Filosofia

O NOME DA ROSA AZUL

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“Quem não sabe é um ignorante, mas quem sabe e não diz nada é um criminoso.” Bertolt Brecht

 

Sim, não existem rosas azuis. As raras que podem ser encontras pelo mundo são o resultado de manipulação genética. Essas exóticas flores só vêm à existência dessa forma; foram inventadas. O motivo eu não sei; talvez seja o fascínio pela cor azul, ou talvez por estarem de saco cheio das rosas tradicionais ou por mórbida curiosidade.

Em 1986, o diretor Jean-Jacques Annaud levou para as telas dos cinemas a adaptação do best-seller “O Nome da Rosa”, do escritor e filósofo Umberto Eco. O longa conta a história de Guilherme de Baskerville, um monge franciscano interpretado por Sean Connery. Ele e seu fiel aprendiz Adso de Melk (Christian Slater, na época com apenas 15 anos) precisam desvendar uma série de assassinatos, em um remoto mosteiro italiano. O que provoca uma colossal batalha ideológica entre franciscanos e dominicanos, o que não impede o monge de solucionar o mistério por trás das mortes.

A história se passa em 1327, em plena idade média, quando o poder eclesiástico vivia seu auge. O mosteiro possui uma imensa coleção de livros, com raros exemplares, os mais cobiçados do mundo daquela época. Guilherme, amante inveterado das ciências e do conhecimento, sem permissão para entrar na biblioteca e nem mesmo para rir disso (o abade foi enfático sobre esse último detalhe), percebe que há uma possível ligação entre as mortes e aquele lugar. Muita gente conhece o filme e o livro, então não vou gastar muitas linhas dando spoilers aqui. Preciso apenas dessas imagens para iluminar o argumento do texto.

Hoje, temos poderes impossíveis de se imaginar. Muita gente não percebe, mas a Internet chegou a cinco minutos. Há bem pouco tempo, não tínhamos absolutamente nada do que é natural em nosso dia a dia. Tente imaginar a sua vida sem acesso à rede mundial. Difícil, certo? Quando o sinal cai, dá um desespero. Ficamos sem rumo, sem saber o que fazer. Parece que a Web é tão ou mais importante que o próprio oxigênio.

Temos uma irresistível necessidade de estar conectados. Isso nos fez sair de nossas terras de origem e conhecer o mundo todo. E, como se não bastasse, precisamos compartilhar cada detalhe, mesmo que não sejam verdadeiros. Temos essa sanha de contar e mostrar para os outros a nossa versão da realidade. Aquela em que estamos sempre de bem com a vida, e na qual somos dignos de todos os privilégios possíveis. Como seres humanos mortais não resistimos às seduções do mundo virtual. Tudo é publicável.

Ideologias conectam pessoas.

Mudam-se os personagens, as datas e os lugares, mas a necessidade de uma ideologia para manter as pessoas obedientes, e com um claro mapa para guiar seus passos nunca caiu em desuso. Mesmo agora, em pleno século XXI, quando temos todas as fontes de informação à nossa disposição, bem na ponta dos dedos, preferimos clamar aos quatro ventos o que devemos fazer. E não faltam pessoas dispostas a vender as suas versões atualizadas de ideologia, capazes de mudar o mundo.

Por que a educação de um país é o seu calcanhar de Aquiles?

Fala-se de economia como o maior problema de uma nação, mas todos os olhares estão sobre o conteúdo dos livros didáticos produzidos pelo governo. Quem controla o que é ensinado às crianças e aos adolescentes controla todo o sistema. Essa imensa massa de jovens, famintos por conhecimento e por uma oportunidade no mercado de trabalho, ávidos por mudar a sua pobre realidade, tende a engolir quase tudo o que é servido nas escolas que frequentam. Uma vez “formados”, aplicados ás regras de um sistema que manipula suas opiniões, dificilmente serão capazes de usar uma crítica saudável para desfazer as amarras que os impedem de prosperar como seres autônomos.

Nossas escolas, em geral, não se dedicam a preparar seus alunos a serem empreendedores. Seres pensantes e independentes, com ideias próprias e liberdade para colocá-las em prática, com apoio cuidadoso e monitoramento despretensioso de seus professores. O normal é seguir as regras, fazer as provas, respeitar a cartilha, cumprir metas pré-definidas e não se desviar do programa. Mas, quem pode garantir que isso vai ajudar os futuros cidadãos a terem algum sucesso na vida?

Carl Sagan costumava dizer que a História está repleta de pessoas que, como resultado do medo, ou por ignorância, ou por cobiça de poder, “destruíram conhecimentos de imensurável valor que em verdade pertenciam a todos nós”. Todo aquele conhecimento guardado numa alta torre, bem no meio do mosteiro, instigava Guilherme ao imaginar as muitas maravilhas ocultas naquele lugar. Impedido pelas autoridades de entrar na biblioteca, ele precisou dar um jeito de chegar até lá, quebrando as regras para burlar a segurança. Quando o assassino percebeu que seria pego, preferiu queimar todos os livros, para apagar os vestígios de seus crimes, mesmo a um preço tão alto.

A ignorância gera mais frequentemente confiança do que o conhecimento, dizia Charles Darwin. Para ele, são os que sabem pouco, e não aqueles que sabem muito, que afirmam de uma forma tão categórica que este ou aquele problema nunca será resolvido pela ciência. Manter as pessoas ignorantes, criando mitos e maneiras tortas de explicar a realidade do mundo, é a forma mais eficiente de doutrinação já inventada. A rosa azul é uma invenção humana, assim como as ideologias que pululam de quatro em quatro anos.

Inventamos qualquer artifício para nos manter no controle da situação.

O Nome da Rosa é apenas uma ficção. Mas, também um reflexo de uma realidade que se repete, século após século, governo após governo. Até nas situações mais simples da vida a gente quer impor nossa ideologia pessoal, nossos valores e regras morais, a versão atualizada de nossa ética de bolso. Quando um casal se separa, cada um tem a sua própria versão da história, e, com certeza, nenhum deles assume o papel de vilão. O “ex” é sempre ruim. A gestão anterior sempre deixa heranças malditas para o atual governo. Temos imensa dificuldade em vestir a carapuça. Queremos impor, e usamos a força que estiver à nossa disposição. Se for apenas um comentário em redes sociais, que seja. Mas, se for a caneta presidencial, melhor ainda. O poder só não pode sair do lugar onde nós queremos que ele esteja.

Meus inimigos não estão no poder. Afinal, vivemos em uma democracia. Ganhou? Então, vamos governar juntos. Acertou? Então, parabéns! Errou? Então, vamos corrigir isso aí. Meus heróis também não morreram de overdose, pelo simples fato de que não existem heróis. Essa é outra falácia com a qual tentam encher nossas mentes. Tem muita gente morrendo, sim, de overdose, mas talvez seja pelo excesso de perguntas sem respostas que inundam a realidade de todos nós. Mas, como dizia Cazuza, tem uma galera que prefere “pagar a conta do analista / pra nunca mais / ter que saber / quem eu sou”. A falta de certezas está nos sufocando, movendo o rebanho para lá e para cá, como um enxame de insetos sem rainha.

Por que rimos tanto de vídeo “cassetadas”, principalmente se for no domingo, à noite? Talvez, porque estejamos com ódio da ideia de voltar à dura realidade que nos espera na segunda, de manhã. É mais fácil assistir gente se dando mal em vídeos de gosto duvidoso, digerindo o fim de semana murcho, imaginando que talvez a desgraça daquela pessoa que caiu e se quebrou toda seja maior que a minha. Isso parece aliviar dores emocionais, mesmo que seja, na verdade, um belo placebo.

A cor da ignorância não é rosa e nem mesmo azul. A ignorância é uma invenção humana, assim como a rosa azul. Diferente da flor, ela não tem uma cor. A sua transparência é o seu melhor disfarce. Quanto mais translúcida melhor. Assim, podemos acreditar que ela não exista. Isso oferece poder ilimitado àqueles que aprendem a criar e impor ideologias. Dizem apenas o necessário, o suficiente para manter calmos os ânimos da massa.

No filme, a pobre moça que era abusada por um monge em troca de comida, mal fala, mal se veste e nem mesmo tem um nome, uma identidade. Perfeita alegoria para o povo de qualquer país de terceiro mundo. A ingenuidade da garota esfarrapada, fruto de sua ignorância, era usada para justificar toda a violência que precisava viver para não morrer de fome, sem direito algum e nenhuma dignidade. O filme termina sem que seu nome seja revelado. Uma oportunidade de reflexão para quem assiste ao filme ou a triste realidade de quem vive no meio de uma guerra que parece nunca acabar.

No final, Guilherme consegue revelar a podridão oculta por trás de hábitos e largas paredes de pedra, provando que a insistência de um homem que amava a ciência e o bom uso do conhecimento valeram todos os seus sacrifícios. Um conhecimento livre, sem obstáculos. Algo que inspire a beleza da criação, do questionamento e que gere mudanças reais na sociedade. Um conhecimento saudável, com poder para despertar a criatividade em todos, independentemente de suas preferências. Um conhecimento que nos dê identidade, um nome que nos torne verdadeiramente humanos; livres para fazer nossas próprias escolhas.

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criatividade, tecnologia

O LADO SOMBRIO DA MENTE

“Uma pessoa comum maravilha-se com coisas incomuns;
um sábio maravilha-se com o corriqueiro.”
— CONFÚCIO

 

Qual foi a última vez que você enviou uma carta manuscrita para alguém? Nunca, eu acho. Essa é uma prática que está em completo desuso. Pessoas acima dos 30 anos talvez tenham tido a chance de passar por isso. Sentar e escrever com as próprias mãos um texto no qual expressamos nossos sentimentos. E não se engane, há emoção, e muita, no tipo de caligrafia e em como o texto é construído. Os detalhes contam muito sobre o autor de uma carta tradicional, registrada em tinta e papel.

Muito do que sabemos hoje, é possível por causa de cartas trocadas entre personagens importantes da nossa história. No futuro, quando historiadores pesquisarem esse nosso tempo, ou seja, o berço da tecnologia conectada, será possível fazer uma leitura clara e real do que estamos fazendo?

E-mails são enviados instantaneamente. Usam tipologia (fontes de letras) padrão. E, devido ao volume e ao estresse da pressa, quase sempre são resumidamente superficiais, e, em muitos casos, beiram à impessoalidade. No passado, era longo o tempo necessário para uma carta chegar ao seu destino. Algumas vezes, o cenário descrito tinha mudado e a mensagem havia perdido parte de seu propósito. Por esse motivo, imagino eu, havia todo um cuidado com o que seria dito; afinal, as emoções do destinatário, e a sua resposta, é claro, estavam em jogo.

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Com o passar do tempo, a tecnologia facilitou o processo de envio de mensagens, tornando-o cada vez mais rápido, e, com isso, eliminando a necessidade de formalidades, tornadas desnecessárias. O telégrafo, por exemplo, era um meio sofisticado para a sua época, mas limitado no volume de informações a serem enviadas. Por isso, custava caro o envio de um telegrama, que cobrava pela quantidade de letras. Começava aí a era do “estritamente necessário”.

Mesmo depois do Fax, e da Internet, que facilitaram o processo, democratizando cada vez mais o envio de mensagens, nos acostumamos com a ideia de ficar ali na superfície, onde tudo parece mais fácil. Podemos escrever o quanto quisermos, mas preferimos os grunhidos comuns do dia a dia, só para facilitar; afinal, tempo é dinheiro. E o pacote de dados expira mais rápido que a leitura desse texto.

Recentemente, tropecei por acaso em um documentário sobre o famoso desconhecido Stanislaw Szukalski (xúcausqui, em bom “polonês”); um escultor que se atreveu a zoar o poderoso fuhrer alemão, pouco antes de deflagrada a segunda guerra mundial. No filme, que é uma bela produção da Netflix, um sorridente velhinho de quase noventa anos é gravado falando de suas ideias. A maioria delas muito estanhas. Szukalski viveu entre os Estados Unidos e a Polônia durante a primeira metade do século XX. Autodidata, surpreendeu professores, criando seu próprio alfabeto, quando ainda era criança. Brigou com o primeiro mestre escultor, o que o levou a investir na própria carreira, sem seguir regras. Decidiu escrever sua história, com as próprias mãos. O que lhe custou muito caro.

O artista que chegou a ser chamado de Michelangelo do século XX, terminou seus dias sozinho, numa casa simples, cravada no meio de um dos subúrbios de Los Angeles. Mas, antes disso, foi convidado pelos nazistas a criar uma peça que refletisse a grandeza de Hitler, o que foi respondido com um rascunho do chanceler alemão dançando balé, com a devida indumentária feminina. Talvez esse tenha sido o motivo dos nazistas escolherem a Polônia para iniciarem o seu maldito projeto de dominação do mundo. Mas, essa é apenas uma ideia boba desse escritor. Szukalski, entre altos e baixos, entre idas e vindas de sua terra natal, ficou rico e famoso, pobre e odiado, terminando seus dias num canto esquecido da Califórnia.

Mas, nada disso o abalou. Nem mesmo o fato de suas grandes criações terem sido destruídas durante a segunda grande guerra. De volta aos Estados Unidos, continuou firme no propósito de tornar a sua arte algo real, de inquestionável originalidade. Claro que isso acabou colocando seu nome orbitando o lado errado da lua, onde não se vê nada. Viúvo, continuou escrevendo suas teorias, incansavelmente, mesmo sofrendo o peso da idade e a solidão que nunca lhe soltava a mão. Até que um estudante curioso resolveu lhe fazer uma visita. Anos de amizade, mais de 200 horas de fitas gravadas e 30 anos até que alguém resolvesse trazer à luz sua história.

Para saber qual a sensação, você terá de assistir o documentário. Impossível descrevê-la usando apenas palavras. Principalmente nessa fonte Garamond, a minha preferida!

Já avançado em idade, ele ainda não tinha perdido aquela energia que os jornais antigos registraram sobre sua juventude. Uma inquietação que pessoas criativas normalmente têm. Mihaly Csikszentmihalyi (que nomezinho, viu!) comenta em seu livro Creativity: The Psychology of Discovery and Invention, que pessoas aplicadas ao seu potencial criativo, embora nem sempre conscientes, estão sempre criando pontes no mundo das ideias. Para ele, é a insatisfação com a rigidez das coisas que torna possível grandes avanços criativos.

Existe um movimento pelo mundo que prega o aprendizado da escrita manual. A tecnologia está facilitando as coisas, e praticamente não precisamos escrever quase nada hoje. Mas, para essas pessoas, é importante manter a arte da escrita viva, já que a ciência vem provando o seu valor. Estudos feitos pelas universidades de Indiana e da Califórnia mostraram que escrever à mão envolve partes do cérebro que a digitação e o envio de mensagens não conseguem, melhorando a maneira como as pessoas processam e recuperam informações.

A tecnologia está fazendo um excelente trabalho, mas é preciso cuidado nas escolhas rápidas que fazemos, na ânsia de não perder o bonde da história.

Francielly Barbosa, a menina do açaí, mostrou que ideias geniais precisam, sim, de uma forte dose de insatisfação. Moradora de Moju, uma cidade a 70 km de Belém, ela se sentia incomodada com a situação de seu bairro, apinhado de barracos que mal se sustentavam sobre o inquieto chão, que era uma mistura de aterro, lixo e caroços de açaí. A estudante levou a ideia para o simplório laboratório de sua simplória escola, onde, com o apoio de seus professores, encontrou uma solução para as trêmulas casas de seus vizinhos. As sementes viraram mistura química, que fez o papel de cimento na composição de tijolos que podem ser feitos com o material que sobeja em todos os quintais daquela região. Problema resolvido, usando a própria questão como combustível para solucioná-la. Bastou apenas uma pessoa se incomodar e agir.

Não precisamos jogar fora nossos computadores, e voltar a escrever cartas uns para os outros. Precisamos de uma boa dose de Thaumázein. Em grego, capacidade de se deslumbrar, de se espantar com descobertas. Algo que veio da filosofia antiga. Essa palavra esquisita é o espírito que nos torna pessoas inquietas, em busca de respostas. O mundo digital nos tirou a chance de escrever textos com o charme inquestionável que há numa folha de papel riscada de tinta e símbolos. Não conseguimos esconder nossas emoções quando usamos nossa própria caligrafia. As letras nos condenam. O que é difícil acontecer em um e-mail padronizado. Acredito que podemos “escrever” melhor, se houver mais curiosidade e disposição para encontrarmos beleza no corriqueiro do dia a dia.

A sabedoria não é boba, e pode usar a tecnologia para se emancipar. Há beleza desenhada com bits e bytes. O que importa não é o meio, mas, sim, a mensagem. Szukalski era um artista inveterado, turrão e cheio de ideias estranhas, algumas até demais. Mas não perdeu o bonde da história. Escreveu suas teorias em grossos volumes que ele mesmo colou página a página, usando um alfabeto próprio, mesmo que ninguém quisesse lê-los.

E, o mais interessante, não se sentiu nem um pouco incomodado quando colocaram uma câmera diante dele. O misantropo, que quase terminou seus dias sozinho, abraçou uma tecnologia que lhe parecia estranha, mas que também o deslumbrava. Ver a si mesmo na televisão, depois de gravadas as imagens, soava como um milagre. Talvez o que tenho tornado sua obra eterna.

Hoje, suas cinzas dormem na ilha de Páscoa; local onde imaginava estar as origens da humanidade.

As facilidades do mundo moderno tornam tudo mais fluido; mas acabam, de alguma forma, apagando luzes em importantes espaços de nossas mentes. Nos fazendo amantes da conveniência. Muitos cantos escuros de nossa imaginação guardam surpresas capazes de revelar animais fantásticos. Precisamos apenas de um fio de luz para liberar esse poder. “Dia gar to thaumazein hoi anthropoi kai nyn kai proton erxanto philosophein”, diz Aristóteles, em A Metafísica — Pelo espanto os homens chegam agora e chegaram antigamente à origem imperante do filosofar.

Francielly e Szukalski enviaram uma carta ao futuro. Criaram seu próprio alfabeto e escreveram com sangue, suor e açaí. O eterno questionamento, inerente à natureza humana, pode nos fazer experimentar o deslumbramento em descobertas incríveis. Sejam em sementes de frutas ou numa casa cheia de baratas e esculturas inimagináveis, habitada por um velhinho esquisito, dono de uma história tão interessante que nenhum livro se atreveu a registrá-la. Mas, lembre-se: nada está livre do poder da Internet. Absolutamente, nada!

Filosofia

FELIZ EU NOVO

Todos desejam “um feliz ano novo”, muitas vezes, no atacado. Polvilham frases soltas sobre felicidade a quem estiver pelo caminho, metralhando sentimentos em todas as direções. Contamos histórias sobre um tempo que pode ser diferente, melhor se possível; mas seguimos na sua direção, na maioria das vezes, do mesmo jeito que passamos o ciclo anterior. As frases de felicitações parecem placebos que justificam um ano passado não muito diferente daquele que passou, já que desejamos, mas, nem sempre, atuamos de verdade. Um “feliz eu novo” cobra mais caro, e exige que sejamos donos de nossas palavras, esculpindo o percurso de mudanças que desejamos.

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“Muito dinheiro no bolso”, se for real, mas sem sabedoria, talvez sirva apenas para dar vazão aos hábitos dos quais não nos orgulhamos muito; “saúde pra dar e vender” é uma grande mentira, pois saúde é a única coisa que realmente tem valor nessa vida, entretanto, não pode ser doada e nem mesmo vendida, de forma alguma. Um EU novo pode fazer, sim, um ano inesquecível. Um EU novo pode, sim, mudar tudo e desenhar um arco-íris bem no meio de uma tempestade que tem data e hora para acabar, se esse EU aprender a tirar vantagem de cada situação, e transformar dores em degraus, tristezas em trampolins, derrotas em oportunidades; e os vícios negativos em motivos para vencer aquilo que atrasa nossas vidas. Sem um Eu Novo é impossível o ano ser feliz!

Comportamento

A VÍTIMA DA CULPA

“As revoluções não são somente femininas, são sobre pessoas. Quando um muda, o outro tem de mudar também. Não dá para fazer revolução sozinha. É preciso contar com todo mundo para que de fato aconteça e é isso que as pessoas têm de ter claro. A cultura tem de mudar inteiramente.”
– Isabella Lessa

 

“Essa é uma roupa de piranha”, disse o rapaz a uma garota, recentemente. Então, só “piranhas” usam roupas curtas? Pelo menos para muitas pessoas, entre elas homens e, infelizmente, mulheres também.

Esse texto nasceu numa troca de mensagens no WhatsApp. Mas, como sempre acontece quando converso com essa pessoa (omito o nome a pedido dela), o caldo engrossou e não pude ficar apenas no papo de boteco, imaginando apenas come seria escrever a respeito disso.

Sim, eu sou um homem. Cisgênero. Não deveria estar aqui neste palanque, eu sei. Mas, a despeito do que falarão outros homens (e mulheres), escolhi me juntar à luta, pois elas me convenceram de que essa situação estúpida não precisa se estender mais. A vida pode e deve ser melhor se esse apartheid de gêneros acabar, definitivamente. Não somos apenas homens e mulheres, somos pessoas. Isso já seria suficiente!

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Muitas mulheres são abordadas e assediadas por estarem usando o que muitos chamam de trajes inapropriados. Alguns países pelo mundo exigem que suas mulheres usem coberturas completas, chamadas de burcas. Umas são tão fechadas que cobrem até os olhos. No caso do Brasil, um país “liberal”, cheio de sol e mar, com infinitas cidades de veraneio e água que não acaba mais, com cachoeiras, lagos e lagoas que estão sempre lotados de mulheres com trajes sumários, adequados para aproveitar o clima, parece que ainda não nos acostumamos a vê-las usando roupas de banho ou indumentárias que revelam “além do permitido” de seus corpos.

Depois de 500 anos, ainda nos assustamos com a notória e natural nudez desse país.

A roupa é um código, um símbolo que pode dizer algo sobre quem somos. Como tudo na vida. Cada atitude revela um pouco da nossa essência como seres humanos sociais e sociáveis. Mas, nem sempre é assim. Como num texto que pode ser mal interpretado, as pessoas também são mensagens que, no volume, acabam virando discursos truncados, o que confunde mais do que esclarece. Contudo, no final das contas, sempre perde ou paga o pato a parte mais frágil envolvida.

A verdade é que a “fragilidade” feminina, construída historicamente, facilita a imposição da violência sobre muitas mulheres que tentam viver livremente, usando as roupas que mais lhe aprouverem. Ainda hoje, as que reagem a cantadas baratas e assédios muitas vezes recebem em troca agressões verbais e, em alguns casos, até físicas.

A mensagem do pregador solitário na praça ou de um parlamentar no congresso nem sempre ganham aplausos. Nem sempre agradamos a todos. Quando a redação vale nota zero o ENEM se desfaz, daí o sonho fica para o ano que vem. Versículos bíblicos já foram usados para salvar e condenar muita gente; assim como julgamentos se basearam em argumentos que, hoje, seriam motivos de piada. O significado das coisas muda, e a nossa percepção do mundo também. Umas demoram mais que outras, mas sempre mudam. O tempo tem encurtado a roupa das mulheres, tardiamente, à medida que se emancipam e tomam posse de sua liberdade.

Existem pessoas que usam a mesma roupa para emitir mensagens diferentes. Às vezes, sim, tem gente que quer chamar a atenção de potenciais clientes. Nesses casos, a roupa é uma espécie de uniforme, que revela um produto que está à disposição. Em outros casos, a pessoa está apenas sentindo calor, e deseja um mínimo de conforto para o seu próprio corpo. Essa é a única mensagem que está enviando. Precisamos entender que terno e gravata não são garantia de eficiência e honestidade, e nem mesmo que minissaias são ingressos de livre acesso para abordagens sórdidas.

Existe contexto para tudo, e a ignorância vai sempre gerar violência.

A roupa como mensagem exige contexto. Precisamos aprender a ler as pessoas, e a respeitar as mensagens alheias. Não existem mulheres vagabundas. Existem mulheres, por exemplo, que se prostituem (e ninguém tem nada a ver com isso), para ganhar o seu sustento, e podem ou não usar um código de vestuário como recurso para ampliar seu alcance. Por outro lado, também existem outras mulheres que apreciam roupas que definem seu estilo e suas preferências, mesmo que sejam modelos curtos, como uma forma de se sentirem confortáveis e livres, de bem consigo mesmas. Simples assim! Ponto.

Tudo é mensagem: comida, bebida, vestuário, atitude, carro, música, etc., etc., etc. Se a gente nivelar todo mundo num determinado patamar, seremos muito pobres e injustos. A maioria das mulheres ainda não sabe como lidar com o assédio e a violência. Ainda são vítimas de um processo cultural que, infelizmente, as culpa se tiveram uma atitude “imprópria”. Demagogia pura. A responsabilidade é de quem impõe formatos e insiste em determinar padrões rígidos. Resquícios de uma sociedade medieval, que nos desprepara para lidar com as diferenças, matando, assim, a autonomia que todo ser humano precisa ter e administrar sozinho.

Muitos homens podem ver suas esposas como um troféu; às vezes, como uma santa, com quem quase nunca fazem sexo; talvez por uma imposição ideológica ou religiosa, vai saber. Existem outros que são extremamente ativos em casa, mas ainda assim não basta; precisam de mais “presas”, onde quer que elas estejam. Mesmo na presença de suas parceiras, não resistem em se insinuar para outras fêmeas, mesmo em lugares púbicos. A mulher na rua parece estar numa vitrine, à disposição da vontade do cliente que pode pensar e fazer o que bem desejar.

Será que esses homens entendem essas mulheres apenas como máquinas de prazer? Talvez, por isso fiquem tão irritados quando são confrontados, e a “máquina” dá defeito. Deve haver tanta frustração acumulada, um peso histórico que permite uma torpe violência contra aquelas que eles ainda julgam ser serviçais submissas, sem voz, incapazes e desautorizadas a reagir. Elas não são máquinas, são pessoas; e pessoas têm emoções; e emoções têm limites.

A parte que realmente interessa é que esses seres “frágeis” estão próximos ao seu limite. Agora, estão quebrando muros e tabus; essas damas aprenderam a ler nas entrelinhas para criar seus próprios textos; estão mandando uma nova mensagem, uma que promete reescrever o contexto e mudar a aparência desse momento tardio de uma história que não precisa mais se repetir. Machismo, adeus! O passado é uma roupa que não nos serve mais.

criatividade

PENSE: FORA DA CAIXA?

Atualmente, ouvimos a expressão “pense fora da caixa” mais vezes do que recebemos “bom dia”. Pode acreditar. Na hora de escrever um curriculum, a maioria de nós sofre para criar a melhor versão possível, capaz de seduzir aquela pessoa que tem pilhas e pilhas de papel ou e-mails para ler, e que tem nas mãos o poder de decidir o destino profissional do dono daquela folha de papel. Aposta alta demais.

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Afinal de contas, o que é essa tal caixa? Quando ouvimos a tétrica expressão “pense fora…”, nos sobe um calafrio. Sim, a ideia parece sombria o suficiente para assustar quem quer que receba o famigerado convite para pensar fora de um quadrado mal explicado.

O que incomoda bastante é que as pessoas que nos exigem o sacrifício de sair de um confortável cubo, onde as leis da física nos são familiares, assistem nossas piruetas, confortavelmente, de um camarote aveludado, dentro do mesmo lugar de onde devemos sair para termos ideias novas. Não são aventureiros como Morpheus, que resgatou Neo de dentro da Matrix, e o ensinou a pensar fora dela; são donos do dinheiro e de muitas oportunidades (mas, não de todas — que fique claro), à espera de quem seja capaz de andar no vazio de um espaço desconhecido, às vezes, sem trajes especiais e um capacete.

A empresa que exige criatividade precisa estar aberta às loucuras do mundo. Precisa estar fora da caixa, recrutando gente na porta de saída desse mundo retangular. A caixa é o próprio mundo. Sim, esse mesmo que os seus olhos são capazes de ver. E se você consegue percebê-lo de alguma “forma”, já se conformou com o seu formato. E isso não é um pecado. Será se você não se rebelar.  A exótica criatividade que exigem estar em nossos novos currículos não é encontrada em qualquer lugar. O bicho é selvagem.

Ao assistir ao TEDxFAAP com a Michelle Schneider, percebi que, sim, o buraco é muito, mas, muito mais embaixo que se possa imaginar. E haja imaginação. Resumo da ópera: as máquinas vão ocupar a maciça maioria dos postos de trabalho que sobrarem de nossa atual cultura, e não dará tempo para, quem estiver no meio do caminho, aprender a se equilibrar sobre uma corda que treme sem parar; sem as bênçãos de uma rede logo abaixo para nos amparar, caso algo dê errado. Além disso, será preciso aprender o tempo todo, viver várias carreiras durante e vida; algumas, talvez, simultaneamente.

Pegou a visão?

Haverá, provavelmente, um computador capaz de substituir a inteligência de toda a humanidade. Isso, até 2045. Sim, eu disse inteligência. Mas, existe uma diferença imensa entre consciência e inteligência. Máquinas vão substituir o trabalho, em todas as situações que for possível programar as suas funções. Isso vai acontecer pelo simples fato de que máquinas são mais eficientes e mais baratas do que a mão de obra humana. Ponto.

Mas, ainda existe uma questão: O que vamos fazer sem trabalho e com a capacidade de consciência que ainda nos resta e nos torna únicos?

As habilidades inerentemente humanas como consciência, intuição, empatia, criatividade, etc., que são produtos de um pedaço gelatinoso que se esconde dentro de nossas “caixas” cranianas, serão o divisor de águas em um mundo faminto por gente de verdade, que não se pareçam com as máquinas que operam. Precisamos aprender a pensar fora da caixa, mas, antes, aprender que o mundo está em constante mudanças, e quase não é possível seguir o ritmo dessa quase paranoia. Pessoas têm emoções e podem ser comprometidas se não lidarmos de maneira saudável com cada uma delas.

Outra palestra super interessante foi feita pela Sara Silveira, no TEDxFortaleza. “Tá todo mundo doido”. Piadas à parte, sim, há uma crise e percebe-se que há um clima de panela de pressão. Parece que existe algo prestes a explodir. Para a psicóloga estamos perdendo a capacidade de lidar com nossas emoções. Perdas, derrotas e morte são abafadas com todo tipo de recursos. Não queremos encarar luto, fracassos e afins. Nos esquivamos o máximo que podemos, inclusive impondo a fórmula aos nossos filhos. Geração que cresce sem saber exatamente como é o gosto amargo da realidade.

Em um mundo duro, realmente é difícil parecer um super herói. Talvez você prefira a saída do cientista Rick Sanchez, da série Rick and Morty; ele defende que não há sentido na vida, e, por isso, não faz a menor diferença qualquer uma de nossas escolhas. Mas, como disse o poeta francês Paul Éluard: “dur désir de durer”. Ele escreveu sobre o que vem dentro de cada um de nós, a energia de prolongar nossos dias da melhor forma possível, traduzido duramente como o “duro desejo de durar”. Ou, talvez, você seja fã das “loucuras” de Muhammad Ali, campeão mundial de boxe, que parecia ficar doido antes de cada luta. José Torres, um de seus adversários, disse que Ali sabia que “um soco que provoca o nocaute é um soco que não se vê de onde vem”.

O novo século que desperta parece oferecer desafios tão insólitos que todo o conhecimento acumulado até aqui não será suficiente, já que pode ser armazenado e processado em qualquer computador médio. A única saída possível será o The Dark Side of the Moon. Não, nada a ver com o Pink Floyd (se bem que faz bem para a mente). O lado escuro da lua aqui são as regiões ignoradas da nossa mente. Valorizamos demais habilidades técnicas a despeito daquilo que realmente nos manteve vivos até aqui: empatia e colaboração. Sem isso, seremos vencidos muito fácil por máquinas que simulam sorrisos elétricos. Um soco que sabemos de onde vem.

Passamos muito tempo usando máquinas para tornar as nossas vidas melhores. Agora, que elas fazem todo o trabalho pesado, poderemos experimentar um estilo de vida mais leve e sem o peso da repetição. Mas, o duro desafio nessa batalha entre humanos e máquinas será lidar com nossas emoções. A mente humana, uma caixa preta cheia de segredos, onde estão as respostas para nosso poder inventivo e as nossas maiores tragédias. “Pensar fora da caixa” exige não somente um novo currículo, mas também fôlego e coragem para explorar um lugar para onde não existem mapas e nem garantias de retorno seguro.

Talvez esse seja o convite silencioso que faz valer a pena a própria aventura.

criatividade

O PREÇO DA CRIATIVIDADE

Essa é a primeira parte de uma conversa que aconteceu em algum lugar virtual, no meio do oceano Atlântico. Um colóquio que não tinha data para acontecer, mas que, definitivamente, ocorreria de qualquer forma.

Em uma mesa de bar perdida no meio do nada, duas mentes inquietas começam um bate papo despretensioso, que buscava entender os rumos da criatividade no mundo. Felipe Zamana serve os copos e dispara, sem cerimônia, o primeiro tiro:

Stuck in the box

— Olha só. Tava pensando aqui: o consumismo é um crescente problema em nossa sociedade, e com ele aparecem cada vez mais produtos de procedência duvidosa no mercado, incluindo o conceito de criatividade; você vê essa comercialização da criatividade como uma coisa positiva ou negativa?

O cara parece curioso, e eu presto atenção. Termino o gole de cerveja, antes de jogar a bola de volta por cima da rede.

— Há bem pouco tempo, o tema “criatividade” pertencia apenas às esferas artísticas. Mas, agora, com a ascensão vertiginosa da tecnologia e a crescente perda de empregos para as chamadas inteligências artificiais, vemos que a demanda pela habilidade criativa se expande na mesma proporção. É um processo natural que soluções baratas para uma demanda tão grande comecem a surgir de todos os lados. Sempre que uma nova disruptura abala o mercado, mudando processos culturais, aparecem os “mercadores de soluções”. Esses personagens não são necessariamente vilões. Eles podem trazer boas ideias, mas nem sempre é o que acontece. É apenas uma reação natural à uma necessidade premente, imediata e que exige respostas rápidas. E não seria diferente nesse nosso momento histórico, em que as coisas viajam à velocidade da luz. Hoje em dia, acreditamos que não dá para esperar muito por nada. Muitos empregos vão deixar de existir em breve, e muitos outros que ainda nem foram criados serão definidores para o mercado que desabrocha neste exato momento. A criatividade será comercializada, sim, inevitavelmente, como a educação formal é há tempos, o que que vem minando a sua credibilidade. A ditadura do mercado é implacável. Já é possível perceber que grandes empresas exigem pessoas criativas, a despeito de suas formações acadêmicas. Algumas criaram suas próprias escolas de formação, por não mais acreditarem na capacidade dos modelos tradicionais. Esse movimento já é suficiente para nos alertar sobre a falácia de uma criatividade que pode ser ensinada, via métodos prontos, e até mesmo medida e avaliada. A comercialização dessa nova habilidade tão valiosa acontecerá, mas estaremos apenas engrossando as filas de desempregados se continuarmos acreditando que algo tão poderoso e individual possa ser comprado pronto.

 

Eu me ajeito na cadeira, e largo o copo na extremidade da mesa, à espera de que ele não fique mais vazio. Do outro lado, ele fica lá, olhando pra mim, com uma interrogação nos olhos, como um fogo que não tem data para terminar. De repente, algo sai da sua boca. Um tiro.

 

— Entendi. Então vamos pensar um pouco mais: hoje, através da internet, qualquer pessoa pode se expressar e difundir suas ideias e opiniões; o que podemos aprender com os “gurus” da criatividade?

 

Percebo que a conversa vai durar.

— A internet deu voz a uma legião de imbecis, disse Umberto Eco. De certa forma, eu concordo com ele. Difícil é identificar quem são essas pessoas. E é ainda mais complicado nos proteger delas. As vozes mais potentes nas redes sociais são de celebridades que normalmente defendem argumentos rasos, até mesmo como estratégia, para atingir o máximo de pessoas possível. Os tais gurus que você mencionou já estão aí, como sempre estiveram. Como Eco mesmo disse, um dia eles ficavam restritos às mesas de bar, vendendo o “seu peixe” para uns poucos dispostos a ouvir seus argumentos, mas, agora, têm o poder da Internet em seus dedos para tocar o mundo. O desafio para os bem intencionados é fazer o que um amigo me disse há 20 anos, quando nem mesmo existiam redes sociais como as conhecemos hoje. Ele defendia a ideia de uma busca seletiva, e o desafio seria ter capacidade para selecionar com inteligência o que desejamos ver, ouvir e sentir. Claro que soa meio utópico, mas não vejo outra forma mais saudável, mesmo sendo tão complexa. Vamos achar botões piscando em todos os cantos de nossos computadores e dispositivos eletrônicos dizendo “seja criativo, clique aqui”. O que fazer nessas horas, já que estamos e estaremos cada vez mais desesperados para não nos tornar irrelevantes? Esses “gurus” poderão nos ensinar o que não aprender, e isso já será muito útil em uma cultura entulhada de mensagens que, na maioria das vezes, não querem nos dizer muita coisa, a não ser, é claro, que você digite o seu número do cartão de crédito.

 

Sim, os olhos do meu amigo ainda diziam que faltava alguma coisa. Então, era hora de abrir o peito e esperar novo disparo.

 

— Tudo bem. Então me fala mais desses “gurus”; você acha que eles acabam por criar e comercializar seus próprios modelos de criatividade? Qual o impacto desses modelos baratos de criatividade nas pessoas e nas empresas? Como podemos identificar e nos prevenir desses falsos profetas da criatividade?

 

A nova rajada vinha no meio de um gole mergulhado na espuma da cerveja. Eu hesitei um pouco, mas não pude evitar as palavras que me saiam.

 

— De forma geral, as empresas contratarão pessoas com diplomas de “curso de criatividade”, mas vão perceber que o mercado exigirá pessoas com uma capacidade que não pode ser ensinada: a imaginação. Os cursos de criatividade têm foco na habilidade de solução de problemas. Legal. De verdade. Mas, pessoas realmente criativas não somente resolvem problemas que já existem, elas percebem outros que ninguém ainda tinha visto. Como dizia meu amigo Arthur Schopenhauer, “talento é acertar um alvo que ninguém acerta; genialidade é acertar um alvo que ninguém vê”. De muitas formas é fácil identificar falsos profetas. Se a resposta que oferecem puder ser colocada numa caixa bonitinha, com a sua própria marca estampada, e vendida como a solução de todos os seus problemas, bastando para isso um ou alguns pequenos depósitos mensais, têm fortes chances de ser charlatanice. Não acredito numa criatividade pronta e acessível, pura e simplesmente. Explosões criativas no mundo quase sempre são frutos de necessidade e colaboração. É um processo cultural. Se há uma necessidade e as pessoas são estimuladas a colaborar, livremente, pelas vias superiores como mercados e governos, inevitavelmente haverá o desabrochar de múltiplos processos criativos. Por exemplo, a guerra une as pessoas e não dá tempo de vender cursos de criatividade. Todo mundo precisa dar o seu melhor, pois a sua sobrevivência depende disso. Gosto da ideia de criatividade do Roberto Menna Barreto. Para ele, somos criativos sempre que há um cão feroz correndo atrás da gente. Quando está tudo bem e funcionando, por que gastaríamos a nossa preciosa energia cerebral? Nesse momento crítico, no qual vemos um bando de “mercadores de soluções” baratas espalhados pelas avenidas digitais da vida, a melhor saída é acreditar que a minha criatividade não sairá das mãos de outras pessoas, mas de uma busca pessoal, quando podemos descobrir mais do mundo com nossos próprios meios, sem atalhos fáceis.

 

 

Imediatamente, levei novo baque. O cara não se cansava…

 

— Tá certo! Então você acredita que o nascimento desses novos modelos baratos podem contribuir para o estudo da criatividade?

 

Me instigava a questão que pairava sobre a mesa. Em poucos instantes, não consegui segurar o gosto de pólvora solto no céu da boca.

 

— É claro que, a escola tradicional, mesmo que bem intencionada, acabou matando a criatividade. De muitas formas. E isso já foi provado até pela ciência. Caso contrário, o mercado não estaria desesperado em busca de pessoas criativas. A escolarização chegou a níveis tão altos, mas não há pessoas qualificadas para o que esse momento exige tanto. Estamos em busca de mais e mais estudo e formação, sem encontrar uma resposta plausível para um patente e inexplicável deslocamento profissional. A alta demanda de pessoas criativas vai encher as ruas e a Internet de soluções baratas. Na época da bolha de tecnologia dos anos 90 explodiram cursos de informática. Eram caros, e viviam lotados. Hoje, ninguém precisa se formar em cursos como aqueles. A tecnologia tornou-se acessível, intuitiva e, mais que isso, presente em quase tudo o que fazemos. O problema é que a criatividade é uma habilidade inerentemente humana, individual e única para cada ser humano. E, na maioria das vezes, vem à tona se o caminho estiver devidamente pavimentado e se houver um propósito que a justifique. Talvez esses modelos baratos nos lembrem que a natureza humana não pode ser comercializada. Então, daí, poderemos achar novas formas de estimular o espírito criativo, dando mais liberdade às crianças, quando ainda em seus primeiros anos, no máximo de potencial que possuem, guiando-as rumo a uma sociedade que estará, sim, repleta de máquinas controlando quase tudo, claro, mas teremos mais gente jogando menos lixo nas ruas, nos rios e nos oceanos, cuidado da natureza, eliminando diferenças sociais que beiram a tragédia, além de criar cidades menos distantes de nossas necessidades mais básicas como frágeis seres biológicos. O estudo da criatividade passa não apenas por técnicas de concentração e exercícios. Conectar as disciplinas em projetos práticos, nos quais as crianças possam desenvolver ideias de inovação para necessidades reais seriam bombas atômicas em seus espíritos criativos. Basta ver os países que evoluíram com seus sistemas de educação como a Finlândia, Estônia e Singapura, deixando superpotências como Estados Unidos, Rússia e Espanha no chinelo. A criatividade não pode ser ensinada, apenas estimulada.

 

Meu amigo, depois de outro gole, me olhou com aqueles olhos inquisidores e não me deu trégua.

 

— Cara eu ainda tô meio curioso. Você acha que a criatividade pode se tornar uma peça indispensável no nosso dia a dia? E mais; como ela pode influenciar nossas decisões? Ah; e qual o impacto dessas “decisões criativas” na nossa felicidade e satisfação pessoal?

Sim, ele não sossegava, e eu não poderia deixar essa questão sem uma resposta. Seja ela qual fosse.

 

— A automação vai gerar um tipo de ditadura das máquinas. Cada vez mais, teremos um mundo repleto de funcionalidades 100% digitais, baseadas em algoritmos, a fim de dinamizar o dia a dia na maioria das metrópoles mundiais, e que, inevitavelmente, vão chegar a todos os cantos do planeta. Com isso, vamos precisar cada vez mais de pessoas com a capacidade de fazer aquilo que as máquinas ainda não são capazes de fazer: imaginar. Criar cenários impossíveis. Cenários caóticos. Quanto mais imaginação, mais a necessidade de máquinas com poder de processamento suficiente para avaliar a possibilidade de execução dessas ideias estranhas. As máquinas evoluem para sustentar a nossa capacidade de ter ideias. Quando veio o desejo de chegar à lua, não tínhamos capacidade computacional superior a um smartphone básico de hoje em dia. Mas, de uma forma quase mágica, chegamos lá. E essa decisão gerou infinitos desdobramentos, agilizando o desenvolvimento de tecnologias que não seriam possíveis hoje sem ela. A máquina mais poderosa do universo ainda é o cérebro humano. Buscamos um jeito de copiá-lo, usando métodos artificiais, mas ainda sem sucesso. Enquanto isso, podemos usá-lo para tornar as máquinas uma piada, meios de entretenimento, enquanto temos tempo para construir novas outras das quais, talvez, um dia, não possamos mais rir.

 

A segunda parte desse encontro pode vir a ser publicada, em breve. Mas, não há nenhuma certeza disso. Se você leu esse texto, agradeça ao caos desse universo. Se tem algo a dizer sobre isso, diga. Não guarde para si o que pode mudar a vida de alguém.

criatividade

QUILOMBO DOS CRIATIVOS

As máquinas ainda não têm consciência. Afinal, nem os humanos têm certeza do que é ser consciente. Há discussões profundas sobre o tema, que hoje congrega profissionais de muitas áreas, desde filosofia até cientistas da computação, passando por psicólogos, engenheiros e biólogos. O Santo Graal que vai definir o início da era há muito esperada, mesmo que mortalmente temida, será o rompimento da barreira entre o “ser” humano e as extensões que foi capaz de criar.

Não há certezas sobre quando o homo sapiens começou a sua jornada como ser criativo, elaborando ferramentas, armas, linguagem e técnicas de cultivo, a fim de sobreviver nesse inóspito planeta chamado Terra. A curiosidade de nossos “avós” os fez imaginar novos cenários, e, com isso, experimentar cada vez mais novidades; enquanto fugiam de predadores, furacões, terremotos, tsunamis, desavenças tribais, animais peçonhentos, secas, inundações, etc.

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Houve muitos motivos para o despertar do desejo inventivo humano. E como esses motivos não podiam ser previstos e nem mesmo evitados, a única saída era aperfeiçoar cada uma das criações, enquanto aprendíamos com os erros do passado.

De volta ao século XXI, já podemos sentir o bafo quente das máquinas em nosso cangote. O desejo inventivo, a inevitável vontade de constante superação e a imaginação humana criaram um cenário que nos deslumbra e assombra ao mesmo tempo.

Quando médicos e advogados são “ameaçados” de perderem seu status sagrado de protetores da vida e da liberdade, podemos, sim, ficar assustados. Se as máquinas prometem assumir essas funções, em breve, nenhuma outra função, por mais criativa que seja, estará livre dos tentáculos digitais, que já governam nossas vidas de muitas formas.

A tecnologia, desde a roda e os machados de pedra, sempre foi uma resposta às necessidades de um momento histórico. Mas, a própria história tem registrado um fato que não podemos ignorar. A mesma tecnologia que melhora a vida e conecta as pessoas, também possui seus efeitos colaterais.

A automação é um fato. Não podemos evitá-lo. Queremos cada vez mais fazer menos, obtendo o máximo no menor tempo possível. E esse desejo vai tornar todas as funções passíveis de serem automatizadas. Por isso, as máquinas vão se tornar mais poderosas e inteligentes, a fim de suprir esse desejo insaciável. Não resistimos aos encantos de nossas criações.

É uma distopia. Um pensamento meio louco. Mas, imagino um futuro no qual seremos obrigados a abandonar as cidades e partir para refúgios naturais, onde poderemos recomeçar nossas vidas e nos reconectar à natureza. Não por vontade própria, mas porque não mais seremos bem-vindos naquele mundo que criamos. A obra prima da criação humana não será para todos. Infelizmente. Nem mesmo para os criativos, que imaginam enfrentar a ameaça das máquinas com um talento único.

As máquinas vão superar, sim, a capacidade humana, pelo simples fato de que esse é um desejo humano. Isso já basta. Precisamos de um deus acima de nós, mesmo que seja preciso criar um. Sem uma divindade, um mito ou um poder superior é quase impossível vivermos como seres humanos.

Esses quilombos estarão repletos de dissidentes, imigrantes e degredados, em busca de algum tipo de vida. Chamo esses lugares de quilombos porque serão refúgios de personae non gratae. Gente que perdeu o seu valor. Mas, ao contrário dos escravos negros, que eram valiosas propriedades para seus senhores, enquanto “máquinas produtivas”, nossos feitores digitais estarão dispostos a nos pagar a passagem para os quilombos, pois nos tornaremos um peso, já que nem nossa força física e nem mesmo nosso intelecto terão mais nenhuma serventia.

Somos vigiados e estudados, 24 horas por dia. Tudo o que fazemos é mapeado. Essas informações são valiosas para empresas que as utilizam para nos ajudar a tomar decisões. No entanto, nos esquecemos de que somos valiosos enquanto nossa força de trabalho for necessária. Quando sistemas e máquinas puderem nos substituir, depois de terem informações suficientes para isso, seremos descartáveis. O último recurso será abandonar o paraíso, em busca de sobrevivência.

A roda substituiu o ombro; o motor substituiu a mula; o GPS substituiu os mapas; a eletricidade substituiu a gasolina; em breve, os carros autônomos vão obrigar motoristas de Uber a refazer seus currículos. A tecnologia inclui a mão humana até ser totalmente autônoma. Não sei dizer como isso tudo termina. Seria quase impossível tentar prever. Mas, a sedução da tecnologia é poderosa demais para resistirmos aos seus encantos.

Talvez, quando estivermos marchando rumo aos quilombos, a gente não sinta saudades dos tempos de telas sensíveis ao toque e das facilidades do Ifood.Talvez, a gente chegue lá e encontre alguma felicidade. Talvez, depois de algum tempo, a paz e a tranquilidade nos encha o saco e comecemos a construir coisas para facilitar a vida dura no meio do mato. Talvez, ansiosos, vamos criar novas ideias, imaginando ser possível construir um novo mundo, sem cometer os mesmos erros do passado. Talvez…

Ficaremos quietinhos, isolados em vales, florestas e montanhas? Ficará a casa grande, opa, quero dizer, a cidade grande tranquila em sua pompa e circunstância? Recursos naturais são limitados e escassos, e todos, sem exceção, precisamos deles; inclusive as máquinas. Quem atacará primeiro? Quem sobreviverá para contar essa história?

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O HERÓI DE MIL FACES

Ele nasceu no dia 28 de dezembro de 1922. Não houve glamour, nem mesmo berço de ouro; na verdade nem berço tinha. A origem simples na periferia de Nova Iorque não o impediu de se tornar uma das maiores referências da cultura pop. Esse herói costumava defender a ideia de que o maior superpoder era a “sorte”. Eu discordo. Ele mesmo provou para todos que a sorte é algo que a gente pode e deve construir, ou melhor, desenhar; com as próprias mãos.

Stan Lee tornou-se um ícone. Casou-se, inevitavelmente, com a história dos Estados Unidos e mudou para sempre a história do resto do mundo, alterando o destino dos super-heróis como eram conhecidos. Ele não criou os primeiros, mas criou um tipo clássico, impossível de ser ignorado ou esquecido.

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Os heróis surgiram para preencher o vazio criado pelo avanço do conhecimento e da tecnologia, e o distanciamento dos ideais religiosos. Claro, eles beberam nas águas da mitologia antiga, que ditava as regras religiosas em tempos passados, mas dessa vez estavam mais próximos da realidade humana, mesmo com talentos e poderes incríveis. As crises econômicas, rupturas sociais e as grandes guerras do século XX exigiram a criação de símbolos para guiar um mundo em plena convulsão.

Os primeiros super-heróis nasceram para dar esperança às pessoas. A grande depressão americana e a segunda guerra mundial foram o palco para surgirem personagens como o Superman, Capitão América e o Batman. O clima de incertezas precisa ser aliviado com a ideia de que uma força maior poderia nos salvar. Enquanto milhões de soldados e civis, principalmente judeus, morriam tragicamente, uma versão colorida dos conflitos precisava ser dada às pessoas do outro lado do Atlântico.

Stan Lee conhecia todos esses problemas e simpatizava com a dor das pessoas, tanto que se alistou e foi para o front. Durante a segunda guerra, foi designado como roteirista e produtor de informativos para as tropas. Inclusive criando materiais de prevenção contra doenças venéreas. De volta à América, debruçou-se sobre a máquina de escrever e começou o parto dos filhos que marcariam a história do seu país e do resto do mundo.

Ele entendia a necessidade de provar que heróis estão em todos os lugares e que é preciso mais coragem do que super poderes. Na verdade, segundo ele mesmo, quando percebemos o quanto podemos fazer pelo mundo, também descobrimos o nível de responsabilidade que isso traz. Seus heróis ou ganhavam seus poderes ou nasciam com eles, mas todos sofriam da mesma forma e pelo mesmo motivo. O “poder” trazia consigo obrigações e, como não se pode negar, dilemas. E qual ser humano, por mais demasiado humano que seja, não tem as suas dores de estimação?

Lee viveu muito. Conheceu as variadas faces do século 20 e as suas convulsões culturais. À medida que a história serpenteava em direções diferentes, seus heróis eram obrigados a acompanhá-la; vivendo novos dilemas, inspirando novas gerações e se reinventando para sustentar sua relevância. O tempo o ajudou a emancipar seus personagens, aumentando o alcance de suas revistas, trazendo também heróis negros, adolescentes, mulheres, dentre outros. Essa ousadia não passaria despercebida.

Nesse intervalo, Stan Lee encarou a censura do governo americano, a falência de seus negócios e até mesmo fraudes por parte de seus sócios. Mas, nada disso o derrubou, aliás, acredito que tenha até fortalecido o espírito de uma mente criativa que voava mais alto quando encarava ventos contrários. Todas as suas dores podem ser percebidas em seus personagens, de muitas formas. Seres que, muitas vezes, tinham a sua versão pessoal do fatídico “afasta de mim esse cálice”.

Hulk, Homem Aranha, Demolidor, Quarteto Fantástico, Homem de Ferro, X-Men. Não preciso contar a história de cada um deles. Você as conhece muito bem. Dor e sofrimento fazem parte da rotina de todos, mesmo do bilionário e filantropo. Afinal, viver com o peito prestes a explodir a qualquer momento não deve ser muito confortável para ninguém, mesmo para um playboy.

Geeks e nerds se amontoam em Comic Con’s, ano após ano, onde um dia foi apenas um encontro para meia dúzia de “degenerados” e excluídos, hoje reúne milhares de pessoas em San Diego, e outros milhões pelo mundo, orgulhosos de suas escolhas esquisitas. Uma indústria que mal se pagava, gerida por gente estranha e imigrantes pobres, hoje movimenta bilhões de dólares. Eis o poder das ideias.

Quando Stan Lee percebeu que os heróis seriam eternos quando fossem parecidos com a gente, ele também escreveu o capítulo de ouro de uma saga que marcaria a vida de todos nós. Você pode até não gostar de revistas em quadrinhos. Não precisa. Mas, é impossível não se emocionar com a história desses heróis que possuem poderes fictícios, mas têm emoções humanas, exatamente iguais àquelas que nos atormentam todos os dias.

Lee é o herói de sua própria história, que ofereceu a ele infinitas oportunidades para desistir, porém ele escolheu criar novos heróis mascarados, enquanto o seu rosto ficava mais conhecido a cada nova superação. Ele viveu por quase um século. E a herança que deixou para os fãs é inestimável, sem prazo de validade. O herói de mil faces provou que os verdadeiros heróis podem e devem ser humanos, desde que não neguem a sua própria humanidade. Isso lhes dá poderes impossíveis de serem ignorados. Esse é o verdadeiro poder de Stan Lee; o seu verdadeiro legado.

Filosofia

Ódio ao elogio II

Esta é a segunda parte do texto ÓDIO AO ELOGIO.
Se você ainda não leu, clique aqui

Falando sobre tecnologia e o impacto das revoluções digitais que acontecem nesse exato momento, Yuval Noah Harari comenta que se você não se sente em casa dentro de seu próprio corpo, “nunca se sentirá em casa dentro do mundo”. Ele comenta o efeito que as redes sociais estão causando em todos nós que as usamos. Estamos hiper-conectados. Mas, ainda somos 100% humanos, dependentes de instintos primitivos. Em um passado longínquo, nos satisfazíamos com um pedaço fresco de cervo e um galho seguro no alto de um Baobá; porém, hoje, a sensação de segurança é um pouco mais complexa. O excesso de contato com o digital nos fez esquecer que temos um corpo físico. Atualmente, parece que somos apenas as sensações que conseguirmos arrancar de nossos dispositivos eletrônicos.

E parece não ter fim…

O problema é que não podemos confiar em máquinas, pelo simples fato de que são feitas e controladas por seres humanos, e esses seres não são confiáveis.

António Damázio diz que sem a luz das artes e das humanidades, “as ciências não podem iluminar sozinhas a totalidade das experiências humanas”. A ciência criou as redes sociais, e as redes sociais espalharam mentiras em todos os lugares que alcançam. A Internet é um anseio da humanidade há milênios, desde que o homo sapiens partiu na direção do horizonte, em busca de novas experiências. O ser humano cria porque imagina; e também mente pelo mesmo motivo. Epitáfios são sempre positivos porque ninguém conhece o outro lado da morte. Por isso é mais fácil louvar quem “ousou” cruzar a linha, pois temos a certeza de que todos nós cairemos no mesmo buraco. Então, é melhor jogar rosas ao invés de pedras.

Alexander Pope foi inspiração para o filme “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, dirigido por Michael Gondry, que escreveu o roteiro com Charlie Kaufman e Pierre Bismuth, o qual lhes rendeu um Oscar. No trecho do poema de Pope ele diz “Como é imensa a felicidade da virgem inocente / Esquecendo o mundo, e pelo mundo sendo esquecida. / Brilho eterno de uma mente sem lembranças! / Cada prece é aceita, e cada desejo realizado”. Sabemos que seremos esquecidos, e a inexperiência nos impele na direção do desespero, quando vale quase tudo. Fazemos qualquer coisa para justificar o fato de que a vida nos engole sem misericórdia.

Algumas das vítimas de Simon Cowell, em programas como Britain’s e America’s Got Talent, voltam ao palco, meses ou anos depois, mesmo tendo sido humilhadas pelas ácidas críticas do jurado mais famoso do mundo. Gosto de assistir a esses programas; eu os considero inspiradores. Vejo pessoas dentro de si mesmas, exalando timidez e nervosismo, até a hora em que são autorizadas a começar suas apresentações. Os “bichinhos assustados” transformam-se em imensos colossos, disparando raios e trovões em todas as direções. Impressionante. Assim que a música termina, voltam à forma original, tremendo dentro de suas conchas.

Por que a crítica saudável é importante?

Por que ela cutuca o animal selvagem que está adormecido nos bastidores da nossa mente. Por que todos lembram de Simon? Talvez, porque ele tenha entendido que um simples parabéns sirva apenas para manter uma poderosa força presa no subsolo de nossas mentes, se apagando, dia após dia.

Por que, às vezes, é bom esquecer?

Porque, como disse Nietzsche, assim podemos tirar proveito de nossos erros. Como disse Pope, merecem elogios apenas aqueles que têm força suficiente para suportar as críticas. Sem isso, seremos apenas uma plateia muda, em um cemitério cheio de lápides que, infelizmente, costumam não contar histórias que refletem a verdade.

Filosofia

BOHEMIAN RHAPSODY: SOB PRESSÃO

Eu já tinha ouvido falar, e também conhecia algumas músicas da banda. Mas, em 1990, quando trabalhava como copista numa empresa de engenharia, fui apresentado formalmente ao Queen.

Não! Não foi enquanto eu riscava linhas paralelas em papel vegetal com canetas Nankin. Nos finais de semana, para complementar a renda, eu ia lavar o carro do patrão. O fusquinha creme, ano 73, me rendeu muitos trocado se me ensinou a dirigir. Enquanto esfregava a lataria do 1300, ouvia o som que vinha do potente 3 em 1 que o Vítor exibia com invejável orgulho. O cara me catequizou o quanto pôde para eu me converter ao Rock’n Roll. Acho que deu certo, mas na verdade eu só voltava mesmo era pela grana e para dar uma volta de carro, assim que ele adormecia, depois que a cerveja fazia efeito.

O tempo passou, e eu não consegui me desprender do universo da criação. Comecei copista até entender que ser original seria mais interessante; e entender também que até para isso a gente tem que aprender a copiar. Com estilo, é claro.

 

Enquanto assistia à cinebiografia da banda, um outro filme passou na minha mente. Como os percalços, desafios, intempéries, buracos, barreiras, obstáculos, contratempos, dificuldades, problemas, complicações, adversidades, transtornos, embaraços, entraves, incômodos, acidentes e estorvos da vida são tão valiosos.

Imagine um imigrante dentuço que fazia design, e outros três ingleses, um estudante de odontologia briguento, outro de astrofísica cheio de ideias, e outro tímido estudante de engenharia elétrica. Sim, essa era a miscelânea que resultou na banda de rock mais prolífica de todos os tempos. E acredito que a variedade de suas origens e desejos pessoais eram um bom tempero, que tornou o processo criativo efervescente, dando à sua obra status de originalidade nunca antes visto.

Claro que tudo isso teve um preço, e não foi barato. Não darei spoilers aqui. Aquiete o seu espírito aí, se ainda não assistiu ao filme.

Eles experimentaram. Muito. E isso gerou muita confusão entre os membros e produtores da banda. É mais fácil achar uma fórmula e segui-la, como a maioria faz.“É mais seguro”, alguns diriam. Mas, para Farrokh Bulsara o buraco não era mais embaixo, senão onde quer que ele desejasse. Não conhece o Bulsara? Talvez o conheça pelo pseudônimo de Freddie Mercury. O cara que inventou um jeito colaborativo de produzir música, difícil de ser copiado. Sim, porque depende de sorte, é claro, para encontrar as pessoas certas, que geram a química adequada, e de sagacidade para tirar o melhor das pessoas envolvidas, e não exceder ao ponto de quebrar essa cadeia de elementos. Quase um tipo de mágica!

Todos os membros do Queen, cada um deles, tinham talentos impressionantes. Mas, foi a combinação dos quatro elementos que criou o seu efeito explosivo. Todos eram ótimos sozinhos, mas, combinados, eram praticamente insuperáveis. Rock clássico, progressivo, opera, hip-hop, dance, etc.; só para dar um vislumbre simples do que os caras eram capazes. E não eram apenas experimentações às cegas. Eles têm “hinos” em praticamente todos os gêneros que ousaram tocar.

Bohemian Rhapsody é a pedra de toque do quarteto. É uma obra-prima, que pode ser usada para avaliar toda a trajetória singular do Queen, como grupo musical, como laboratório criativo, como case de sucesso, como modelo de família, como prova de que a finitude das coisas e das pessoas pode tornar o resultado da nossa criação impossível de prever.

A canção, que dá nome ao longa de Bryan Singer, ainda vai tocar por muito tempo,aos ouvidos de muitas gerações, pelo simples fato de que não foi escrita apenas por um homem, mas por uma ideia que ganhou vida na mente e no coração de outras três pessoas. Gente que sabe que não vai viver para sempre, mas acredita que a sua música tem essa chance, se for feita com a emoção certa, a despeito ou tirando proveito de todas as pressões que a vida lhes impuser.

Filosofia

Ódio ao elogio I

“Suportam melhor a censura os que merecem elogio.” 
ALEXANDER POPE

Lápides são os lugares onde eles estão. Epitáfios são pequenas odes escritas para louvar aqueles que ali jazem, sob um amontoado de terra, concreto e mármore. Todos — ou pelo menos a grande maioria — são bons depois de abraçar a morte. O que há de tão especial em não mais existir? Diante das câmeras, os que morreram são descritos como alegres, mães e pais dedicados, pessoas cheias de vida, e com sonhos ainda por serem realizados.

Por que o elogio é tão poderoso?

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Os estereótipos, tanto positivos quanto negativos, perturbam a mente. Quando você recebe um rótulo positivo, receia perdê-lo; ao receber um negativo, receia merecê-lo. Carol Dweck, uma das maiores especialistas nos campos da personalidade, nos ajuda a compreender como nos tornamos contumazes amantes da mentira. “No mindset fixo, as imperfeições são vergonhosas, especialmente para talentosos, e por isso eles preferem escondê-las”, afirma. O que é alarmante, diz Dweck, é que trabalhamos com crianças normais e as transformamos em mentirosas, simplesmente porque lhes dissemos que eram inteligentes.

Em um de seus estudos, ficou provado que o simples ato de elogiar interrompeu o desenvolvimento dos participantes. Voluntários que receberam elogios comuns, cumprimentando a sua “inteligência”, tiveram dificuldades em prosseguir com o teste, mesmo depois de terem obtido bons resultados. Por outro lado, a turma que recebeu feedback sobre o valor de seus esforços continuou bem nos testes seguintes. Dweck concluiu que é perigoso exaltar a inteligência das pessoas como um talento permanente. Quem recebe elogios grátis se viciam rápido no prazer de ser exaltado, teme perder esse status, e passa a proteger uma situação que inevitavelmente vai fugir por entre seus dedos. Segundo a professora, a dedicação permanente sobre o nosso aprendizado é o melhor caminho. “Como esse estudo era uma espécie de teste de QI, é possível dizer que elogiar a capacidade reduziu o QI dos alunos, e elogiar o esforço elevou-o”, defende.

Enfim, por mais difícil e trabalhoso, o mindset de crescimento é a solução; e está ao alcance de todos, basta um desejo desvinculado dos falsos elogios. O mindsetfixo limita as realizações. Enche a mente das pessoas com pensamentos perturbadores, “torna desagradável o esforço e leva a estratégias de aprendizado inferiores”, diz Carol Dweck. Para ela, essa mentalidade fixa transforma as outras pessoas em juízes, em vez de aliados.

O elogio desmedido, mesmo que bem intencionado, de acordo com a ciência, pode ser o veneno que mata o espírito criativo das pessoas. Depois de atingir um determinado patamar, primeiro sentimos medo de sair dali e não chegar a um lugar tão bom ou melhor que o anterior; e a segunda metade do desespero é voltar ao antigo local de glória e ele já estiver ocupado. Resultado: colamos os pés no lugar que consideramos o mais seguro do mundo. Novas experiências, jamais!

A sociedade parece viciada em palavras adocicadas, como numa fantástica fábrica de chocolates — O que acham do meu cabelo… da minha sandália… do meu prato… do meu vinho… do meu carro… da minha casa… da minha piscina… do meu marido… mulher… cachorro… filhos… cachorro… do meu candidato… de mim?! — Quanto mais curtidas, e “lindos” e “lindas”, melhor; mesmo que não sejam sinceros.

A nova moeda é o Like; “se ela não curte as minhas coisas, então eu não curto as dela também”. A cada 5 minutos a gente abre o celular para tomar mais uma dose de endorfina. O problema é que os elogios vazios não nos emancipam, eles tendem a nos manter algemados às certezas que não nos emocionam.

Continua…

Filosofia

A PARÁBOLA DA CRIATIVIDADE

MONALISA_BLICKA gente vê o tempo todo que as pessoas preferem atalhos para atingir o que muitos chamam de sucesso. Ironicamente, no dia a dia, para evitar desconforto, a maioria prefere também o caminho mais trilhado. Quando optam por um atalho, quase sempre é um que representa a certeza absoluta para atingir o objetivo almejado.

O conceito de sucesso é ambíguo.

De acordo com qualquer bom dicionário, “su.ces.so” seria um substantivo masculino: aquilo que sucede; acontecimento. Resultado, conclusão. E, para a maioria das pessoas, a parte que realmente interessa seria: êxito, resultado feliz. Em alguns casos, na cultura brasileira, até um parto pode ser chamado de sucesso.

Sucesso vem da sucessão de eventos. O que acontece logo em seguida do que estávamos fazendo. O resultado, não importa se bom ou ruim. O problema é que somos viciados no artificial gostinho doce da tal felicidade. Temos dificuldade em lidar bem com resultados que não se parecem com o esperado. Amassamos a folha e a lançamos em uma parábola, direto na lata de lixo.

A nossa cultura, de forma geral, lida mal com o que chamamos de insucesso. Temos dificuldade para reciclar ideias que não deram certo.

O erro constrange.

Se a nota for menor que 10, a gente berra. Se o quadro não agradou a crítica, o machado entra em ação. Se o texto não gerou muitas curtidas, abrimos uma garrafa de cachaça. Se o layout fez o cliente torcer o nariz, metemos um estilete na cartolina. Se a música gerou vaias, quebramos o violão no meio do palco. Se o nosso candidato não ganhou, choramos amargamente de punho fechado em riste.

A vida continua, inevitavelmente.

Cada papel amassado contém o DNA de um sucesso. Um fato simples que sucede os anteriores, e que pode se tornar algo grande se observado por outras perspectivas. A criação depende muito mais de como olhamos para a vida do que de nossa bagagem intelectual e acadêmica. O repertório que sempre facilita o verdadeiro “sucesso” em projetos criativos depende das emoções que investimos durante a nossa busca.

Da Vinci tinha o hábito de fazer longos passeios fora da cidade, na esperança de entender como a natureza funcionava. Os detalhes fascinavam o cara. Leonardo perdia um tempão observando a construção da sombra, o movimento da água numa cachoeira e como um pássaro voava. E não pense que acabava aí. Quando voltava para a cidade, era hora de observar as pessoas. Cacoetes, trejeitos e manias povoavam seus famosos cadernos de anotação.

O mestre italiano, nascido em 1452, bem no meio da janela histórica que chamamos hoje de renascimento, chamou a atenção de todos na época e de nós, 566 anos depois, simplesmente porque o número de obras inacabadas e rascunhos excede o que ele conseguiu entregar aos seus clientes. Claro que suas obras finalizadas são magníficas, enigmáticas e irretocáveis, mas o que impressiona o mundo da arte até hoje era o seu perfeccionismo. Ele anotava tudo, e tudo servia de inspiração. Seus rascunhos eram tão cheios de graça que tornaram-se tão ou mais valiosos que suas obras oficiais. Pergunte isso ao Bill Gates, que pagou 30 milhões de dólares por um dos cadernos de Da Vinci.

Publicitários leem muita literatura sobre publicidade; marqueteiros sobre marketing; jornalistas sobre jornalismo; artistas plásticos sobre história da arte; médicos sobre medicina, feministas sobre feminismo, etc. E isso está super correto. Entretanto, o nosso trabalho torna-se muito melhor quando exploramos novas possibilidades, quando olhamos para o outro lado da janela. Experimentar vai fazer os nossos rascunhos parecerem imbecis, às vezes, mas não amasse e jogue a folha fora. Esse pedaço de papel pode conter a chave para um evento futuro que ainda não sabemos. Aposto que você já correu atrás da faxineira quando lembrou que naquela folha descartada tinha algo que acabou salvando o dia (e o seu emprego).

Não há certeza para o sucesso, assim como não há certeza para nada. A previsão do tempo já provou isso muitas vezes. Ninguém casa pensando em divórcio, ninguém compra um carro pensando em acidentes, ninguém escreve um livro pensando em colocá-lo na gaveta apenas para si mesmo (se bem que alguns já fizeram isso). Enfim, antes de fazer aquela parábola com o seu rascunho, pense o quanto ele pode ser útil.

Não existem atalhos para o sucesso, simplesmente porque ele é apenas o que acontecerá logo depois do agora. Então, matematicamente falando, o que acontecerá daqui a pouco depende apenas das nossas decisões, sejam elas quais forem. A maioria dos nomes que marcaram a história positivamente fizeram coisas estúpidas em suas épocas; isso é um fato. O criativo é um alquimista por essência — segue insistindo na combinação de ideias e na colaboração com outras pessoas para transformar folhas de papel em pedras preciosas.

criatividade, Filosofia, inteligência artificial, tecnologia

É PERIGOSO SER OBSOLETO

“Qualquer tolo inteligente pode fazer com que as coisas fiquem maiores e mais complexas […] mas é preciso […] muita coragem para seguir na direção contrária.” – Albert Einstein

 

A frase que ilustra o título acima está na página 105 do livro 21 Lições para o Século 21, editora Companhia das Letras, escrito pelo cara que resolveu assustar todo mundo: Yuval Noah Harari. “O surgimento da IA pode extinguir o valor econômico e a força política da maioria dos humanos”, disse o historiador, no mesmo livro. Para ele, a ascensão da tecnologia nas áreas de bioengenharia e inteligência artificial poderiam, juntas, resultar na divisão da humanidade em uma pequena classe de super-humanos e uma massiva subclasse de Homo sapiens inúteis.

Em um possível cenário futuro, no qual boa parte do trabalho será feito por máquinas, que não recebem efetivamente pelo que fazem, e nem demandam direitos trabalhistas, possivelmente afetará a situação econômica e política dos trabalhadores de carne e osso, gente que precisa de leis e direitos para viverem em sociedade. Entretanto, uma vez perdida essa relevância, o Estado poderia perder também o interesse em investir na sua saúde, sua educação e em seu bem-estar social. A paixão que nos conecta às máquinas poderá ser o motivo de nos tornarmos obsoletos.

O que você quer ser quando crescer?

Para muitas famílias abastadas talvez essa pergunta ainda faça sentido. Mas, para muitos que vivem em situação precária, sem esperanças concretas, talvez, ao invés de tentar ensinar caminhos para a emancipação econômica, melhor seria prepara-los para usar uma arma. Claro que são apenas conjecturas, mas precisamos pensar a respeito. Famílias ricas poderão pagar para que seus filhos aprendam o que será melhor para eles, e mudar a direção e se adaptar com mais facilidade, caso seja necessário. Famílias pobres mal conseguem comer. O máximo de adaptação que conseguem, muitas vezes, é colocar o feijão por cima ou por baixo do arroz.

Parece sombrio demais, mas não é nada diferente do que sempre foi.

Até onde sabemos houve uma turminha que mandava e uma galera que obedecia. O rei e a hiena, o leão e o bobo da corte, os burgueses e a plebe, os predadores e a manada. Enfim, no caso dos sapiens, premeditamos nossos atos; criamos e manipulamos sistemas contra e a favor, dependendo das regras do jogo, e dos jogos de interesses. E, hoje, o conhecimento é a arma mais poderosa, a moeda mais valiosa. Estamos colocando lentes e sensores em todos os cantos do mundo; em carros, esquinas, sobre e sob a pele das pessoas, e onde mais for possível.

O poder de prever atitudes humanas é o Santo Graal, há muito buscado. Quem não gostaria de saber exatamente se vai chover ou não, ou qual papel vai subir na bolsa de valores, ou, quem sabe, qual produto vai vender mais? Melhor, em quem as pessoas vão votar?

Esse poder encanta e seduz; quem o tiver governará o mundo.

Segundo Stephen Hawking, sempre ansiamos por compreender a ordem subjacente do mundo. Para ele ainda hoje almejamos saber por que estamos aqui e de onde viemos. “O desejo profundo da humanidade pelo conhecimento é justificativa suficiente para nossa busca contínua”, defende. Mas, a que custo? Maridos e esposas dariam qualquer coisa para saber o que passa na cabeça de seus parceiros. E, não se engane, empresas e governos do mundo todo também. Essa informação é valiosíssima. E com a evolução das tecnologias digitais, poderemos mais do que sugerir pensamentos, ditar o que você pode e deve fazer.

Já demos ao Google e aos muitos algoritmos a autoridade para dizer a nós qual a melhor decisão. Com o tempo, será quase impossível decidir algo sem perguntar a um dispositivo eletrônico se estamos no caminho certo.

Depois de assistir à palestra “Why some of us don’t have one true calling”, com Emilie Wapnick, no TEDxBend, comecei a pensar em como será esse cenário amargo e sombrio para a maioria das pessoas que ainda não entenderam perfeitamente o seu papel na vida. Ela, de forma bem interessante, fala da teoria dos Multitalentosos, gente com vários potenciais e, na maioria das vezes, com nenhum deles verdadeiramente bem definido ou desenvolvido. Esse povo que anda com taxas de ansiedade no talo; tentando de tudo, seguindo várias possibilidades, indo fundo naquilo que atiça uma paixão incontrolável e, em algum momento, quando o fogo se apaga e o tédio se acumula, seus olhos são levados para outra direção. Lá vão eles de novo, em busca de algo novo para manter o seu coração batendo na velocidade certa: o máximo possível. A mente quase explode.

Claro, nem todo mundo é Multipotentialite, como Wapnick chama a ansiosa galera que possui uma penca de talentos mal desenvolvidos. Os multitalentosos são seres dotados de uma curiosidade acima da média, com dons criativos espetaculares, cheios de energia e vontade de transformar o universo ao seu redor. Porém, vivem em um mundo que insiste em torna-los especialistas em alguma coisa. Haja frustração. Quando crianças, nos perguntam o que queremos ser no futuro, mas a maioria das vezes é para rirem das respostas engraçadinhas que damos. Parece que ainda há tempo suficiente para decidirem sobre isso, em escolas que dificilmente serão sensíveis para oferecer oportunidades de harmonizar os muitos talentos que alguns têm.

É perigoso ser obsoleto?

Claro! Sem a menor dúvida. Mas, a pergunta mais importante seria: o que é ser obsoleto?

Paul Bloom, em outra palestra no TED, fala sobre As Origens do Prazer. Interessante ver como o valor das coisas varia de acordo com o seu nível de originalidade e a sua história. Obras de arte possuem valores exorbitantes se lhes são conferidos atributos que as tornam únicas. Marcas de telefone, refrigerantes, carros e vinhos, por exemplo, são mais caras que outras porque existem histórias muito bem contadas pelas agências de publicidade que as vendem. Uma caneta talvez custe apenas alguns dólares, mas uma caneta que assinou a declaração de independência dos Estados Unidos muda tudo. Até você descobrir que não haviam canetas naquela época.

E o que isso tudo tem a ver com os talentosos sem rumo e o iminente apocalipse que nos tornará obsoletos?

Boa pergunta!

Nem todos serão capazes de superar os desafios que, inevitavelmente, assolarão o mundo muito em breve. Haverá muros separando os “bons” dos “maus”. Sejam eles físicos ou sociais, não importa. O que importa mesmo é aprendermos a lidar com as nossas próprias limitações emocionais. Multitalentosos aprendendo a conectar seus múltiplos potenciais, a fim de construir processos criativos mais saudáveis, aliados àqueles que se veem mais confortáveis alimentando um talento apenas, mas de forma profunda e dedicada. Essa união pode dar força para criações estáveis, cheias de possibilidades, pois os envolvidos não se importaram em testar todas as conexões possíveis. Assim há menos ansiedade, talvez. Não menos máquinas, mas dispositivos cada vez mais humanizados, empreendendo dentro de um universo em que o conhecimento compartilhado é usado para tornar nossas vidas cada vez melhores.

À medida que a tecnologia nos ameaça com a obsolescência, acontece alguma coisa. Essa ansiedade nos move na direção do problema. Dessa vez, será preciso um salto maior, mais perigoso e sem muitas certezas do resultado final. No entanto, devemos ir em busca do “true calling”, como Emilie Wapnick diz, mesmo sem nenhuma certeza se estamos indo na direção certa, pois ainda não temos um dispositivo eletrônico capaz de responder às perguntas que nos assombram todos os dias; mas, temos corações e cérebros movidos a impulsos elétricos, nos deixando não muito longe das máquinas que tanto nos assustam.

 

Filosofia

TODA DOR VEM DO DESEJO

Grandes descobertas e invenções muitas vezes são fruto do acaso. A história já nos provou isso. Mas, esse tal “acaso” não era simplesmente um tropeço na ideia e pronto. Na maioria das vezes, a pessoa envolvida já estava debruçada sobre o projeto há tempos, mas ainda sem sucesso.

Até que um resultado totalmente diferente do esperado muda tudo.

Escrevendo uma sinfonia baseada no comportamento da natureza, como Vivaldi; ou pesquisando os efeitos da radioatividade, como Marie Curie; ou talvez em busca de substâncias capazes de matar ou impedir o crescimento de bactérias em feridas infectadas, como Fleming; ou, quem sabe, escrevendo uma cartinha de amor e daí criar uma obra prima da literatura universal, como você.

Não jogue seus rascunhos fora. Guarde-os!

O acaso, já dizia Pasteur, só favorece os espíritos preparados “e não prescinde da observação”. A curiosidade é o elemento-chave que nos torna criativos. Sem isso, mesmo com tudo a nosso favor, nada se cria e nada se transforma. Ao contrário do que defende os Titãs, o acaso não vai proteger você, enquanto andar distraída. Presta atenção, porque sempre há um jeito novo de se fazer coisas velhas. Isso é ser curioso, isso é reinventar o mundo. Isso é o poder de se reinventar!

A plasticidade de nossos cérebros e as infinitas possibilidades desse diverso mundo nos garante passagem livre para a novidade, mesmo que pareça estranho (e sempre é) num primeiro momento.

A curiosidade é uma “dor” que nos incomoda. Uma coisa que coça nos cantos da nossa mente. A gente pergunta e questiona o tempo todo, de várias formas. Mas, na maioria das vezes preferimos respostas bem definidas e, de preferência, definitivas. Quando sentimos que o chão começa a se mexer dá um mal estar — lá vamos nós de novo. Os terremotos precedem mudanças. As coisas nunca vão ser ou estar no mesmo lugar eternamente. E isso incomoda muito: afinal, quem não gosta da ideia de paraíso?

A tal dor faz a gente entender tudo sobre uma doença que aflige uma pessoa que amamos. Ela, a dor, também nos faz superar limites para impressionar pais que nunca estão satisfeitos com os nossos resultados na escola. Ela, de novo, moveu artistas devotos ou invejosos que queriam derrubar uns aos outros durante o renascimento, a fim de, mais uma vez, impressionar ricas famílias que comprariam suas obras para as expor em requintadas salas de estar, para impressionar outras famílias ricas.

A criatividade vem de uma dor. Uma vontade de superar limites, próprios ou alheios.

Esse sentimento potencializa nossa curiosidade, em busca de lados e profundidades que ainda não foram experimentados. A opressão do Império Romano fez com que os primeiros cristãos inventassem métodos cada vez mais alternativos para continuarem a evangelizar, escapando das arenas cheias de areia, sangue e leões famintos. O período pós 64, no Brasil, inspirou muitas músicas e literatura que surpreenderam pelo refinamento, em níveis capazes de burlar a censura sem perder a mensagem que precisava ser passado ao público. Dias difíceis tornam a curiosidade um elemento explosivo. Nada fica livre do seu poder.

Amores impossíveis criam poetas. Prisões de segurança máxima criam fugitivos cinematográficos. A Guerra Fria levou astronautas e cosmonautas ao espaço, numa clara disputa de poder. A “dor” de Hitler, descrita em seu livro, acabou matando milhões de inocentes. A falta ou excesso de água nos obriga a tomar providências que garantam a nossa sobrevivência. Ou seja, o fio cortante da vida está à espreita, exigindo o tempo todo uma atitude de todos os seres vivos. Em nosso caso, podemos raciocinar a respeito, e nos envolver de muitas formas, mas só a dor emocional vai nos fazer ir na direção do problema, cheios de coragem e medo, a fim de resolvê-lo.

Benção ou maldição? Ninguém pode afirmar. A dor de não saber vai continuar a nos mover na direção de um futuro que nunca poderá ser previsto, apenas vivido, com versões cada vez mais interessantes de desafios a nos inspirar para o bem e para o mal. Afinal, o que é o bem e o que é o mal? Eis a dor.

criatividade, Filosofia, tecnologia

Deus da Criatividade

“Uma mente ativa demais não é mais uma mente”

Essas são palavras de Theodore Roethke. Não, ele não se formou em neurociência, o cara era um poeta, um dos melhores de sua geração. Roethke morreu em 1963, aos 55 anos; ou seja, as duas grandes guerras mundiais, e suas consequências, lhe serviram de inspiração. Viu o que de pior o ser humano pode produzir, e escreveu sobre isso.

Não se preocupe, o papo aqui será sobre criatividade. O peso de guerras e conflitos será deixado de lado, pois já estamos sob pressão demais nesse momento em nosso país.

Já escrevei sobre o tema no texto O Demônio da Criatividade, mas quando li a matéria A Era da Burrice, publicada pela Revista Super Interessante, resolvi voltar aos rascunhos e tentar construir algo para descrever o que se passa, pelo menos na minha cabeça; já que a bendita não sossega nunca. Quem já me conhece ou leu meus textos sabe que ando estudando a mente humana e o processo criativo. Nesse caminho, que já dura alguns anos, pude perceber que existe informação de sobra, mas a maioria acaba sendo ou inacessível ou sem muita credibilidade.

A criatividade é “vendida” como uma coisa, um presente, uma dádiva. Como sempre chocou e surpreendeu o mundo, era mais fácil dizer que havia algo de espiritual e mágico nela, principalmente porque a turma envolvida em projetos criativos era gente de expressão, pessoas com acesso a recursos financeiros. Pessoas criativas ganhavam status. Daí a necessidade de se cobrar ingressos caros para se ter acesso ao Olimpo, onde moravam os gênios, deuses da criação humana, aqueles que com o toque de suas mãos mudavam os rumos da humanidade.

No primeiro texto, o “demônio” era a depressão e a sua capacidade de nos pressionar em muitas direções, para pulsos de genialidade, mas, muitas vezes, para abismos escuros de onde poucos conseguem voltar ilesos. Não vá imaginar que o Deus da Criatividade seja um nêmesis, que luta ou lutaria contra um possível demônio, como numa lógica Yin e Yang. Há muito nesse universo a ser discutido, e não seria possível esgotar o assunto aqui nessas poucas linhas.

Durante a leitura do livro O Caminho do Artista, da escritora e dramaturga Julia Cameron, comecei a pensar sobre essa coisa de espiritualidade no processo criativo. Ela defende uma força espiritual metafísica, quase ou totalmente religiosa, todavia diz também que não é necessário que o leitor abrace isso para despertar a sua “força interior” e liberar a sua criatividade, derrubando os bloqueios em seu caminho como artista. Lembrando que artista aqui são todas as pessoas que sentem vontade de se expressar, e isso inclui todo ser humano vivo, em menor ou maior escala.

Esse é o Deus da Criatividade para Cameron. A força que nos emociona. Essa energia que nos move a conhecer as coisas e as pessoas; a descobrir o mundo, a viajar e romper limites. Para ela, esse é o poder que circula em uma planta, vindo de sua raiz, passando por todo o seu corpo até as suas extremidades, onde estão flores coloridas, à espera de que sirvam para decorar o mundo e ser palco de algum inseto que leve algo daqui para outro lugar, onde poderá servir de inspiração para criar coisas novas e renovar o espaço onde vive.

Claro que essa tal força é dependente do solo onde está plantada. Assim como nós dependemos da forma como alimentamos o nosso repertório. Nossas emoções são escravas da dieta que oferecemos ao nosso cérebro, das experiências que vivemos; cada uma delas. O que lemos, ouvimos, falamos, assistimos; as pessoas com quem convivemos. Isso tudo forma um ecossistema interno onde flui um espírito que governará nossas decisões. Um Deus só nosso, capaz de qualquer coisa, mas que depende de como alimentamos a nossa relação com esse mundo interior.

Não existe criatividade. O que existe é a natureza humana, e a sua insaciável fome por novidades. A nossa capacidade de criação depende da forma como alimentamos nossos sentidos. Todos eles. A tecnologia nos pegou de surpresa e estamos sendo tomados de assalto, dia após dia, com uma quantidade de informação e novidades que não conseguimos dar conta. Isso veio nos emancipar e mudar completamente nossos horizontes e possibilidades; mas está nos deprimindo de muitas formas, e, de outras, nos tornando burros e insensíveis. Na palma da mão vem tudo pronto; não precisamos imaginar quase nada. E começa a ficar impossível desejar um mundo diferente disso. Existem aplicativos para matar quase todas as nossas vontades e resolver quase todos os nossos problemas. As pessoas mais criativas do momento são aquelas que inventam App’s que tornam as nossas vidas cada vez mais fáceis; e estamos adorando isso.

Mas, até quando?

As estatísticas, no mundo todo, já mostram que as crianças estão tendo dificuldades para lidar com textos, e, por isso, perdem até mesmo a capacidade de falar com fluidez, daí, comprometendo a capacidade de articular ideias. Será que o homo sapiens, que saiu da sua condição de caçador-coletor, pois conseguiu se valer do poder da linguagem, e, depois, criou linguagens de programação, capazes de codificar computadores, escreveu, talvez, a sua própria sentença de morte?

Estamos transferindo para dentro de máquinas digitais, pelo menos tentando, o tal Deus da criatividade: a força que nos diferencia de toda a criação viva desse planeta. Em breve, tudo será feito em uma tela sensível ao toque. Em breve, talvez, espero que não, tenhamos perdido a nossa própria sensibilidade. Essa capacidade de perceber o mundo através dos sentidos, alimentando o “espírito” que dá vida às ideias que povoam o nosso imaginário. Mas, para isso, precisamos de motivos. Parece que nos viciamos tanto no conforto dos botões que aprendemos a apertar que, até a fé necessária para manter o Deus da Criatividade pulsando, vai precisar de um aplicativo para continuar viva.

Uma mente ativa demais não é mais uma mente; talvez seja uma oportunidade para encontrar a nossa humanidade, e nos reconectar à realidade, aquela que não tem um botão de reset, que nos obriga a sermos únicos, donos de nossos próprios caminhos. Utópico? Claro, ora! Não seria se não fosse sedutor e extravagante. Dá medo, sim, ter opiniões próprias e andar sozinho, às vezes; mas, mesmo que demore, a gente acaba achando alguém que se identifica com o perfume das flores que produzimos, que curte o que criamos. Só não podemos é ter medo de nos mostrar ao mundo. Nunca!

Amém…

Comportamento, criatividade, Filosofia

NÃO EXISTE FUTURO

…a menos que seja criado com crítica, criatividade, comunicação e colaboração

Quando o pau comeu durante o ludismo, movimento social ocorrido na Inglaterra entre os anos de 1811 e 1812, ninguém entendia porque aqueles sujeitos estavam tão putos com a evolução tecnológica. Contrários aos avanços ocorridos na Revolução Industrial, os ludistas protestavam contra a substituição da mão de obra humana por máquinas. O nome do movimento deriva de um dos seus líderes, Ned Ludd.

Theodore Kaczynski também protagonizou algo parecido. Entre 1978 e 1995, Unabomber, como ficou conhecido, enviou 16 cartas-bomba, muitas delas contra universidades, que deixaram três mortos e 23 feridos. Adolescente superdotado, ele havia seguido uma carreira brilhante como matemático, graduando-se em Harvard, doutorando-se na Universidade de Michigan e chegando a professor-assistente em Berkeley. Olha o nível do cara.

Kaczynski, como os ludistas, não gostava do rumo que a tecnologia estava tomando e temia consequência graves para o mundo, principalmente nos países mais pobres. “A revolução industrial e suas consequências foram um desastre para a raça humana. Aumentaram a esperança de vida dos que vivem em países avançados, mas desestabilizaram a sociedade e condenaram os seres humanos à indignidade”, trecho de seu manifesto publicado nos jornais The Washington Post e The New York Times. Em troca pela publicação ele prometia deixar de promover atentados. Hoje, cumpre 8 penas perpétuas em Florence, Colorado.

A sua prisão, após anos despistando o FBI, foi uma grande ironia. Ele só foi capturado porque o seu irmão mais novo David identificou traços de seu discurso exatamente no texto publicado nos jornais. Os agentes chegaram à sua cabana, no meio da floresta, bateram na porta e foram recebidos sem nenhuma cerimônia pelo terrorista mais procurado dos Estados Unidos. Caso encerrado.

Só que não.

Estamos todos extasiados com o que a tecnologia tem feito por nós. E, a cada dia, ela se torna cada vez mais democrática. Atingindo mais pessoas em todos os cantos do mundo. Hoje, é praticamente impossível dizer onde a tecnologia da informação não está presente. Está cada vez mais barata e muito mais intuitiva. Não há quem resista aos seus encantos. A vida sem um dispositivo eletrônico é quase impossível. Tente imaginar passar apenas um só dia sem contato com seus brinquedinhos de telas brilhantes.

A leitura do livro 21 Lições para o século 21, de Yuval Noah Harari, tem chamado a minha atenção. Já me incomodava a ascensão da tecnologia a níveis cada vez mais altos, tomando conta de nossas vidas, em setores críticos. Adoro a tecnologia, sim. Sempre me encantei com ela. Foi paixão imediata quando me deparei com um computador pela primeira vez. Mas, muita coisa mudou desde 1985. Computadores não são mais enormes caixas brancas colocadas sobre mesas de mogno, à espera de serem ligadas por um programador experiente. Hoje, qualquer criança de pouca idade tem em suas mãos dispositivos com o poder de processamento maior que o utilizado pela NASA para mandar o homem à Lua.

O que tem me assustado na verdade são as recorrentes matérias sobre o futuro dos empregos e, por esse motivo, também o futuro dos sistemas de ensino. Haverá escolas como as conhecemos em 2030 ou 2050. O Fórum Econômico Mundial já defende há algum tempo as habilidades para o profissional de um futuro não muito distante. Eles mesmos já resumiram a famosa lista que tinha 10 itens para apenas 4, com o que consideram mais importe. Daí nasceram os 4C’s, ou seja, pensamento Crítico, Criatividade, Comunicação e Colaboração. Quatro itens que, ironicamente, não estão presentes na maior parte das escolas do mundo.

Se vivemos em um mundo que amplia a ação da tecnologia cada vez mais para posturas ativas, dando-lhe autonomia para tomar decisões baseadas no aprendizado que acumulam das interações com os humanos, como será nos próximos 20 ou 30 anos se ainda precisamos motivar praticamente toda a população mundial para um caminho que as próprias máquinas já estão indo e muito mais rápidos que nós?

Haverá empregos? Ou, ainda precisaremos de empregos?

Resumo da primeira Revolução Industrial: bastava o aperfeiçoamento de habilidades básicas em leitura e matemática; os professores são especialistas ou dominam bem as suas próprias áreas; a experiência de aprendizado é baseada no modelo industrial em série, passivo, estruturado e dirigido em massa; o tempo de vida escolar é definido e só acontece em salas de aula comuns.

Resumo da Quarta Revolução Industrial: precisa haver um desenvolvimento holístico, com ênfase nas múltiplas inteligências; o professor deixa de ser o centro das atenções, e passa a ser um facilitador no processo; a experiência de aprendizado torna-se personalizada, ativa, pautada na exploração e busca auto dirigida; o tempo de aprender não tem fim; todos podem e devem ensinar; o acesso ao aprendizado acontece em todos os lugares e através de todos os meios disponíveis.

Harari fala de uma possível crise, pois a evolução tecnológica está acontecendo muito mais rápido do que conseguimos dar conta. Todas as sociedades estão sofrendo mudanças drásticas com a implantação de constantes novos recursos. Quase não é possível uma adaptação plena das novidades, até que outra já esteja disponível. Fica cada vez mais sufocante. O crescente poder das máquinas e a incapacidade de lidarmos com a sua presença em quase tudo em nossas vidas vai pôr em risco o mundo como o conhecemos?

Estamos acostumados a esperar que nossos governos façam alguma coisa. Afinal, nas democracias a gente coloca o poder nas mãos de governantes para que eles nos salvem, muitas vezes de nós mesmos. E sabemos que não é tão fácil assim, por muitos motivos. As máquinas vão continuar assumindo o controle, até porque é inevitável que seja diferente. Odiamos trabalhos repetitivos. Na verdade, odiamos trabalhar. Só o fazemos porque nos pagam por isso. O mercado prefere as máquinas pois são mais confiáveis, mais obedientes e mais baratas. Ou seja, se não quiser, em breve, se tornar um inútil comece a pensar diferente, e agir diferente.

As máquinas já estão nos monitorando, aprendendo o máximo que puderem. Elas ainda não têm vontade própria, são apenas brinquedos sofisticados nas mãos de especuladores em busca de lucro. Foi assim no passado distante e deverá ser assim por um bom tempo. A menos que as escolas ou outro meio nos ajude e sermos mais criativos, com nosso senso crítico estimulado em níveis mais consideráveis, valorizando a comunicação franca e aberta e o poder da colaboração.

Os computadores antigos não ofereciam tanto “risco” à humanidade, até que foram ligados em rede e começaram a trocar informações. Isso mudou tudo. A humanidade também mudou a sua própria história quando acreditou que a Terra não era o centro do universo, e que nem mesmo era plana, e que poderia haver muito mais além do horizonte.

O medo está fazendo com que muitos países comecem novos ciclos de nacionalismo, fechando fronteiras. Antigas ideologias que foram o terror do mundo no passado começam a nos assombrar. Estariam os ludistas de volta? Precisamos ter medo do futuro e ameaçá-lo com bombas? Passamos tempo demais achando que estava tudo bem, deitados eternamente em berço esplêndido. As questões que a história oferece a quem ainda está vivo, e consciente de sua existência, precisam ser respondidas no tempo certo. E, hoje, as demandas são cada vez mais complexas.

Não existe futuro, como nunca existiu. Só existe o presente e o que fazemos nele. O tempo imediato é a oportunidade para fazemos o que deve ser feito. Erramos e acertamos e no seguinte momento imediato a vida nos cobra a conta.

Esperar que algum governo simplesmente nos governe, mostrando a direção, com bandeiras e ideologias, muitas vezes antiquadas, vai acabar nos atrasando ou pondo todo a perder. Claro que é preciso um governo, mas não dá para ficar de braços cruzados à espera de um milagre. O presente exige crítica, criatividade, comunicação e colaboração. E isso dificilmente será oferecido de graça por um governo tradicional, pois seria o antídoto para a sua própria ineficiência. E eles dificilmente vão querer largar o osso. Vamos ter que tomar a força, ou estaremos condenados.

Claro que para que isso funcione bem vamos precisar de muito senso crítico, criatividade, comunicação e colaboração sem precedentes. Pois, sem isso, estaremos condenados a continuar como estamos, e isso já uma condenação. Talvez, a pior de todas!

Comportamento, Filosofia

A LÓGICA DO PREDADOR

Notícias ruins são as nossas preferidas. Duvida? Então, por que sempre que há duas notícias, uma boa e outra ruim, pedimos a ruim primeiro? Quando descemos das árvores para começar a caçar e coletar, o grito “Olha o predador aí!!!” fazia muita diferença entre a vida e a morte. Ele precisava fazer muito mais sentido do que “Tem mais morangos ou presas carnudas do outro lado do rio!”. Se estiver morto não adianta de nada a “mesa” farta. A vida precisa continuar, como um bom show…

Nossos cérebros foram treinados durante o processo evolucionário para dar mais atenção às más notícias, como um simples recurso de sobrevivência. Bertolt Brecht, milênios mais tarde, diria: primeiro a boia, depois a ética. Sem comida, não há motivos para outro tipo de esperança. Uma vez de barrigas cheias, dá até tempo de filosofar. Arrumar brigas com o bando, a tribo ou o país vizinho; inclusive postar uma foto sobre isso. Gente faminta não tem tempo para o bom senso. Esquecemos daquilo que nos faz humanos. Sapiens. A ética é uma coisa que funciona se todos os envolvidos experimentam as mesmas sensações. Caso contrário, será apenas um texto que justifica a situação criada pela própria ética.

Estamos vivendo tempos sombrios. É o que diz a maioria das pessoas. Na verdade, estamos vivendo só mais um capítulo de uma história que vem se ajeitando, da melhor forma que pode, com o passar do tempo, aproveitando cada oportunidade para transformar o mundo ao nosso redor. No Brasil, por exemplo, estamos prestes a viver mais uma eleição. Os ânimos estão agitados, humores exaltados; como sempre. Quem não sente fome fala de ética, mas ainda há uma multidão faminta, que não compreende bem esse termo e, por questões “éticas”, possui um título de eleitor, e está pronta para usá-lo.

Pesquisas científicas já provaram que mesmo os primatas como os chimpanzés usam de simulacros para manipular a opinião de outros macacos. Por exemplo, um membro do bando pode usar o sinal que significa a presença de predadores para espantar os outros, a fim de ficar com toda a comida para si mesmo. Interessante como isso nos lembra as promessas de muitos candidatos, não só hoje, mas em toda a extensão da história política desse pequeno grande país. De tempos em tempos, a gente ouve de alguém, geralmente de terno e gravata, que o “inferno é o outro”. Que o outro candidato representa o perigo, o risco de trazer morte e destruição para a nossa tribo. Mas, como saber se é verdade ou não?

Should we stay or should we go?

O nosso próprio instinto mais íntimo, gravado em nossos DNA’s, há milhões de anos, nos inclina a escolher um lado, a fim de nos preservar; um instinto de sobrevivência. Pois, de barriga vazia não viveremos muito tempo, e com o predador por perto corremos o risco de nos tornar a sua comida. Prisioneiros desses dilemas, e sem condições de discernir bem sobre se corremos ou se ficamos, acabamos no meio de uma grande batalha por nossas mentes. As eleições são um palco onde o personagem principal é a nossa atenção.

“Olhem para mim, eu sou a solução”, dizem todos os candidatos. Mas, a maioria esconde suas garras e dentes afiados, para não assustar a ingênua presa que está de estômago vazio, desesperada, fragilizada e disposta a algum nível de risco para não matar seus filhotes de fome. O instinto nos persegue, mordendo nossos calcanhares, movendo nossos pés na direção que não sabemos exatamente se é a correta.

Notícias ruins chamam a atenção sim. Temos medo de sofrer, de morrer e levar a pior. E é esse temor que nos trouxe até aqui, goste você ou não. Se acreditássemos em tudo que nos contam, já teríamos sido extintos, sem misericórdia. Claro que erramos aqui e ali, mas no computo geral, parece que ainda estamos na vantagem. Ainda estamos aqui, lutando por nossa sobrevivência. Com medo sim, mas querendo mudanças, pois estamos de saco cheio de ouvir o mesmo e repetido e irritante grito “Olha o predador aí!!!”.

Vamos continuar com medo? Talvez, mas podemos aprender a identificar a voz que tenta nos enganar. Podemos começar a duvidar daquilo que ouvimos. Podemos proteger nossas crias e a nós mesmos, sem simplesmente correr de volta às árvores, ou dar ouvidos ao canto de uma sereia mentirosa. Diferente de nossos parentes caçadores-coletores, que moravam em árvores e temiam sons estranhos que vinham detrás de moitas tremulantes, podemos usar o Google para avaliar o que o dono do “grito” tem de autoridade para nos chamar a atenção.

E agora, José?

Como dizia um dos principais autores da declaração de independência americana, Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos Estados Unidos: “Aquele que recebe uma ideia de mim recebe a instrução para si sem diminuir a minha, assim como aquele que acende sua vela na minha recebe a luz sem me deixar na escuridão”.

E aqueles que ainda nem sabem o que é um navegador de Internet, esses são nossos filhos por adoção, pois ainda estão desprotegidos, presas fáceis, de barriga e mente vazias, sem nem mesmo a mínima ideia do que significa ética. E mudar isso é a responsabilidade de todos que conseguem ler um texto como esse. Ainda completo, com o poeta mineiro CDA, “A festa acabou, a luz apagou, / o povo sumiu, / a noite esfriou, / e agora, José? / e agora, você? / você que é sem nome, / que zomba dos outros, / você que faz versos, / que ama, protesta? / e agora, José?”. E agora, predador?

Filosofia

Atitude Criativa: Arroz Com Feijão #001 IMAGINAÇÃO

 

ATITUDE_CRIATIVA_01_IMAGINA

Olá criativo(a), quero dizer, você que se interessou pelo texto. A ideia aqui é mostrar que a criatividade é universal, acessível e extremamente importante para todos nós como seres humanos, na busca de significado em nossas existências. Meu desafio é simplificar o assunto, a fim de provar que ela, a criatividade, está ao alcance de todos, e que pode e deve ser desenvolvida em nossas vidas.
Acompanhe a série que trará semanalmente vários assuntos pertinentes ao processo criativo. Se você deseja mesmo mergulhar nesse mundo, é melhor desejar ardentemente e ir o mais fundo que puder. Esse mundo é viciante e sem caminho de volta. Criatividade é atitude; um estilo de vida que exige prática diária, e dedicação na arte de encontrar beleza nas coisas simples e um propósito capaz de sustentar a nossa dedicação diária.
 
#001 – IMAGINAÇÃO
Uma das mentes mais extraordinárias do mundo brincava de cavalgar feixes de luz, na esperança de explicar a sua velocidade. Albert Einstein chegou às suas conclusões porque não tinha medo e nem mesmo vergonha de se imaginar em situações, aparentemente, ridículas. O poder que há na imaginação humana é inconcebível. Sem isso, nada do que criamos até hoje teria sido possível. Para Einstein, imaginação é mais importante que o conhecimento. Ou seja, antes de qualquer equação é preciso ir além daquilo que é conhecido e criar, a despeito de qualquer obstáculo. E a melhor forma de fazer isso é se divertindo enquanto aprendemos e desenvolvemos nossas ideias, por mais estranhas que sejam. Basta experimentar. Simples assim!
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Barter DCM
Design, Criatividade & Marketing
 
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Barter DCM
criatividade

METRALHADORA CHEIA DE MÁGOAS

“Os medíocres acham que todos são iguais.”
Blaise Pascal

 

Muitos filósofos defendem que a busca humana pelo ato criativo está vinculada à ideia de que sabemos que somos finitos, de que vamos morrer, e que não podemos dominar o tempo; de que o tempo, definitivamente, não para. Pode ser. Difícil ter certeza. Mas, uma coisa é certa, a dor é um dos maiores e mais eficazes catalisadores da nossa criatividade.

Isso está explícito na história da arte. Basta dar uma breve olhada nas páginas de um bom livro sobre o tema. Dificilmente, a felicidade motiva a criação de obras de arte. O Pensador, de Rodin, não parecia muito feliz com aquela pesada cabeça pendendo sobre a sua mão direita. A Guernica não era uma alegoria ao aniversário de nenhum dos filhos de Picasso; e a Monalisa até hoje não nos convenceu se realmente está rindo.

sofrência está aí, para provar que não estou falando uma bobagem tão grande. A desgraça vende mais jornais. A tragédia mantém mais TV’s ligadas. Quem matou Odete Roitman? E como terminou Avenida Brasil? Até em A Vida é Bela, de Roberto Benigni, a desgraça, mesmo travestida de brincadeira, ainda era desgraça em uma de suas piores facetas.

A dor alheia e a dor particular pavimentam o fluxo de sensações e sentimentos que, muitas vezes, só podem ser descritas com precisão, ironicamente, através da poesia, da música, do cinema, da literatura, enfim, da arte como um todo.

E isso ajuda a vender.

Cultuamos a força que existe nos eventos amargos que ocorrem no mundo. Bandas de rock tiveram sucessos com músicas feitas durante períodos de crise entre seus membros. A própria guerra foi motivadora de atitudes profundamente inesperadas em muitos países, cujas populações foram capazes de se mobilizar e mudar os rumos da história, para o bem e para o mal.

Quando li o texto do maestro BillyInteligência Artificial e Música, no UoD, comecei a fazer muitas perguntas sobre originalidade. Voltaire dizia que a originalidade “não é mais do que uma imitação criteriosa”. Claro que copiamos sempre, e de muitas formas. Precisamos de referências. Sem elas, não teríamos um mapa para chegar a novos lugares, ou de onde começar algo novo, a partir do já conhecido. Mas, mesmo o “ato de copiar” sendo regra geral no processo criativo, acredito que a ousadia de se rebelar contra o status quo nos ajuda de alguma forma a aperfeiçoar nossas criações, pois podemos levar em conta o que está pronto e usá-lo como negação, seguindo caminhos contrários.

As Inteligências Artificiais prometem muito, e, certamente, vão entregar muito. A transformação que está mudando nossos dias, gradativamente, sem nem mesmo percebermos, prova que sem a ajuda dessa tecnologia será impossível viver nesse novo mundo digital.

A criação de música é apenas mais um campo onde ela estará presente.

Concordo com o texto do maestro Billy, e acredito que as “máquinas” podem ajudar nos processos criativos. Mas, acredito também que a arte da criatividade pura, que precisa de doses cavalares de rebelião, não poderá ser simulada por um algoritmo. Pelo menos, por enquanto. A história da arte mostra um pouco disso. E, na música, percebemos que o conformismo nunca rendeu sucesso a nenhum compositor. Sucesso de verdade, a ponto de torná-lo inesquecível.

A reinvenção de conceitos, fugindo do lugar comum, sempre ajudou a mudar a história da música. Máquinas ainda precisam de códigos para funcionar, e banco de dados para buscar as suas respostas. Dificilmente poderão tomar decisões “loucas”, estocásticas, desvairadas, pela simples vontade. A máquina criará muita coisa boa, mas sempre dependendo do que estiver disponível em suas bases de informação. O “maluco beleza” que faz experimentações ainda continua a ser o homo sapiens, que nunca se cansa de fugir dos lugares que ele mesmo inventa. Principalmente quando os motivos são sufocantes, amargos e, no confronto com a realidade, percebe que seu tempo corre, inevitavelmente, contra ele.

Viktor Frankl pode exagerar quando diz que não somos produto das circunstâncias, mas das decisões que tomamos. Afinal, nem sempre temos estrutura emocional ou referências suficientes para lidar com os dramas que vivemos. Nessas horas drásticas, diferentes das máquinas que travam por falta de variáveis, podemos apenas chorar. Talvez, mais tarde, criar um poema, pintar um quadro, compor uma música, rascunhar um roteiro, escrever na areia, esculpir um rosto, dançar até cair, etc.; encher a cara, e, depois, fazer tudo de novo; temendo o tempo que municia nossas mentes com as mágoas que usaremos como inspiração. A máquina precisa de ordens, nós apenas de bons motivos. Afinal, como o próprio Frankl também dizia, entre o estímulo e a resposta “está a liberdade de escolha”.

O que vamos criar hoje? Cazuza responderia: se você achar que eu tô derrotado, saiba que ainda estão rolando os dados; porque o tempo, o tempo não para.

 

criatividade

ELA SALVOU MINHA VIDA

Há sempre alguma loucura no amor.
Mas há sempre um pouco de razão na loucura
.”

Friedrich Nietzsche

 

Eram doses cada vez maiores. Não conseguia resistir. Percebi que quanto mais usava, mais sentia a necessidade de repetir. Estava em um beco sem saída. Dormia pensando nela e acordava da mesma forma. E os sonhos nunca deixavam a desejar: cada um mais louco que o outro. Não via saída, a não ser abandonar o mundo conhecido como “normal”, e mergulhar definitivamente naquele universo com o qual flertava desde criança.

Os dias de 2005, em Juiz de fora, eram cinzentos. Mesmo iluminando o mundo lá fora, ainda assim parecia que o sol não conseguia fazer bem o seu trabalho. A rua Espírito Santo, no centro da cidade, era um corredor por onde caminhava, muitas vezes, sem rumo. Quase sempre, eu repetia a rotina que mais me agradava. Saía pelo portão do prédio, subindo a rua na direção da praça Antônio Carlos, para buscar um pouco mais daquilo que poderia aliviar minhas dores emocionais. Voltava de lá com as mãos sujas, mas não tinha saída. Era o único jeito que tinha encontrado para evitar o pior.

Subia as escadas duras, contando os degraus. Acho que já tinha até dado nomes para cada um deles. Esperava não encontrar ninguém pelo caminho. Abria a porta apreensivo, olhando para os lados. Batia a porta atrás de mim como se fechasse um caixão. Estava em meu mundo sombrio; pronto para outras viagens. Lá estava eu, de novo, sobre a cama desarrumada, disposto a embarcar em mais uma jornada ao único lugar onde tudo é possível.

As folhas estavam cheias e eu não conseguia parar. A cada tentativa, eu tinha que colocar algo para fora. Era inevitável. Exalava, sem parar. O chão, as paredes, o teto e a janela para o viaduto eram concretos demais para mim. Precisava de uma saída para toda aquela aspereza. Mais uma vez, e, de novo. O dia se consumia, e a fumaça tomava conta do apartamento; minha mente, em frangalhos, era uma explosão completamente nua.

Quando acordava, via o resultado do que havia acontecido na noite anterior. Taças tingidas de vermelho, resquícios por todos os lados, e a dureza da realidade apertando o meu pescoço com a sua terrível força. Levantava daquela cama, com o peso do mundo sobre meus ombros. O único pensamento era de que precisava viver aquilo tudo de novo. Não tinha saída; assim que era possível, as folhas estavam em minhas mãos, à espera daquilo que só eu mesmo poderia colocar nelas.

Aquele ano foi sombrio. Tenebroso, diria. Pensei que não suportaria o fardo que pesava sobre mim. Cada dia e cada noite eram apenas vielas cheias de pensamentos estranhos. Uma multidão habitava aquela Pompéia, rodeada pelo Vesúvio, prestes a sentir sua língua quente, e encontrar o seu fatídico destino. Ela, porém, estava lá, com as suas mãos estendidas, como uma prostitua barata, esperando que mais uma vez eu dissesse sim. Nem sempre era doce, batia com força, às vezes, sussurrava, algumas, mas sempre estava por perto, apostando que, de alguma forma, eu cederia aos seus encantos.

Em 2005, quase desisti de seguir em frente. Foi um ano difícil. Mas, sempre que voltava da rua com os livros que pegava na Biblioteca Municipal de Juiz de Fora, tinha novos motivos para tentar de novo. Cada nova leitura servia de combustível para escrever poemas que eram não mais que vômitos existenciais. Entre uma leitura e outra, sacava uma folha do caderno para bombardear as linhas com o que travava minha garganta. Amores, perdas, dúvidas, lamentações, etc., eram as ervas que queimavam sobre o papel, e me enchiam de uma energia estranha.

A imaginação salvou minha vida. Se não pensasse desse jeito estranho, como faço todos os dias, talvez não estaria aqui escrevendo essas linhas. Ela me dizia para tomar doses cada vez maiores de experiências; exigia que buscasse a “não conformidade”. Mas, o que seria isso? Ela nunca me respondeu. Dizia apenas “não desista”. Não sei o que isso queria dizer também; mas aqui estou, anos depois, ainda brigando com ela, mesmo sabendo que é a única responsável pelo meu futuro. Afinal, relações tranquilas não mudam o mundo e não criam histórias dignas de serem contatas.

Somos todos sufocados por algum sentimento. Acabamos pegando atalhos, na esperança de aliviar a dor, sem nunca perguntar porque sentimos aquilo, e como poderíamos resolver o problema. A criatividade humana é um castigo, uma sentença da qual não podemos nos desvencilhar. Se não damos vazão aos nossos talentos, eles se acumulam, como água parada. E todos sabemos o que acontece depois. Pagamos preços muito altos por não acreditar em nossas capacidades criadoras.

É só não ter medo do que passa na sua mente.

Contaminá-la com produtos feitos para fugir à realidade, vai apenas tornar a sua imaginação cada vez mais pobre. Claro que não somos e não precisamos ser santos, mas abusar de atalhos em busca de respostas para nossas inquietudes servirá apenas para voltar ao mesmo lugar de onde partimos. Vazios. Usar a nossa imaginação nua e crua pode ser um jeito revolucionário para conhecer versões muito mais interessantes de nós mesmos. Daí, um mundo totalmente novo poderá surgir. Basta imaginar… sem medo de despir a mente e mostrar para todos o que você tem aí dentro.

criatividade, Educação, tecnologia

A arte de ser burro

“Invejo a burrice, porque é eterna.”
Nelson Rodrigues

A criatividade é a palavra mais envernizada do momento. Muitos holofotes estão sobre ela, principalmente aqueles que esperam tirar dela algum subsídio. O conceito está sempre em debate, a fim de acharmos uma definição que lhe caia bem. A própria dificuldade de realizar essa tarefa mostra que ou realmente não sabemos ou que preferimos uma descrição que se encaixe em nossos interesses.

Com o fim dos empregos, seremos obrigados a buscar novas funções, cada vez mais ligadas a segmentos que exigem posturas mais criativas. As máquinas estão “roubando” funções repetitivas, que exigem alto grau de concentração, como em fábricas e em setores burocráticos; e não se engane, até na medicina e em setores jurídicos já existem iniciativas para automação. Assusta muito esse processo, claro. Lembro dos tempos quando éramos obrigados a saber usar computadores. Novidade e artigo de luxo, custavam os olhos da cara. Cursos pipocavam por toda a cidade, de todos os preços. Currículos sem o famoso “conhecimento em Word e Excel” eram desprezados, sem misericórdia. Quem tem mais de 30 lembra bem disso.

Era a pré-história da revolução digital.

Máquinas burras fazendo amor com seres humanos. Dessa relação nasceria uma geração de pessoas que não conseguiriam perceber o mundo sem a ajuda das máquinas. A disruptura que hoje destrói nossas rotinas, colocando absolutamente todos em polvorosa, assusta pois achávamos que as máquinas seriam eternamente dóceis e obedientes. Isso, infelizmente, não é verdade. No passado, aprendemos compulsoriamente a usar máquinas, hoje elas nos libertaram de muitas atividades repetitivas para, enfim, prestarem atenção na gente, aprendendo com nossos passos, a fim de ajudar a guiá-los, “para o nosso bem”.

O Big Brother de George Orwell não está apenas em TV’s dentro de nossas casas, mas na palma das mãos de quase todos os seres humanos que habitam esse pequeno planetinha azul. As máquinas estão cada vez mais “inteligentes”. E isso só é possível porque somos a sua fonte. Mas, até quando?

Com a eliminação maciça de empregos por causa da automação, um número imenso de pessoas está ficando pelo caminho. Essas mesmas pessoas que foram obrigadas a conseguir um diploma em cursos de informática, estão hoje perdidas em busca de respostas sobre o futuro, com poucas ou nenhuma pista a seguir. Nesse cenário está sendo vendida a mensagem salvadora de que a única saída será investir na criatividade. “Todos somos criativos, e precisamos desenvolver essa competência” é o discurso mais repetido nos quatro cantos da Internet. Como houve nos anos 80 e 90, com a febre dos cursos de informática, teremos, creio eu, a febre dos cursos de criatividade. Com direito até a diploma para colocar na parede.

A questão é a seguinte: se há um sério e endêmico déficit criativo nas escolas, nas empresas, no mercado e na vida em geral, quem vai nos ensinar a sermos mais criativos? Quem vai nos salvar da inevitável ditadura das máquinas? As próprias máquinas?

Uma coisa é verdade, a tecnologia sempre trabalhou para tornar as nossas vidas melhores. Leia-se “melhor” como mais confortável, tranquila e rápida no que diz respeito à fruição dos prazeres da própria vida. Criamos para nos preocupar menos. Afinal, a preocupação é um importante ingrediente em histórias cujo personagem principal é a criatividade. Aí que está o problema. A tecnologia que criou o nosso “berço esplêndido”, e matou a nossa criatividade, hoje exige que sejamos cada vez mais criativos.

Quando Nelson Rodrigues fala da eternidade da burrice, tento acreditar que o dramaturgo nos lembra da nossa infinita condição de prisioneiros da ignorância. Ela não tem limites. Criamos máquinas porque não somos capazes de lidar com o volume de informações que geramos. Somos megalomaníacos por natureza. A arte de ser burro deve ser uma compreensão de nossa incapacidade de abraçar o mundo e deixar sim, que as máquinas tomem conta de nossas vidas, fazendo todo o trabalho “braçal”, como os gregos defendiam. Somos ignorantes porque não conseguimos saber e nem entender, absolutamente, tudo, sozinhos. Por isso começamos a escrever em tabuletas de pedra e madeira, e hoje temos tabletes conectados à Internet. E, mesmo assim, continuamos limitados, dentro de nossas características biofísicas.

Nos resta apenas a nossa imaginação e o seu poder atômico. Isso as máquinas talvez nunca tenham, mesmo operando na velocidade da luz. Mas, não há certezas sobre nada quando a imaginação humana entra em campo. As máquinas hoje ainda são estúpidas, mesmo nos surpreendendo todos os dias, com simpáticas IA’s e seus nomes sugestivos. Elas aprendem diariamente com nossos erros e acertos, e prometem forçar a barra.

Imagino um mar de gente desempregada em busca de criatividade para não morrerem de fome, que vai encher as portas dos cursos com filas intermináveis; inclusive cursos online, com kits, etc., etc., etc.

A única lição que consigo tirar disso tudo é a cena das máquinas nos observando para aprenderem. Se a gente se interessar por assuntos diversos, prestando atenção em como as pessoas funcionam e não apenas em como as máquinas funcionam, poderemos ter uma esperança. Enfim, ninguém melhor do que um ser humano para aprender com outro ser humano. As máquinas ainda só fazem trabalhos repetitivos porque são como animais selvagens. Agem por “instintos” escritos em linhas de códigos pré-definidos. Os criativos de carne e osso do século 21 serão pessoas, de todas as idades, que se interessam pelo homo sapiensna sua plenitude; na sua história e em como chegamos até aqui, sobre as ficções e mitos que definem a nossa cultura.

À medida que as ficções humanas são traduzidas em códigos genéticos e eletrônicos, diz Yuval Noah Harari, a realidade intersubjetiva vai engolir a realidade objetiva e a biologia vai se fundir com a história. “Portanto, no século XXI a ficção se tornará a força mais poderosa da Terra, superando os asteroides e a seleção natural”, diz. Para ele, se quisermos entender nosso futuro, decodificar genomas e triturar números, dificilmente será suficiente. “Temos de decifrar também as ficções que dão significado ao mundo”, defende.

Acreditamos em muitas coisas. E isso é o que nos move adiante. Além de pirâmides, porta-aviões, smartphones, bombas atômicas e naves espaciais, precisamos buscar entender o nosso porquê, mesmo que soe meio infantil ou piegas dizer isso. Por que criamos tantas coisas, inclusive máquinas para nos ajudar a fazer mais perguntas e correr o risco de sermos, ironicamente, superados por elas?

Esse cenário nos coloca contra a parede, principalmente porque nossos piores inimigos já sabem quase tudo sobre nós, e vigiam tudo o que fazemos. Em breve, serão capazes de prever 100% de nossas decisões, até por que boa parte delas é sugerida. Vamos precisar superar isso, com criatividade. Mas, onde ela está? Poderemos comprá-la na quitanda da esquina? Escolas e empresas poderão nos ajudar? Os cursos de criatividade poderão nos livrar de um apocalipse digital? Seria apenas mais um desafio a ser superado ou o triste fim da raça humana? Só o tempo dirá. E ele está cada vez mais escasso.

ciência, criatividade, Filosofia

ESSE CORPINHO AÍ

“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

FERNANDO PESSOA

Nossos corpos não poderão mais habitar a Terra, que está com seus dias contados; e nem mesmo os novos planetas que, em breve, vamos explorar. Pelo menos não com o corpo que possuímos. A evolução nos deu uma estrutura biológica teoricamente frágil, talvez porque com a plasticidade dos cérebros de nossos antepassados, eles conseguiram se adaptar em praticamente todas as partes do planeta, mesmo as mais inóspitas.

Resolvíamos problemas o tempo todo.

À medida que nosso conhecimento se tornava mais sofisticado, e a forma como o acumulávamos e o transmitíamos adiante, apenas o cérebro ganhava em complexidade, e o resto do corpo ficava cada vez mais limitado, sendo amparado por nossas criações, nos protegendo do frio, do calor, de objetos cortantes, de bactérias, de predadores, de desastres naturais, etc., e assim nosso corpinho perdeu pelos, presas, melanina, etc., se adaptando aos confortos que éramos experts em criar.

Em sua jornada o cérebro parece não ter limites.

Exploramos praticamente todo o mundo que conhecemos, e já flertamos com a ideia de colonizar outros planetas. O sapiens tem como marca a sua inquietude. A África não os deteve, até que todas as ilhas e continentes conheceram a planta de seus pés, e a marca de seu sangue; sem contar o que aprendiam pelo caminho. Gosto de olhar para o cérebro humano como um personagem. Ávido por conexões. A sua estrutura interna já é uma metáfora para o que busca fazer do lado de fora. Quanto mais experiências, mais conexões entre seus neurônios.

Somos informação, literalmente. Cada código que carregamos diz como “seremos” biologicamente nessa realidade na qual estamos. Tudo para um ser humano é código, é informação, e as trocas que eles possibilitam. Estamos chegando a um limiar, a um extremo. Acredito que nossos erros até aqui vão nos levar a um salto sem precedentes. A terra tem poucas chances de sobreviver ao volume de pessoas e a forma como interagimos com ela, atualmente. Nossos exageros estão nos condenando. E, talvez esse cenário acabe por agilizar o que nossos cérebros fariam em algum possível futuro: abandonar nossos corpos.

O admirável mundo que está batendo às nossas portas talvez não precise de pernas, braços, órgãos digestivos, sistemas respiratórios, nem mesmo uma expectativa de vida tão curta. Para viajar pelas estrelas, vamos precisar de uma consciência instalada num “corpo” mais poderoso, imune às intemperes do espaço sideral. Mentes que possam viajar à velocidade da luz, e serem despertas só quando estivem próximas do destino, sem precisar de capsulas criogênicas. Mentes que aprendem mais rápido e com a capacidade de selecionar o que realmente é útil e importante para aquele momento. Quem sabe até, mentes à prova de fake news (talvez aqui eu tenha exagerado).

O mundo está abarrotado de gente e não temos governos capazes de lidar com isso de forma ética. As máquinas estão assumindo nossos lugares em atividades repetitivas. Em breve, teremos um volume incontável de desempregados, talvez inúteis, em um mundo que não precisa mais de gente que apenas saiba apertar parafusos. Essas pessoas vão continuar querendo comer, beber e sonhar com um lugar ao sol. Como lidar com isso?

Serão esterilizados? Exterminados? Vamos jogar uma lona sobre eles e fingir que não estamos vendo? Vamos levá-los todos para uma ilha e deixá-los lá, como degredados? Será que em sua jornada rumo ao infinito o cérebro prevê o descarte dessas pessoas, em nome de sua busca pela eficiência e liberdade plena para dominar o universo?

Podemos não responder nenhuma dessas questões. Sim. Mas, ainda permanece a realidade. O planeta está imundo, sujo, poluído, com cada vez mais gente, e cada vez mais tecnologia tornando nossas vidas mais fáceis. Inventamos tudo o que temos para extinguir o esforço físico. No final, sobrará apenas o cérebro, e a sua fixação pela arte de pensar. Ele, o cérebro, nos escravizou durante todos esses milênios, nos legando todo o esforço físico, a fim de encontrar a sua liberdade em uma placa de silício, onde terá a sua melhor versão da eternidade. Será?

Os fatos parecem corroborar para esse cenário.

Precisamos pensar muito sobre isso; com bom senso é claro. E encontrar uma forma de seguir rumo à terra prometida, e sem os nossos amados corpos. Acho que eles não terão muita serventia no futuro. Parece que o cérebro tem outros planos. Talvez o apocalipse que tanto tememos será um evento prosaico, com a nossa colaboração, consumindo e jogando as sobras pelo caminho, sem nenhuma responsabilidade.

As máquinas que estamos construindo, a pedido do inquieto cérebro, se um dia forem capazes de copiar a lógica dos códigos e da química que nos tornam sencientes, percebendo o mal que fazemos a nós mesmos e ao berço onde nascemos, poderão nos dar a oportunidade de escolher um caminho diferente, mudando nossas práticas ou, simplesmente apertando o botão de “extermínio”, detonando com todos, se acreditar que não há mais esperança para a humanidade, feita de carne e osso.

Sobre isso não há a menor certeza. Claro, são apenas conjecturas jogadas aqui neste texto. A única certeza é que continuaremos criando coisas novas, explorando o planeta de todas as formas possíveis, sonhando um dia sair do sistema solar, em busca de novas conexões, de novas experiências, como bons humanos que somos. Mas, isso vai ter um custo. Qual? Não sei. Só o tempo dirá. Agora só tenho a minha imaginação e um corpo frágil que ainda a domina, que a prende; a mente parece não caber dentro de nós. Parece um ser selvagem, de tão inquieta que é. Quem a dominará?

Cinema, criatividade, Filosofia

O que é a Matrix?

“The answers you get depend on the questions you ask.”

Thomas S. Kuhn

 

— Por favor, apenas ouça. Eu sei porque você está aqui… Eu sei o que você tem feito… porque você dorme mal, porque mora sozinho e porque, noite após noite, fica grudado em seu computador. Você está procurando por ele. Eu sei, porque uma vez eu estava procurando a mesma coisa. E quando ele me encontrou, me disse que eu não estava realmente procurando por ele. Eu estava procurando por uma resposta. É a pergunta que nos motiva. É a pergunta que te trouxe até aqui. Você conhece a pergunta, assim como eu.

A música alta e a multidão abafaram o som da voz de Trinity, mas Neo a ouviu muito bem. Ele engoliu em seco, e respondeu com uma pergunta: a grande questão do universo.

Somos seres únicos, donos de nossos destinos, ou apenas sacos de carne usados como pilhas para fazer sistemas elétricos funcionarem? Não, essa não é a pergunta de 1 milhão de dólares. Talvez um pouco mais, eu não sei. De verdade. Talvez, ninguém saiba.

Quando fazemos nossas orações, quando sorvemos um gole de cerveja, quando dobramos o corpo para o leste, quando esgotamos uma carreira de pó, quando cortamos os pulsos, quando pintamos uma tela ou esculpimos uma estátua, quando clicamos em “postar”, quando compomos um novo riff, quando abrimos os olhos, etc., enfim, quando percebemos que estamos vivos, imploramos por respostas.

Cada um à sua maneira.

A nossa busca pessoal por respostas nos leva a fazer escolhas. Até mesmo quando não escolhemos nada; e essa é a pior delas, acredite!

T. S. Eliot dizia que poetas imaturos imitam; poetas maduros roubam; maus poetas desfiguram o que pegam; e bons poetas transformam em algo melhor, ou ao menos em algo diferente. “O bom poeta solda seu furto em um todo de sentimento que é único, totalmente diferente daquele do qual ele foi arrancado”, defende. Somos todos um bando de ladrões, sem exceção. O problema é que preferimos copiar e colar. Estamos em busca de respostas, mas fazemos as mesmas perguntas repetidas que nos vendem no atacado.

Para sermos originais precisamos aprender a copiar.

Grandes mentes criativas eram ladrões contumazes. Darwin, Picasso, Woolf, Beethoven, Curie, Edson, da Vinci, Kahlo… a lista é infinita. Todos tinham um caderninho onde colocavam as lascas de percepção que tinham do mundo. Pérolas que acabaram se tornando uma resposta às suas próprias perguntas. Um jeito de se expressar para o mundo, pegando emprestado o que achavam pelo caminho. Newton, o grande gênio, estava “sobre os ombros de gigantes”, todos sabem disso, mas nem mesmo essa frase era inédita naquela época.

Com ou sem maldade, surrupiamos o que nos salta aos olhos. Se brilhar colocamos na sacolinha. Se ninguém gritar, a partir de agora é nosso.

O livro Roube Como um Artista, de Austin Kleon parecia apenas mais um apelo de marketing quando o comprei. Ele ficou um tempo na estante, até eu cismar de lhe oferecer uma oportunidade. Como é complexo o ato de criar. Mary Oliver disse que somos criativos o dia inteiro, e que precisamos de uma ajuda para fazer com que isso funcione, “porque nosso lado criativo se cansa de esperar, ou se cansa, simplesmente”. Elizabeth Gilbert fala que nossas melhores ideias voam até nós, pousam sobre nossas mentes, mas têm prazo de validade. Sem que percebamos, se não a deflagrarmos violentamente dentro de nós, de alguma forma, ela levanta voo, roubada pelo próprio “vento” que a trouxe.

O mundo está em movimento, e as ideias também. O universo tem pressa.

A busca pela Matrix é a aventura do ser humano. Estamos ou não ligados a uma IA que nos manipula a mente, e ainda suga nossa preciosa energia? Isso é difícil de responder, quase impossível. Pelo menos por enquanto. A questão é, estamos todos ansiosos por entender qual é o nosso papel nessa vida. A ansiedade nos obriga a tomar decisões, as mais variadas possíveis. A inquietude gerada por não termos todas as respostas instiga uns a criar o seu próprio caminho, e outros a se hospedarem no fundo do poço mais próximo.

Saber o que é a Matrix é só um jeito artificial de encontrar nossas verdades.

A metáfora do filme mostra que não podemos apenas ouvir para entende-la, mas temos que ver com nossos próprios olhos. Aí, sim, teremos compreendido o que ela realmente é. O problema é que, depois disso, não tem volta. Vamos perceber que a vida como a conhecíamos não é bem o que parecia, que precisamos de esforço extra para sobreviver numa realidade que insiste em matar nossos sonhos, cada um deles, sem misericórdia; porque somos úteis apenas quando seguimos as regras.

Gastar tempo procurando nossas próprias respostas pode ser um crime.

Experimente roubar ideias com originalidade. Tente criar algo a partir de ideias incríveis, mas de um jeito totalmente diferente. Experimente fazer perguntas; experimente experimentar. Tente fazer o que ninguém faz. Dê a si mesma a oportunidade de fugir do lugar comum. Se já fez, sabe muito bem quais são as consequências. Se ainda não o fez, sugiro preparar-se para uma dor que só você poderá sentir. Pois, nessa vida, até para sofrer só vale a pena se for numa versão inédita, senão ninguém presta atenção em você. O preço da originalidade é não ter vergonha de roubar com dignidade, mesmo que isso nos custe nossas melhores lágrimas.

É a pergunta que nos motiva. É a pergunta que nos trouxe até aqui. Você conhece a pergunta, assim como eu…

criatividade, Educação, MERCADO

O QUE STEVE FARIA?

“Conheci alguns gênios com quem era tão difícil trabalhar que tive que deixá-los ir embora;
por outro lado, alguns de nossos funcionários mais brilhantes, agradáveis e eficazes
foram demitidos por empregadores anteriores por não serem nada disso.”
– ED CATMULL

 

Ser original é impossível. Não é difícil afirmar isso, já que para ser 100% original, genuinamente, deveríamos criar algo totalmente novo, sem copiar nenhuma parte do que criamos. A própria natureza é uma metáfora para isso. Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Essa constante transformação que reina absoluta no planeta é o motor que mantém o seu brilho, a sua vivacidade. Não sabemos como se “originou” a natureza como a conhecemos hoje. Há teorias e conjecturas, mas certeza absoluta ainda não. Uma coisa que podemos afirmar, sem medo, é que a essência do processo de criação na natureza está intrinsecamente na sua “arte” de combinar e recombinar elementos. E a sua riqueza está exatamente nessa característica.

O novo é adaptativo.

Quando a Pixar e a Disney começaram a “namorar”, criou-se um temor interno de como seria esse relacionamento, e de como seria um possível desfecho. Steve Jobs conhecia bem a história interna que reinou absoluta por décadas na Disney, após a morte de seu criador e mentor criativo. Walt era o espírito que mantinha a empresa em movimento. Sua energia guiava a equipe como um sol. Após sua morte ficou cunhado o termo “O que Walt faria?”, e esse foi o mote que conduziu a linha criativa da mais famosa produtora de entretenimento do mundo.

Infelizmente, não funcionou como o esperado.

Ao ler o livro Criatividade S.A., de Ed Catmull, atual presidente da Pixar Animation e da Disney Animation, fica claro como tudo aconteceu. Walt era um ser humano comum, mas as suas atitudes não. Seu talento foi combinar imaginação e saber escolher com quem trabalhar seus projetos.

Combinar ideias e pessoas é uma arte.

Mas, usar um mantra na esperança de evocar o espírito que já não está mais presente pode ser infrutífero. A maioria dos projetos de Walt funcionaram, pois ele tinha um jeito peculiar de dar asas às suas ideias. Sem a sua presença, foi necessária uma nova forma de fazer isso. Mas, a empresa acreditava que poderia “copiar” seu estilo de criação. O que se provou improdutivo com o passar do tempo.

Quando Steve Jobs começou a negociar a parceria entre as duas empresas, a primeira coisa que procurou eliminar era o tal mantra: o que Walt faria? Ele mesmo, na Apple, já execrava a possibilidade de sua equipe copiar suas ideias e seu jeito de pensar, buscando sempre incentivar o pensamento original.

Sua queridinha, a Pixar, estava prestes a se tornar sócia da gigante Disney, mas ele não queria que a cultura da maior contaminasse a menor. O espírito criativo que tinha transformado a minúscula e cambaleante empresa, comprada de George Lucas, numa potência ganhadora de vários Oscar’s não poderia ser comprometido. Pelo contrário, deveria ser levado ao novo parceiro, a fim de resgatar a sua essência, exorcizando ideias e costumes antigos, mantendo assim a identidade de ambas, sem que uma copiasse a outra.

Jobs deu carta branca para Catmull e sua equipe. Tinham autoridade para fazer o que quisessem. E o resultado todos conhecem. O casamento das duas marcas as fez ainda mais fortes, sem a necessidade de misturá-las. Ser original é encontrar a sua essência e permitir que ela crie a sua arte a partir de uma visão única, combinando ideias e pessoas livremente.

Gosto da visão de Catmull sobre a forma como sua empresa lida com as pessoas. Ele acredita que é melhor ajudar sua equipe a encontrar e aperfeiçoar seus talentos do que simplesmente trazer pessoas “prontas e completas”. Acredito que boa parte de sua originalidade está aí, nessa capacidade de “ler” gente. Reciclando o que puder ser reciclado, e descartando o que não for possível.

É interessante aprender a liberar as pessoas, por mais valiosas que possam parecer naquele momento.

Existe uma crise de criatividade. Isso é um fato.

Até a leitura que fazemos sobre ela, muitas vezes está equivocada. Criatividade, para ser o que realmente deve ser, requer problemas reais. Daí, soluções inesperadas. O sucesso de empresas como Apple, Pixar, Amazon, Google, etc., tem muito a ver com a forma como solucionaram grandes problemas, aproveitando o timing, combinando fatores, elementos e pessoas, oferecendo soluções rápidas e únicas. E isso vale para o nosso dia a dia também.

Empresas inovadores parecem distantes, fazendo coisas impensáveis para mortais como nós, mas na realidade elas só têm sucesso porque seguem regras simples: dão liberdade para seus colaboradores desenvolverem suas próprias ideias. Imagine se na natureza tivesse um “chefe” dizendo o que cada elemento deveria fazer, seguindo regras rígidas de comportamento. Ainda seríamos um grande deserto, sem nada da belíssima diversidade que temos hoje.

A natureza é densamente cheia de possibilidades porque parece existir um tipo de “curiosidade” que permeia toda a sua estrutura. Parece que ela está o tempo todo experimentando coisas novas, mas, na verdade, está apenas recombinando ideias, fragmentos, átomos e moléculas, afim de estabelecer novas formas de equilíbrio.

Na natureza tudo pode acontecer. E não se engane, pode não parecer mas também fazemos parte dela, e essas mesmas regras servem para cada um de nós.

O problema é que após séculos de alfabetização e doutrinação escolar, conseguimos padronizar o pensamento humano, tornando a criação de ideias algo artificial, pautado em regras fixas. Não é tão natural para o ser humano moderno ter ideias próprias, livres e espontâneas. Nas escolas está tudo pronto, à espera da hora certa de ser ensinado. Em outras palavras, a instrução direcionada tornou as crianças menos curiosas e, assim, menos inclinadas a explorar o mundo, sempre dependentes de algum tipo de guia. Na fase adulta, continuamos esperando que alguém diga o quê, quando e como fazer.

Mas e se o verdadeiro problema for a própria escola?

Para Peter Gray, autor de vários livros sobre educação, o fato lamentável é que uma de nossas instituições mais queridas, por sua própria natureza, “falha com nossos filhos e com a nossa sociedade”, comenta. Numa cultura tomada por essa lógica, fica difícil exigir comportamento criativo e espontaneidade de jovens que vão se candidatar a vagas em empresas. Estamos tão acostumados a seguir regras e esperar o apito para agir, que não conseguimos desenvolver um espírito empreendedor em sua plenitude. Preferimos perguntar: o que o Steve faria?

É mais fácil.

O ecossistema mental das pessoas está árido. Séculos de padronização no ensino entulharam nossas mentes com processos rígidos de comportamento. Ao contrário de uma floresta, repleta de vida e possibilidades, em que tudo se aproveita, em que tudo pode acontecer, na qual a vida se reinventa o tempo todo, uma pobre lavoura de monocultura sofre com pragas por não saber lidar com elas. É preciso pesticidas e esforços imensos para que não morra. Quase tudo é artificial.

Numa floresta há predadores naturais para cada ser. Tudo está em perfeito equilíbrio. Um ambiente de pura liberdade. Imagine uma mente como uma densa floresta tropical, onde tudo pode acontecer, e qualquer resultado serve para reconfigurar o próprio espaço de criação. Agora, imagine uma mente que só repete ações, copiando e colando, como uma lavoura de soja, por exemplo, que sofre para se manter viva, dependendo de produtos químicos para repelir predadores e da ação direta da mão do homem e de máquinas para “dar certo”.

Não é possível falar de criatividade sem mencionar o sistema de educação; sem mencionar a forma como desenvolvemos o ecossistema mental das pessoas. Se as mentes virgens infantis são invadidas, e nesse espaço são criadas monoculturas, baseadas em repetição e dependência, dificilmente criaremos gerações de pessoas criativas, dispostas a inovar. Os estudos de Peter Gray mostraram que a insatisfação com a escola se mostram cada vez mais evidentes. E que o aprendizado que depende de alguém para ensinar já não atende às necessidades das crianças e jovens. Quando descobrem por conta própria, com um mínimo de interferência, as crianças desenvolvem sua criatividade, encontrando respostas de forma muito mais rápida.

Ser original é impossível. Que bom! Isso nos obriga a encontrar nossas próprias respostas, combinando ideias e pessoas, aproveitando o momento, criando a nossa voz e a nossa identidade: isso amplia nosso ecossistema mental. Ou então, podemos esperar que alguém tome a iniciativa, mude o mundo, crie novas regras, e nos diga o que fazer, quando e como.