mas o papel moeda sozinho não estimula ninguém a escrever boas histórias. Precisamos de motivos. E o Brasil possui uma quantidade impávida e colossal deles para usar como combustível de uma revolução tardia e, inegavelmente, necessária.

Nossos números são comparáveis aos de países como México, Peru e Costa Rica. Um país como o nosso, que dispensa apresentações em qualquer parte do mundo, tem muito mais do que pés e chuteiras tipo exportação. Made in Brasil são todas as iniciativas quase que autônomas que vemos todos os dias florindo em meio ao limbo de gesso burocrático que é nosso País, em quase todas as suas esferas. Tudo é muito difícil, e quem “chega lá” merece dar entrevista no Fantástico.

Já ficou cansativo assistir alunos pobres, negros ou vindos de realidades simples contando as suas histórias em horário nobre, e todos nós rompendo em lágrimas. Por que estudar e trabalhar de forma digna é tão difícil para quase todos aqui no Brasil? Por que o “lá”, o lugar mais alto e seguro pertence apenas a uma pequena minoria? Por que temos que pedir permissão e licença o tempo todo para tomarmos o lugar que é nosso por direito?

Apenas ir à escola não vai salvar ninguém da pesada mão do futuro. E olha que ela já está aí, às portas. Todos os números estão contra todos, inclusive os grande e poderosos países. Por terem falhado em seus sistemas educacionais e “formado” uma massa infinita de gente despreparada para a realidade, muitas potências mundiais estão importando talentos de todas as partes do mundo para compensar o déficit, enquanto tentam desesperadamente corrigir o erro. O problema é que estão consertando um sistema que implora por um tiro de misericórdia. Eles não têm saída. A morte da velha academia é uma questão econômica, de segurança nacional e de tempo. E isso não é relativo!

O INGREDIENTE SECRETO

“O passado é história; o futuro é mistério; mas o presente é uma dádiva.”
Mestre Oogway

 

Sonhar é o prazer mais barato do universo.

E também o mais perigoso. Quanto mais adulto, maior o risco…

Claro que isso vai depender do relacionamento íntimo que temos com a nossa imaginação.

A icônica cena inicial do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço revela, pelo menos para mim, um jeito simples, mas definitivo, de explicar a teoria geral da criatividade (Obrigado, Kubrick!).

Um humanoide, que poderíamos chamar carinhosamente de um distante avô, encara uma ossada no chão bem diante dele. De repente, a cena o incomoda. De repente não são mais ossos. De repente há uma explosão em seus olhos, em seus neurônios. Sua carne treme. Ele descobre uma extensão de seu próprio corpo. Um osso seco agora é uma arma. Um jeito de defender a  escassa água, o raro alimento e a sua família de outros adversários famintos. Ele agora não está mais de mãos vazias. O mundo nunca mais será o mesmo. No final da sequência, quando ele joga sua “arma” para o alto, criando o maior corte temporal da história do cinema, a gente percebe que aquele osso seco abriu caminho para o destino da humanidade, que nunca esteve sossegada diante de seus desafios. A evolução nunca foi uma opção para nós, mas uma sentença.

Po é gordo, desajeitado e de raciocínio lento. Ele vive em um mundo ao qual parece não pertencer. Os móveis são pequenos demais. As pareces baixas demais. Ele, definitivamente, não se encaixa naquele universo. Mas, ele tem uma imaginação sem igual. Fora do comum. Legendária. Seu pai sonha em lhe entregar o bastão dos negócios: um tradicional restaurante. Só que ele ama Kung Fu. Com todas as suas forças. Mas, parece que está tudo conspirando contra os seus sonhos. Inclusive seus maiores heróis.

O que conecta personagens como Michael Jackson, Steve Jobs, Martin Luther King, Da Vinci, George Lucas, Mikhail Baryshnikov, Anitta e Setphen Hawking?

Não sabe?

Para mim são pessoas únicas. Mas, também, pessoas comuns, como todos nós. A única diferença é que não tiveram medo de mostrar a sua arte ao mundo. E mesmo quando receberam críticas, e elas sempre vem, não retrocederam. Não preciso contar a história deles, pois já é público e notório o alcance de suas obras. Mas, se a gente olhar bem de perto o que eles trouxeram ao mundo, vamos perceber que foram coisas simples, mas potencialmente inéditas. Por que potencialmente? Porque não existe nada completamente novo, tudo é uma combinação de elementos que já existem. Mas, a forma como escolheram conectar as coisas fez deles gênios. Não gosto da palavra “gênio”, mas vou usar aqui para destacar pessoas que não tiveram medo e nem vergonha de experimentar.

Por acidente, Po chega ao Palácio de Jade. A casa do Kung Fu. Ele está próximo de realizar seus sonhos. Mas não vai ser tão fácil assim. Lembra que ele não se encaixa em seu mundo? Po está em um lugar estranho, seus novos amigos não o querem por perto, pois para eles a sua aparência e atitude desrespeitam a arte do Kung Fu. Mas, Oogway não acredita nisso. Para o velho mestre, o estranho Panda tem algo muito importante a oferecer a todos naquele lugar.

O que seria do mundo sem o discurso “Eu tenho um sonho”? E o Moonwalk… E o Macintosh… E as novas teorias sobre buracos negros… E as experimentações musicais que mesclam bossa nova, funk e estratégias de marketing… E a saga Star Wars, que tanto amamos… E o que dizer da Mona Lisa? Esses são exemplos de tentativas que pareciam estranhas num primeiro momento, mas que com o tempo ganharam o coração das pessoas. Mudaram a história de alguma forma. Marcaram o seu tempo e ainda oferecem um peso criativo muito forte, pois inspiram novas gerações a beber de suas fontes. Isso é criar um clássico. Isso é ser realmente criativo, tornando real algo que estava apenas na imaginação de gente que parecia louca no início.

Depois que o Fórum Econômico Mundial apresentou as 10 habilidades mais importantes para o mercado, em que a criatividade saltou do último lugar em 2015 para o terceiro, na expectativa de 2020, ficou clara a importância da imaginação, da curiosidade e da experimentação. Isso também me fez pensar nos números do ENEM. Em 2017, por exemplo, foram mais de 300 mil participantes com nota zero na redação, e outros 53 com nota mil, em um universo de 4,7 milhões de inscritos. Isso é terrivelmente trágico. Isso também mostra a decadência do processo criativo em nosso país. Um dos principais motivos das notas ruins é a “fuga ao tema”, ou seja, a turma não consegue entender o que é pedido na redação e, muito mais que isso, não é capaz de criar um texto simples, oferecendo a sua opinião como um olhar da realidade.

 

Qual é o problema?

Um relatório da NASA provou que o potencial criativo de crianças próximo aos 5 anos, beira os 98%. Leia-se potencial criativo como a capacidade inventiva e imaginativa. A mesma pesquisa acompanhou os pequenos até os 15 anos e, para espanto geral, foi percebido que o incrível potencial diminuía com o passar do tempo: 30% aos 10 anos e, aos 15, apenas 12%. Estarrecedor. Se o mundo está implorando por pessoas criativas, e as escolas estão embaçando o potencial das crianças, como poderemos reverter esse quadro? Dá para imaginar?

Ah, sim, e nos adultos, o potencial cai ainda mais, chegando aos 2%.

Po achava que seria divertido aprender Kung Fu. E, de certa forma, era. Mas, o que não estava claro é que havia um alto preço a ser pago para ser um grande guerreiro. Para ser único. Havia muito medo dentro dele. Um medo que foi crescendo com os anos, pois ele sempre se sentiu diferente e rejeitado naquele mundo. E esse mesmo lugar ia precisar de seu maior talento. E nem ele poderia imaginar o que era. Tai Lung estava livre da prisão, vindo para o Palácio de Jade. A notícia estarreceu a todos, principalmente Po que, desesperado tenta abandonar seu sonho e fugir. Mas, essa luta era dele, e não havia como escapar.

A lição que ficou para mim é que não há como fugir de nossos sonhos. Mas, quanto mais tentamos, mais triste e sem graça fica a nossa vida. Enfrentar o desafio de encontrar a nossa arte e mostrá-la ao mundo é a guerra mais poderosa da existência humana. Há barreiras, limites, regras e uma infinidade de desafios para quem deseja ter uma voz, seguir seus propósitos e trilhar o seu caminho. A história de todo empreendedor de sucesso é recheada desses fatos. Quando Po usa a sua imaginação, ele consegue ver possibilidades que aparentemente não faziam sentido. Mas, esse seu talento mudou tanto a vida dele como a de todos ao seu redor. Imaginar possibilidades nos permitiu fazer de ossos secos um atalho para a genialidade.

Quando Po percebe que o poder não estava no Pergaminho mas em si mesmo, ele consegue encontrar as respostas certas para as situações que o afligiam. Aceita suas “imperfeições” como talentos especiais e, por isso, a sua arte começa a trabalhar por ele. O Pergaminho era apenas um reflexo dele mesmo. Como um diploma ou um certificado que tem o nosso nome escrito. Eles apenas refletem uma história, mas não são a nossa história. Precisamos usar nossas experiências do passado para mudar o presente, confiando no poder de nossa imaginação. Afinal, o futuro é um mistério, e isso nos dá uma oportunidade única para fazer dele o que quisermos. Basta imaginar, sem medo!

O GÊNIO É UM MITO

“Great minds have always encontered violent opposition from mediocre minds”  Albert Einstein

O mito do gênio ainda é um clichê. Velho conhecido, presente em infinitos roteiros de cinema e obras literárias. Inclusive no imaginário popular, a figura do ser criativo ainda vive de forma estranha, em lugares escuros, com vida e hábitos questionáveis; um lobo solitário. Inatingível.

Como desejar ser um gênio, um ser criativo, se quase todos os símbolos a seu respeito são obscuros, com status que beira a uma divindade de caráter duvidoso?

Semana passada, escrevi sobre os efeitos da educação e o comprometimento do potencial criativo de muitas gerações. A pesquisa mostrou que crianças possuem 98% de potencial criativo inato a ser desenvolvido, contra apenas 2% em adultos. O índice vai diminuindo no decorrer da vida, desde a infância até a fase adulta, e o principal culpado é o sistema educacional. Será que o mito do gênio tem seu precedente aqui? Talvez.

Houve um tempo em que não haviam escolas e nem sistemas de educação convencionais. Antes de existirem, historicamente, havia uma força muito grande da religião sobre o que se pensar sobre a vida, o homem e as suas criações. O conhecimento já foi trancafiado atrás de imensos muros de pedra, e quando aparecia um louco tendo ideias estranhas, rapidinho era interrogado, torturado, oprimido e, se não renegasse suas “ideias absurdas”, recebia a sentença capital. Outros pegaram o caminho do meio. Uns tornaram-se funcionários do sistema, esculpindo, pintando e escrevendo para os papas e a nobreza, vendendo a sua arte para fortalecer a ideologia dos poderosos da época. Fazer o quê? Criativos também sentem fome.

E hoje não é diferente. Ainda sentimos fome. A barriga dói. E não temos incentivos para recriar nosso próprio caminho. A criança de 5 anos que exala criatividade ainda é muito jovem para lutar contra um sistema que nem mesmo conhece. E, quando temos idade suficiente, já é tarde demais. Já nos fizeram acreditar que gênios são pessoas estranhas, intratáveis e solitárias, que não postam fotos no Instagram, sem vida social, mergulhados em livros, observando o mundo pelas gretas de suas cabanas, perdidas no meio da floresta, perto do lago Walden. O mito machuca mais que fatos reais. Há metas a serem batidas, trilhas predeterminadas e nunca há tempo suficiente para nada disso. Haja depressão!

Sei que pode parecer piegas, mas não vou perder essa oportunidade. Ao assistir ao vídeo da TeamFearless, me veio um sentimento forte sobre o que está dentro de todas as pessoas. Não apenas nos gênios (afinal, eles são apenas mitos): A perseverança, a garra, a dedicação. Nem todos seguem seus sonhos, claro. Mas, acredito que os que escolhem o banco do carona nem sempre são desiludidos ou preguiçosos. Muitos tiveram oportunidades. Estudaram. Viajaram. Tiveram muitas experiências, mas estavam todas plastificadas, imunes ao efeito do mundo. Haviam regras demais e o medo os deixou paralisados, mesmo que, ironicamente, em movimento. Todos conhecemos gênios que estiveram presos, exilados, excluídos, desprovidos de suas posses e, mesmo assim, visitaram lugares dentro de suas próprias mentes, o que lhes rendeu o rótulo de estranhos, loucos e esquisitos. O que nos diferencia não é por onde o corpo passou, mas por onde a mente foi capaz de inventar a sua própria versão da vida. Com ousada liberdade.

Os mitos criados para nos afastar de nosso potencial criativo, somado à incapacidade das escolas de lidar com seres humanos recheados de criatividade em seus primeiros anos de vida, nos legou uma sociedade ricamente empobrecida. Usamos muita droga (de todos os tipos). Estamos deprimidos, cada vez mais. Perdidos, sem saber para onde ir. A crise da felicidade a todo custo, nos consome todos os recursos disponíveis, mesmo o que não temos. Os gráficos da violência não mentem. Pedir para alguém que têm apenas 2% de potencial criativo restante em sua bateria existencial que siga seus sonhos seria covardia. Mas, seria covardia ainda maior ficar em silêncio, por não acreditar nesses 2%. Eles podem fazer a diferença. As crianças precisam de alguém que as salve de perder o tesouro que nasce com elas. O mundo seria bem melhor sem mitos, e com mais seres infantis ditando as regras.

 

Assista ao vídeo completo aqui.

Transcrição

Eles podem dizer que você é estranho. Esquisito. Anormal. Um marginal. Eles podem dizer que você não se encaixa. Você pode até se sentir como uma ou todas essas coisas… E se for verdade… Tudo bem!

Você realmente quer ser como o resto? Como a maioria dos seres humanos que agem como ovelhas, que vivem em rebanho. Ovelhas que se conformam às expectativas da sociedade e, portanto, sempre serão limitadas em seu pensamento e resultados, como todos aqueles que as cercam.

Você realmente quer ser como ovelhas, que acreditam em limitações? Como ovelhas que seguem o caminho dos outros, ao invés de seguir suas escolhas, mesmo que difíceis, as quais levariam ao seu verdadeiro propósito de vida. Você quer ser como as ovelhas que desempenham um papel para satisfazer as expectativas de outras pessoas, enquanto seus próprios sonhos morrem lentamente com elas?

Eu não sei sobre você, mas se o preço que eu tenho que pagar por seguir meu próprio propósito é ser rotulado como estranho… eu serei estranho. Um estranho acima da média. Um estranho incomum. Aceito ser estranho a me conformar com uma vida menor do que o meu potencial pode me dar.

Eles vão te chamar de estranho agora, mas depois eles vão te perguntar como você conseguiu se realizar. Eles vão dizer que você não se encaixa agora, mas depois vão querer se parecer com você.

Eles podem desprezar você agora, mas um dia terão orgulho… Pois você teve a coragem que eles não tinham, a coragem de falar a sua verdade. A coragem de seguir o seu caminho … mesmo quando era impopular.

O que é raro nesta terra é um grande ser humano que foi considerado normal no começo. Todas as maiores mentes foram chamadas de loucas, estranhas, impopulares em algum momento … mas, quer saber? … Eles continuaram seguindo seu caminho. Mesmo na escuridão. Mesmo quando não havia ninguém por perto. Mesmo quando não conseguiam ver a luz no fim do túnel. Eles continuaram andando … continuaram seguindo a sua verdade … E é por isso que agora são admirados pelo mundo.

O mundo que uma vez não conseguia entendê-los, lhes deu um rótulo: loucos, estranhos.

Você, estranho… Você, louco… Você que não se encaixa… Continue seguindo seu caminho.

Um dia tudo fará sentido… um dia valerá a pena. Apenas continue…

 

Conheça a página ARTE DE PENSAR

 

ESCOLAS MATAM GÊNIOS CRIATIVOS

Nosso gênio criativo natural é sufocado desde o momento em que nascemos.

“Uns viram o que é e perguntaram por quê.
Eu vi o que poderia ser e perguntei: por que não?” – Pablo Picasso

 

Você fala sobre todos os sonhos que tem à noite para os amigos? Teria coragem de usar a vozinha que faz quando está na sua intimidade perto de pessoas estranhas? Acredito que talvez não. A estranha natureza de nossos sonhos e o tom “ridículo” da nossa voz quando conversamos com nossos parceiros íntimos soariam constrangedores para as outras pessoas. Pelo menos é o que 98% dos adultos acreditam.

Lembro de quando era criança, e “roubava” a louça da minha mãe, depois de lavada, e colocava tudo dentro de uma bacia de alumínio grande, cheia de água. A ideia era montar uma cidade, usando panelas como prédios, e os garfos, facas e colheres como pontes e passarelas. Os habitantes? Sim, para ser uma cidade precisaria de vida naquele lugar. As formigas do quintal eram as protagonistas de minhas histórias. Como não tinham para onde ir, por causa da água que as rodeava, tinham que andar por toda a estrutura. Para uma criança de 5 anos era uma experiência super divertida. Não faltava alimento para meus súditos, mesmo tendo que comprar briga com a minha mãe, por tirar açúcar do seu pote. A intenção era boa. Pelo menos para mim, à época, fazia muito sentido.

Recentemente, assisti ao TEDxTucson com o Dr. George Land, que soltou uma bomba quando contou à plateia sobre o resultado chocante de um teste de criatividade desenvolvido para a NASA, e que depois foi usado para testar crianças em idade escolar.

A NASA havia contatado o Dr. George Land e Beth Jarman para desenvolverem um teste altamente especializado que lhes daria os meios para medir efetivamente o potencial criativo de seus cientistas e engenheiros. O teste acabou sendo muito bem-sucedido, mas os cientistas ficaram com algumas perguntas: de onde vem a criatividade? Algumas pessoas nascem com isso ou a desenvolvem? Ou ela é produto da nossa experiência?

Os cientistas então aplicaram o teste para 1.600 crianças, com idades entre de 4 e 5 anos. O que eles encontraram foi chocante. O teste que analisava a capacidade de avançar com ideias novas, diferentes e inovadoras para os problemas. Qual porcentagem dessas crianças você acha que caiu na categoria “gênios da imaginação”?

Um total de 98%! E ainda fica mais interessante.

Mas esta não é a história toda. Os cientistas ficaram tão surpresos que decidiram fazer um estudo longitudinal e testaram as crianças novamente, cinco anos depois, quando tinham dez anos de idade. O resultado? Apenas 30% das crianças se enquadraram na mesma categoria. Quando as crianças foram testadas aos 15 anos, o número caiu para 12%!

E quanto aos adultos? Quantos de nós ainda estão em contato com o nosso gênio criativo depois de anos de escolaridade? Infelizmente, apenas 2 por cento.

 

E agora? Podemos recuperar nossa criatividade?

Dr. George Land diz que temos a capacidade de estar entre os 98%, se quisermos. Pelo que descobriram nos estudos com crianças e em como o cérebro funciona, existem dois tipos de pensamento. Ambos usam diferentes partes do cérebro e é um tipo de paradigma totalmente diferente no sentido de como isso forma algo em nossas mentes. Um é chamado de divergente – que é a imaginação, usada para gerar novas possibilidades. O outro é chamado de convergente – é quando você está fazendo um julgamento, tomando uma decisão, testando algo, criticando e avaliando.

Assim, o pensamento divergente funciona como um acelerador e o pensamento convergente como uma espécie de freio. “Descobrimos o que acontece com essas crianças, ao educá-las, ensinamos a fazer os dois tipos de pensamento ao mesmo tempo”, diz Land. Quando alguém pede a você para ter ideias novas, assim que você as coloca para fora, o que mais ouve na escola é o seguinte: “já tentamos isso antes”, “essa é uma ideia idiota”, “isso não vai funcionar”, daí por diante.

Quando realmente olhamos para dentro do cérebro, descobrimos que os neurônios estão lutando entre si e diminuindo o poder do cérebro, porque estamos constantemente julgando, criticando e censurando, diz Land. “Se operamos com medo, usamos uma parte menor do cérebro, mas quando usamos o pensamento criativo, o cérebro se ilumina”, diz.

E qual é a solução?

Precisamos encontrar essa criança de cinco anos de novo. Essa capacidade que nós, como um ser infantil, possuímos, nunca desaparece. “Isso é algo que você exercita todos os dias quando está sonhando”, Land nos lembra. E nos desafia: ligue a sua “criança de cinco anos” e invente 25 ou 30 novas ideias sobre como usar um garfo de mesa.

Crianças são criativas por que não têm compromisso. Não precisam se preocupar com julgamentos alheios. Claro que são julgadas no decorrer de suas miseráveis vidas, e isso as tira seu potencial criativo, dia após dia. Digo miseráveis sem medo de ser duro ou ofensivo, porque 98 contra 2 é sacanagem. Um crime. Crianças de 5 anos tem 98% de potencial criativo inato, puro e pronto para ser desenvolvido, e ainda não somos capazes de lidar com isso. Apenas sufoca-las com imensas quantidades de tarefas, a fim de torna-las adultos exemplares, não se provou efetivo. Isso não é suficiente. E os consultórios psiquiátricos têm estatísticas para provar.

Em um mundo tenso, estressado, violento, dopado e anestesiado, sufocado e deprimido, há espaço para avaliações. Será que todos os excessos que assolam a sociedade não estariam ligados à essa falta de “infantilidade”? Será que não estamos sendo adultos demais. Escolas se parecem com fábricas: com uniformes, sirenes, horários e metas a serem cumpridas. Estamos produzindo alunos ao invés de dar à luz seres pensantes, intensos, cheios de sonhos estranhos, que poderiam aliviar o peso de um mundo tão maltratado, com tantas promessas vazias de conquistas que nunca chegam.

Escolas revolucionárias, em muitas partes do mundo, estão testando novos métodos, com menor carga horária, sem dever de casa, focada em atividades coletivas, afim de produzir ideias e pensamentos livres. E parece que está funcionando: taxas insignificantes de evasão e a constante visita ao topo dos melhores sistemas de educação do mundo. Isso já seria suficiente para provar que precisamos de mudanças. A ausência de criatividade em nosso dia a dia, a ideia de que processos criativos são perda de tempo, desnecessários ou que são privilégio de um pequeno grupo (claro que sim, já que o próprio sistema se deu ao trabalho de nos roubar essa dádiva) está tornando as coisas mais difíceis, com quantidades absurdas de pessoas incapazes de administrar as próprias vidas, tomar decisões saudáveis, votar de forma consciente e sentir níveis razoáveis de uma felicidade pura e genuína. Pode parecer loucura, mas, afinal, loucura mesmo seria ver “o que poderia ser” e não ter a coragem de perguntar: por que não?

 

CONHEÇA A PÁGINA OFICIAL ARTE DE PENSAR

O APOCALIPSE É UMA INVENÇÃO HUMANA

“Tenho a carne da sua mãe presa entre meus dentes.”
O maior insulto que se poderia proferir a um inimigo entre o povo Rapanui

Quando Jacob Roggeveen avistou de seu galeão uma porção de terra perdida na imensidão sul do oceano Pacífico, era o ano de 1722, um domingo de Páscoa. Logo, o explorador holandês percebeu que o lugar não era muito atrativo. Um terreno sem grandes árvores, e a grama era tão seca que, a distância, parecia areia, bem diferente da maioria das outras ilhas daquela região. Ele foi recebido por uma comitiva de nativos em canoas frágeis e cheias de remendos; desembarcou e surpreendeu-se com as gigantescas figuras de pedra, esculpidas na forma de rostos humanos, espalhadas ao longo do litoral. Em seu diário de bordo escreveu: “ficamos muito espantados, pois não compreendíamos como essas pessoas, que não dispunham de cordas fortes ou madeira adequada para construir máquinas, conseguiram erguer aquelas imagens com mais de 10 metros de altura”.

A ilha dos Rapanui nem sempre foi um desolado espaço seco, repleto de cabeças gigantes feitas de rocha vulcânica. Já houve uma densa floresta e uma rica fauna de dar inveja. Mas, quando Roggeveen chegou, no interior da ilha, dentro da cratera de um vulcão extinto onde moais (estátuas de pedra) costumavam ser esculpidos, o ambiente era fantasmagórico: ferramentas espalhadas pelo chão, obras inacabadas e outras deixadas para trás. Nas estradas que levavam ao litoral a impressão era a de que o lugar havia sido abandonado.

Na ilha eram 166 quilômetros quadrados cobertos por uma densa floresta subtropical, que crescia sobre um solo fértil de origem vulcânica. Os nativos consumiam carne de golfinho, de focas e de outros 25 tipos de pássaros selvagens. Por volta do ano 1200, disputas entre clãs aceleraram a produção de estátuas. Estima-se que eram necessárias até 500 pessoas, utilizando cordas e uma espécie de trenó feito de grandes toras de palmeiras, para arrastar os moais por 14 quilômetros até o litoral. Essa nova demanda fez com que em menos de 300 anos toda a floresta fosse dizimada. Nada de fibras para cordas, nem madeira para embarcações, e com isso o fim da pesca. Restaram apenas 10% dos 20 mil habitantes, que foram obrigados a rever seu cardápio. Sem chuvas, pássaros, golfinhos ou focas, sobrou-lhes apenas a grama do vizinho, ou melhor, a carne, literalmente, do vizinho. Os moradores, famintos, finalmente cederam ao canibalismo. A fome era tanta que os ossos das vítimas eram quebrados para se extrair o tutano.

Jared Diamond fala desse fato em seu livro Collapse, e a revista Super Interessante comenta também no artigo Por que morrem as civilizações?, de onde tirei inspiração para remixar o tema aqui. Os Rapanui, em nome de uma ideia, esculpiram o seu próprio apocalipse. O seu fim foi motivado pelo desejo de se tornarem únicos ou eternos, em cada uma de suas criações. Imagino. O que faria um povo colocar a sua própria sobrevivência em risco? Que motivação seria essa, capaz de nos cegar, de alguma forma, e nos tirar a oportunidade de seguir em frente, com a nossa história? Na tentativa de responder a essas perguntas, me lembrei de Einstein, quando disse que qualquer tolo inteligente pode fazer com que as coisas fiquem maiores e mais complexas, “[…] mas é preciso […] muita coragem para seguir na direção contrária”. O que estava pensando a pessoa que cortou a última palmeira da ilha?

Os habitantes da ilha de Páscoa tinham bons motivos para construírem seus moais. Acreditavam no poder que havia neles. De alguma forma, transferiam ou absorviam o que havia de transcendental naquelas estátuas. Pagaram um preço muito alto. Viram o seu próprio fim, de maneira trágica. Hoje, o dinheiro é o nosso moai. Por ele trabalhamos arduamente, doamos nosso tempo e suor, além de confiarmos que todos os problemas sucumbem diante dele. Séculos depois da hecatombe dos Rapanui, estamos nós aqui, ocupando ilhas continentais, cortando a madeira nossa de cada, cavando crateras onde houver minério precioso, jogando lixo e resíduos em rios e oceanos, e plastificando tudo o que estiver pelo caminho, inclusive nossas melhores desculpas. Quase nunca descartáveis.

O dinheiro é o maior conquistador de todos os tempos. Yuval Noah Harari diz que pessoas que não acreditam no mesmo deus nem obedecem ao mesmo rei estão mais do que dispostas a utilizar o mesmo dinheiro. Como o dinheiro teve êxito onde deuses e reis fracassaram? O dinheiro é o único sistema de crenças criado pelos humanos que pode transpor praticamente qualquer abismo cultural e que não discrimina com base em religião, gênero, raça, idade ou orientação sexual, diz Harari. “Graças ao dinheiro, até mesmo pessoas que não se conhecem e não confiam umas nas outras, são capazes de cooperar de maneira efetiva”, afirma. O conceito de dinheiro nos aprisionou numa ideia de liberdade, difícil de ser contestada. Ele nos conecta a todos e, com isso, nos mantém reféns de sua própria lógica. Por mais frugal e simplista que seja a nossa vida, ainda assim seremos obrigados a pagar a energia elétrica, a conta d’água ou a internet que nos chega, trazendo o seu valor agregado. Para Harari, não há como escapar à ordem imaginada. Quando derrubamos os muros da nossa prisão e corremos para a liberdade, “estamos, na verdade, correndo para o pátio mais espaçoso de uma prisão maior”.

Não sou contra o dinheiro. Que fique claro. Na verdade não sou do contra, deliberadamente. Mas, acredito que precisamos rever, rever e rever muitas coisas, se quisermos seguir em frente, antes de começarmos a lançar um olhar torto para as coxas do vizinho. Estamos digitalizando tudo ao nosso redor. Todos os dias saem notícias sobre novas tecnologias que estão tomando o espaço que antes pertenciam a seres humanos. Claro que é um processo natural. A criatividade humana está sempre a serviço da humanidade, economizando energia, legando o esforço para a máquina, enquanto nos dedicamos à ciência e suas virtudes. Basta olhar para a história. Preços são pagos, pessoas perdem empregos, são excluídas ou morrem. Mas, é difícil equalizar a evolução humana. Novas realidades trazem novos empregos, absorvem pessoas e salvam vidas. Mas, a questão é: vamos nos adaptar às mudanças que ocorrem agora, de maneira tão rápida?

Inteligências artificiais estão tomando conta de todas as áreas. As atividades repetitivas já não são mais as suas especialidades. As máquinas estão cada vez mais naturalmente inteligentes. Temo que a inteligência humana comece a ser chamada de artificial, quando as máquinas nos superarem. Receio que as máquinas, claro que controladas ainda por pessoas, nos substituam em todas as áreas, mesmo as criativas. Nesse momento, acredito que seria bem complicado manter tanta gente no mundo, que já se encontra lotado. Imagine um mundo em que governos tenham que alimentar, educar e dar emprego para bilhões de pessoas. Agora, imagine um mundo com bem menos gente, onde todas as atividades sejam controladas por máquinas que não precisam beber água, nem exigem benefícios sociais e nem aspiram ter famílias e um gramado na frente de suas casas, além de não se interessarem por nenhum tipo de religião, e nem dinheiro. Teoricamente, seria um mundo perfeito. Um governo totalitário, com escravos digitais, programáveis e adaptáveis à qualquer realidade. Um novo mundo admirável?

O custo de governar pessoas orgânicas é muito alto. E essas mesmas pessoas são instáveis. A ideia de se criar um mundo total ou parcialmente digital é uma distópica utopia, sim, mas totalmente plausível. A educação moderna nos atrasou demais, permitindo a poucos terem acesso a espaços privilegiados. Mesmo aqueles que frequentaram boas escolas, acabaram sendo moldados a formatos questionáveis de conhecimento, pesquisa e desenvolvimento. Se olharmos ao redor, vamos ver que a educação foi democratizada, sendo acessível a um número cada vez maior de pessoas, mas isso não tem redundado em resultados realmente positivos. Haja poluição, desigualdade, violência e processos de criação e inovação rasos e sem credibilidade.

Estamos de frente a uma iminente catástrofe natural de proporções apocalípticas, e nem mesmo nos damos ao trabalho de nos preocupar. Em um mundo desses, se uma IA for criada plenamente poderosa, consciente e sabedora da importância do planeta para todos, inclusive para si mesma, talvez pense, de verdade, na hipótese de nos exterminar; já que a nossa própria história, até aqui, testemunha contra nós. O fim de todos os projetos humanos tem gosto de ganância. A mesma que cria e desafio os nossos limites. A mesma que constrói castelos de cartas, apostando em hipóteses megalomaníacas, acreditando no invisível, cheia de si, arrogante, fiel àquilo que nem conhece direito, pinta o cenário perfeito para a fatídica cena final de uma história que não sabemos se terá uma nova chance de recomeçar. O fim está próximo? Não sei. Talvez sim, talvez não. Mas, o que já é verdade são os sons digitais de mentes que, inevitavelmente, estarão tomando conta de nosso mundo, muito em breve. Elas já estão em nossos celulares, TV’, carros, geladeiras, relógios, etc., e, em breve, em nossos sonhos, literalmente. Espero que façamos as pazes com a tecnologia, antes que ela seja obrigada a se proteger de nós, usando nossa ignorância e teimosia como desculpas para nos comer a carne, a fim de salvar um planeta que um dia já foi nosso. Completamente nosso!